1)Qual a origem da Conapec Jr?
Vasconcelos - A Conapec - Consultoria Agropecuária
Junior - é uma empresa júnior formada em 1993. Quando
fui contratado na FMVZ, em 1989, os alunos solicitavam estágio
na área de bovinocultura de leite e não tínhamos
infra-estrutura para recebê-los como estagiários. Então,
organizamos as pessoas interessadas que começaram a visitar propriedades
na região aos finais de semana. Nestas visitas havia interação
entre os alunos/produtores e funcionários, que aparentemente
é fácil e simples, porem é vital dentro da atividade
técnica do dia a dia. Daí nasceu o grupo de assistência
a produtores de leite. Fazíamos palestras e visitas a produtores,
mostrávamos que o que faz a diferença é fazer bem
feito e com consistência, mesmo a mais simples das tecnologias.
Isto também fez crescer a consciência dentro do grupo da
importância do técnico na capacidade de ajudar a melhorar
a vida das pessoas. Com o tempo, esse grupo foi crescendo e aumentando
o número de pessoas interessadas. Na época, surgiu um
movimento de empresas juniores dentro da universidade, então
a gente correu atrás, já tínhamos a experiência
do grupo, pegamos as necessidades – o que era montar uma empresa
júnior – e foi montada a Conapec Junior, que é a
minha maior contribuição dentro da minha carreira profissional.
2) Como ela funciona?
Vasconcelos - Teoricamente nos moldes de uma
empresa, onde tem presidente, diretoria, jurídico, financeiro,
projetos. Na realidade, funciona no simples formato de pessoas interessadas
que investem seu tempo fazendo alguma coisa que elas acham que vai ser
interessante amanhã. Temos reuniões às terças
(gado de corte), quartas (gado de leite) e toda segunda feira, uma reunião
da diretoria. A essência do grupo é: pessoas interessadas
que investem tempo aprendendo, convivendo, falando de coisas que estão
fazendo hoje e vão fazer amanhã.
3) Foi você quem fundou?
Vasconcelos - Apenas aglutinei pessoas interessadas.
4) Quais as dificuldades encontradas?
Vasconcelos - A dificuldade é
obter equilíbrio. O que isto quer dizer. Por ter bons exemplos,
alguns podem achar fácil conseguir seu objetivo, porem temos
que realçar que não é fácil, que cada um
tem que obter seu espaço, com trabalho e esforço pessoal,
sem passar por cima de ninguém, mas que todos são capazes,
pois afinal estão cursando uma boa faculdade. Temos a facilidade
de citar exemplos que tem dado certo, o que estimula e desafia os mais
novos. Então, eu não vejo muita dificuldade, só
é preciso gerenciar e ficar atento, pois todo ano mudam as pessoas,
tem a diretoria que todo ano sai. Todo ano, tem pessoas novas também.
A dificuldade é lembrar anualmente para as pessoas todas as obrigações
e atividades a serem realizadas. Basicamente isso. Na realidade, essa
dinâmica é um dos pontos fortes, pois várias pessoas
passam pela experiência da Conapec e adquirem aprendizado. As
pessoas nunca ficam ali, sempre tem que mudar. Então essa é
a maior dificuldade mas que pode ser vista também como a força
do grupo.
5) Se alguém tiver interesse em
integrar a Conapec Jr, o que ela deve fazer?
Vasconcelos - Todos podem entrar, basta
ter vontade. Não existe processo de seleção. Todos
são bem vindos.
6) Quantas pessoas fazem parte da Conapec?
Vasconcelos - Numericamente 50 pessoas, na prática
20 pessoas. Digo isso porque 50 pessoas participam das reuniões
e em torno de 20 pessoas vão até as fazendas. Alguns estão
Conapec e outros são Conapec.
7) Qual o perfil desse estudante?
Vasconcelos - A gente aceita biodiversidade.
Deve ter interesse e seguir as regras mínimas. A regra básica
é o comprometimento. A gente pede para fazer, tem que fazer.
Não aceitamos corpo mole.
8) Grandes profissionais do mercado são
ex Conapec. A que você atribui esse sucesso?
Vasconcelos - A esse comprometimento inicial. Eles sabem
que a toda ação vem uma reação. Então,
se eles atuam bem, vão ser reconhecidos e vão crescer.
Então, quem começa cedo atuando e correndo atrás,
aprende cedo, e o mercado enxerga isso aí. Pessoas qualificadas
estão por toda parte, mas eu acho que a diferença é
essa, mostrar que tem que se rir junto e chorar junto. Tem várias
formas de se falar isso, mas a essência é, sem dúvida,
o comprometimento.
9) O que você acha que o mercado
está buscando em um profissional hoje em dia?
Vasconcelos -Pessoas interessadas, que gostam
do que fazem, que querem fazer, e fazem.
10) Fale um pouco sobre o curso Novos Enfoques
na Produção de Bovinos.
Vasconcelos - O curso está na XII edição.
Em 1993 fui aos EUA fazer um estágio com o Dr. Milo Wiltbank
e Dr. Richard Pursley que estavam desenvolvendo estratégias de
reprodução, inclusive o protocolo de IATF Ovsynch. A gente
fazia um curso em Botucatu que era “Atualização
em bovinocultura de leite”. Então, pensamos em trazer estes
novos conceitos para o Brasil. Chamamos, aceitaram, vieram, deu certo
e continuamos. Temos como meta chegar ao XV.
11) Por que vocês sempre buscam pessoas
de fora do Brasil?
Vasconcelos - Porque elas trazem choques de opinião,
a gente precisa de diversidade. Essas pessoas trazem novos conceitos,
e aí, consequentemente, criam uma discussão, geram engrandecimento.
Aqui no Brasil, nós já estamos aqui, conversando aqui,
falando aqui. Então, a idéia é trazer gente nova
exatamente para colocar “fogo na fogueira”. Criar discussão
e falar para muita gente que o que nós estamos fazendo talvez
esteja bem feito; saber se o que estamos fazendo está na linha
do que eles estão fazendo e mostrar que tem gente boa no Brasil.
Quando vem alguém renomado lá de fora e fala, no mesmo
sentido, o que está sendo falado e feito aqui, eu acho que é
uma valorização do brasileiro e não uma desvalorização
com a não participação de palestrantes brasileiros.
Nos dois últimos eventos convidamos técnicos de campo
que estão utilizando tecnologias desenvolvidas aqui no Brasil
para apresentarem seus dados e mostrar do potencial humano que temos.
12) Como é a interação
com os participantes?
Vasconcelos - A gente tenta receber bem –
como gostaríamos de ser recebidos, numa forma simplista de ver
as coisas. Colocamos o nosso grupo para fazer as coisas da nossa maneira
- a gente faz, a gente serve, para mostrar que estamos gastando energia
em recebê-los. E eles adoram.
13) Vários alunos têm ido
estagiar com eles, como está essa experiência?
Vasconcelos - Praticamente todos têm
a oportunidade. Eles vêm, a gente conversa e acerta. Eles vão,
trabalham, crescem, alguns ficam, outros retornam, sempre mais conscientes
do seu potencial.
14) Por que você acha que é
válido para esse aluno realizar o estágio extra curricular
fora do Brasil?
Vasconcelos - Mundo novo, experiências
novas sobre todos os aspectos. Nada como outras pessoas falarem o que,
às vezes, você fala e não te escutam. Aqui você
fala todo dia pra eles estudarem, às vezes não estudam
o que podem. Chegam lá fora, percebem que tem que estudar. Aí
eles descobrem que estudar é bom! As pessoas precisam sempre
de um “chacoalhão”.
Além disso, é uma grande oportunidade, pois em torno de
60 a 70% dos que vão, são convidados para fazer mestrado.
Desses, grande parte fica fazendo mestrado e após a especialização
alguns estão voltando, outros estão ficando. Depende do
nosso país na realidade. Nossa missão é criar oportunidades
para nossos alunos. Muitos ficam por lá. É triste, mas
é a realidade. No Brasil se fala em aumentar o número
de universitários e não no aumento de oportunidades dos
que estão hoje se formando. Demagogia.
15) Quais são seus próximos
desafios profissionais?
Vasconcelos - Eu não penso muito
pra frente, eu penso em fazer bem o que estou fazendo hoje e amanhã,
não depois de amanhã. Apesar de saber que devemos planejar
o que se vai fazer para frente, nunca parei pra pensar o que eu vou
estar fazendo daqui a 10 anos, nem a 5, nem a 3. Só quero estar
fazendo bem o que faço hoje, contribuir com as pessoas que acreditam
no nosso trabalho. Temos como meta realizar o XV curso Novos Enfoques,
convidando ex alunos da Conapec para apresentarem seu trabalho. Acredito
que vou ficar muito feliz e emocionado.
16) E os rumos da Conapec?
Vasconcelos - Todo ano ela termina e
começa. Tem eleição e para a turma nova que assume,
eu peço: espero que não acabe na sua mão. Essa
é a frase da entrega. Desejo boa sorte, muito trabalho e que
não deixe a peteca cair.
17) Existem muitas mulheres no grupo? Como
você vê isso?
Vasconcelos - Sim, bastante. Hoje 60-70%
dos que entram na universidade na área de zootecnia e veterinária
são mulheres. O campo vai ter que adequar, porém ainda
temos alguns problemas. As meninas entram, às vezes com mais
vontade, mas depois tem algumas decepções. Umas continuam,
outras mudam de opção. O meio tem que mudar, dos dois
lados. Não adianta a mulher achar que o meio vai mudar, a mulher
tem que se adequar e mostrar ao meio que ele tem que mudar. Este é
o desafio das mulheres que vão trabalhar a campo hoje.
18) E quais os desafios do técnico
de campo?
Vasconcelos - Mostrar que o trabalho
dele dá retorno, basicamente isso. Ou seja, mostrar que a aplicação
de tecnologia traz retorno econômico. Então, a mentalidade
muitas vezes tem que mudar – não é gastando pouco
que se ganha muito, às vezes é gastando um pouco mais
que se ganha mais. Esse é o grande desafio, porque na nossa pecuária
onde muitas vezes a falta de dinheiro é uma realidade, as pessoas
não querem gastar. Consequentemente, não tem jeito de
mudar. Portanto, o grande desafio é a pessoa conseguir ter credibilidade
para falar que vale a pena colocar X naquela atividade, aquilo ali vai
retornar, ou seja, tem que planejar e mostrar lá na frente que
ocorreu o retorno.
Infelizmente devido imediatismo muitos não conseguem ter tempo
de mostrar a viabilidade econômica da aplicação
de tecnologias corretas.
19) Ping-Pong:
• Uma pessoa que admira: não
seria simplista em indicar um nome, são vários os bons
exemplos.
• O trabalho para você em uma palavra:
Prazer em fazer com a possibilidade de ajudar.
• Uma qualidade: Sinceridade
• Um defeito: Ser duro comigo e com
as pessoas
• Uma frase: Faça com os outros
o que você gostaria que fizessem com você.
• Um sonho: um é pouco, são
vários: continuar vivo para continuar fazendo o que gosto, vendo
as pessoas próximas bem e um dia lá na frente, voltar
para a roça.
• Uma miragem: acreditar em um mundo
melhor.
• Uma dica: faça a sua parte
e o mundo será melhor.
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Leia aqui
a entrevista com Sandra Gesteira, médica veterinária,
professora de bovinocultura da EV-UFMG.
Leia aqui a entrevista com José Luiz Vaconcelos, médico veterinário, fundador da Conapec Jr.
Leia aqui a entrevista com Thaís Passos, médica
veterinária do ReHAgro.
Leia aqui
a entrevista com Carlos Alberto de Carvalho, gerente da Fazenda
São João.
Leia aqui
a entrevista com Fábio Corrêa, engenheiro agrônomo,
diretor do ReHAgro.
Leia aqui
o texto "Como um profissional pode se preparar
para o mercado de trabalho no agronegócio".
Leia aqui
o texto "As novas tendências do Mercado de Trabalho".
Leia aqui
o texto "Primeiro emprego versus profissional do futuro".
Leia aqui
o texto "Currículo: a 1ª impressão é
a que fica".