Entrevista José Luiz Vasconcelos


Entrevista com José Luiz Moraes Vasconcelos, o Zequinha, fundador da Conapec Jr, professor de bovinocultura de leite, na FMVZ-UNESP campus de Botucatu e de Eficiência Reprodutiva de Bovinos, do ReHAgro.
É também o idealizador e coordenador do Curso Novos Enfoques na Produção de Bovinos, realizado anualmente em Uberlândia – MG.


1)Qual a origem da Conapec Jr?
Vasconcelos -
A Conapec - Consultoria Agropecuária Junior - é uma empresa júnior formada em 1993. Quando fui contratado na FMVZ, em 1989, os alunos solicitavam estágio na área de bovinocultura de leite e não tínhamos infra-estrutura para recebê-los como estagiários. Então, organizamos as pessoas interessadas que começaram a visitar propriedades na região aos finais de semana. Nestas visitas havia interação entre os alunos/produtores e funcionários, que aparentemente é fácil e simples, porem é vital dentro da atividade técnica do dia a dia. Daí nasceu o grupo de assistência a produtores de leite. Fazíamos palestras e visitas a produtores, mostrávamos que o que faz a diferença é fazer bem feito e com consistência, mesmo a mais simples das tecnologias. Isto também fez crescer a consciência dentro do grupo da importância do técnico na capacidade de ajudar a melhorar a vida das pessoas. Com o tempo, esse grupo foi crescendo e aumentando o número de pessoas interessadas. Na época, surgiu um movimento de empresas juniores dentro da universidade, então a gente correu atrás, já tínhamos a experiência do grupo, pegamos as necessidades – o que era montar uma empresa júnior – e foi montada a Conapec Junior, que é a minha maior contribuição dentro da minha carreira profissional.

2) Como ela funciona?
Vasconcelos - Teoricamente nos moldes de uma empresa, onde tem presidente, diretoria, jurídico, financeiro, projetos. Na realidade, funciona no simples formato de pessoas interessadas que investem seu tempo fazendo alguma coisa que elas acham que vai ser interessante amanhã. Temos reuniões às terças (gado de corte), quartas (gado de leite) e toda segunda feira, uma reunião da diretoria. A essência do grupo é: pessoas interessadas que investem tempo aprendendo, convivendo, falando de coisas que estão fazendo hoje e vão fazer amanhã.

3) Foi você quem fundou?
Vasconcelos - Apenas aglutinei pessoas interessadas.

4) Quais as dificuldades encontradas?
Vasconcelos - A dificuldade é obter equilíbrio. O que isto quer dizer. Por ter bons exemplos, alguns podem achar fácil conseguir seu objetivo, porem temos que realçar que não é fácil, que cada um tem que obter seu espaço, com trabalho e esforço pessoal, sem passar por cima de ninguém, mas que todos são capazes, pois afinal estão cursando uma boa faculdade. Temos a facilidade de citar exemplos que tem dado certo, o que estimula e desafia os mais novos. Então, eu não vejo muita dificuldade, só é preciso gerenciar e ficar atento, pois todo ano mudam as pessoas, tem a diretoria que todo ano sai. Todo ano, tem pessoas novas também. A dificuldade é lembrar anualmente para as pessoas todas as obrigações e atividades a serem realizadas. Basicamente isso. Na realidade, essa dinâmica é um dos pontos fortes, pois várias pessoas passam pela experiência da Conapec e adquirem aprendizado. As pessoas nunca ficam ali, sempre tem que mudar. Então essa é a maior dificuldade mas que pode ser vista também como a força do grupo.

5) Se alguém tiver interesse em integrar a Conapec Jr, o que ela deve fazer?
Vasconcelos - Todos podem entrar, basta ter vontade. Não existe processo de seleção. Todos são bem vindos.

6) Quantas pessoas fazem parte da Conapec?
Vasconcelos - Numericamente 50 pessoas, na prática 20 pessoas. Digo isso porque 50 pessoas participam das reuniões e em torno de 20 pessoas vão até as fazendas. Alguns estão Conapec e outros são Conapec.

7) Qual o perfil desse estudante?
Vasconcelos - A gente aceita biodiversidade. Deve ter interesse e seguir as regras mínimas. A regra básica é o comprometimento. A gente pede para fazer, tem que fazer. Não aceitamos corpo mole.

8) Grandes profissionais do mercado são ex Conapec. A que você atribui esse sucesso?
Vasconcelos -
A esse comprometimento inicial. Eles sabem que a toda ação vem uma reação. Então, se eles atuam bem, vão ser reconhecidos e vão crescer. Então, quem começa cedo atuando e correndo atrás, aprende cedo, e o mercado enxerga isso aí. Pessoas qualificadas estão por toda parte, mas eu acho que a diferença é essa, mostrar que tem que se rir junto e chorar junto. Tem várias formas de se falar isso, mas a essência é, sem dúvida, o comprometimento.

9) O que você acha que o mercado está buscando em um profissional hoje em dia?
Vasconcelos -Pessoas interessadas, que gostam do que fazem, que querem fazer, e fazem.

10) Fale um pouco sobre o curso Novos Enfoques na Produção de Bovinos.
Vasconcelos - O curso está na XII edição. Em 1993 fui aos EUA fazer um estágio com o Dr. Milo Wiltbank e Dr. Richard Pursley que estavam desenvolvendo estratégias de reprodução, inclusive o protocolo de IATF Ovsynch. A gente fazia um curso em Botucatu que era “Atualização em bovinocultura de leite”. Então, pensamos em trazer estes novos conceitos para o Brasil. Chamamos, aceitaram, vieram, deu certo e continuamos. Temos como meta chegar ao XV.

11) Por que vocês sempre buscam pessoas de fora do Brasil?
Vasconcelos - Porque elas trazem choques de opinião, a gente precisa de diversidade. Essas pessoas trazem novos conceitos, e aí, consequentemente, criam uma discussão, geram engrandecimento. Aqui no Brasil, nós já estamos aqui, conversando aqui, falando aqui. Então, a idéia é trazer gente nova exatamente para colocar “fogo na fogueira”. Criar discussão e falar para muita gente que o que nós estamos fazendo talvez esteja bem feito; saber se o que estamos fazendo está na linha do que eles estão fazendo e mostrar que tem gente boa no Brasil. Quando vem alguém renomado lá de fora e fala, no mesmo sentido, o que está sendo falado e feito aqui, eu acho que é uma valorização do brasileiro e não uma desvalorização com a não participação de palestrantes brasileiros. Nos dois últimos eventos convidamos técnicos de campo que estão utilizando tecnologias desenvolvidas aqui no Brasil para apresentarem seus dados e mostrar do potencial humano que temos.

12) Como é a interação com os participantes?
Vasconcelos - A gente tenta receber bem – como gostaríamos de ser recebidos, numa forma simplista de ver as coisas. Colocamos o nosso grupo para fazer as coisas da nossa maneira - a gente faz, a gente serve, para mostrar que estamos gastando energia em recebê-los. E eles adoram.

13) Vários alunos têm ido estagiar com eles, como está essa experiência?
Vasconcelos - Praticamente todos têm a oportunidade. Eles vêm, a gente conversa e acerta. Eles vão, trabalham, crescem, alguns ficam, outros retornam, sempre mais conscientes do seu potencial.

14) Por que você acha que é válido para esse aluno realizar o estágio extra curricular fora do Brasil?
Vasconcelos - Mundo novo, experiências novas sobre todos os aspectos. Nada como outras pessoas falarem o que, às vezes, você fala e não te escutam. Aqui você fala todo dia pra eles estudarem, às vezes não estudam o que podem. Chegam lá fora, percebem que tem que estudar. Aí eles descobrem que estudar é bom! As pessoas precisam sempre de um “chacoalhão”.
Além disso, é uma grande oportunidade, pois em torno de 60 a 70% dos que vão, são convidados para fazer mestrado. Desses, grande parte fica fazendo mestrado e após a especialização alguns estão voltando, outros estão ficando. Depende do nosso país na realidade. Nossa missão é criar oportunidades para nossos alunos. Muitos ficam por lá. É triste, mas é a realidade. No Brasil se fala em aumentar o número de universitários e não no aumento de oportunidades dos que estão hoje se formando. Demagogia.

15) Quais são seus próximos desafios profissionais?
Vasconcelos - Eu não penso muito pra frente, eu penso em fazer bem o que estou fazendo hoje e amanhã, não depois de amanhã. Apesar de saber que devemos planejar o que se vai fazer para frente, nunca parei pra pensar o que eu vou estar fazendo daqui a 10 anos, nem a 5, nem a 3. Só quero estar fazendo bem o que faço hoje, contribuir com as pessoas que acreditam no nosso trabalho. Temos como meta realizar o XV curso Novos Enfoques, convidando ex alunos da Conapec para apresentarem seu trabalho. Acredito que vou ficar muito feliz e emocionado.

16) E os rumos da Conapec?
Vasconcelos - Todo ano ela termina e começa. Tem eleição e para a turma nova que assume, eu peço: espero que não acabe na sua mão. Essa é a frase da entrega. Desejo boa sorte, muito trabalho e que não deixe a peteca cair.

17) Existem muitas mulheres no grupo? Como você vê isso?
Vasconcelos - Sim, bastante. Hoje 60-70% dos que entram na universidade na área de zootecnia e veterinária são mulheres. O campo vai ter que adequar, porém ainda temos alguns problemas. As meninas entram, às vezes com mais vontade, mas depois tem algumas decepções. Umas continuam, outras mudam de opção. O meio tem que mudar, dos dois lados. Não adianta a mulher achar que o meio vai mudar, a mulher tem que se adequar e mostrar ao meio que ele tem que mudar. Este é o desafio das mulheres que vão trabalhar a campo hoje.

18) E quais os desafios do técnico de campo?
Vasconcelos - Mostrar que o trabalho dele dá retorno, basicamente isso. Ou seja, mostrar que a aplicação de tecnologia traz retorno econômico. Então, a mentalidade muitas vezes tem que mudar – não é gastando pouco que se ganha muito, às vezes é gastando um pouco mais que se ganha mais. Esse é o grande desafio, porque na nossa pecuária onde muitas vezes a falta de dinheiro é uma realidade, as pessoas não querem gastar. Consequentemente, não tem jeito de mudar. Portanto, o grande desafio é a pessoa conseguir ter credibilidade para falar que vale a pena colocar X naquela atividade, aquilo ali vai retornar, ou seja, tem que planejar e mostrar lá na frente que ocorreu o retorno.
Infelizmente devido imediatismo muitos não conseguem ter tempo de mostrar a viabilidade econômica da aplicação de tecnologias corretas.

19) Ping-Pong:
• Uma pessoa que admira: não seria simplista em indicar um nome, são vários os bons exemplos.
O trabalho para você em uma palavra: Prazer em fazer com a possibilidade de ajudar.
Uma qualidade: Sinceridade
Um defeito: Ser duro comigo e com as pessoas
Uma frase: Faça com os outros o que você gostaria que fizessem com você.
Um sonho: um é pouco, são vários: continuar vivo para continuar fazendo o que gosto, vendo as pessoas próximas bem e um dia lá na frente, voltar para a roça.
Uma miragem: acreditar em um mundo melhor.
Uma dica: faça a sua parte e o mundo será melhor.

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