Entrevista Carlos Alberto de Carvalho
Carlos Alberto de Carvalho é técnico agropecuário,
gerente da Fazenda São João e facilitador do curso Gerenciamento
de Empresas Rurais do ReHAgro.
Desmistificando Carlos Alberto de Carvalho
Reconhecido por seu trabalho de Recursos Humanos na Fazenda São
João, Beto (como é chamado por todos a sua volta) mantém
sua origem simples e mostra nessa entrevista que o segredo para a construção
de uma equipe comprometida pode estar ao alcance de todos.
Apesar da fama de suas duras entrevistas com os candidatos à
estagiários ou funcionários da fazenda, é perceptível
sua vontade em contribuir com o crescimento pessoal e profissional dos
entrevistados. “Busco provar as incoerências” –
diz ele ao mencionar que a maioria das pessoas entrevistadas não
sabem o que querem e estão perdidas. Nesse bate papo, você
terá a oportunidade de conhecer um pouco melhor as experiências
pessoais e profissionais de Beto, uma pessoa com um grande conhecimento
das relações humanas e com muita disposição
para debater sobre o assunto.

Beto no free-stall da Fazenda São João
1)Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Fazenda São
João?
Beto - Eu trabalhava na fazenda Pau do Monjolo em Itapecerica,
junto com o Clóvis Corrêa e o Robson Vilela. Conhecia também
o Fábio Corrêa, havíamos trabalhado juntos com assistência
técnica em plantio direto.
Estava insatisfeito com a assistência técnica.
Em janeiro de 2002, recebi um telefonema do Clóvis me convidando
para uma entrevista como candidato a gerente da Fazenda São João.
Fiz a entrevista com Fernando Corrêa e com Bernardo M. de Paiva
(então gestores do projeto) e logo comecei. A proposta financeira
era 30% menor do que eu recebia na época, mas era a oportunidade
que eu tinha em trabalhar com uma fazenda de grande escala, com muitos
animais, e de encarar um desafio não enfrentado gerenciar uma
fazenda de tal porte compondo uma equipe ímpar. Mas fizemos um
acordo: a previsão era que com 6 meses a diferença caísse
para 15% e com 12 meses igualasse ao meu salário anterior. E
assim foi feito.
2) Como você reagiu diante da oportunidade
de trabalhar em uma fazenda diferente dos sistemas de produção
brasileiros?
Beto – O primeiro sentimento foi medo.
Medo de não dar conta, medo de ser apenas mais um (até
a entrada do Beto já tinham passado 4 modelos de gestão
na fazenda). Em seguida veio a euforia, não conseguia dormir,
pensava em tudo que a fazenda representava. Tive também receio,
receio de implementar coisas novas e como seria a reação
das pessoas.
3) Quais foram os maiores desafios enfrentados?
Beto – Sem dúvida, o maior desafio
foi a estruturação da mão de obra, buscar pessoas
para assumir os cargos da fazenda. Tínhamos apenas 9 pessoas
e precisávamos de 90 em um mês!
Em relação à fazenda, os desafios foram o manejo
do grande número de vacas e os desafios sanitários como
fortes focos de mastite.
4) Como você os superou?
Beto – Com a ajuda da Thaís, do
Clóvis, do Euler, do Fábio e do Silvino (precursores do
ReHAgro). No início foi também muito importante a participação
dos veterinários Geraldo André e do Agenor Neto. Eles
começaram a assumir setores dentro da fazenda. Isso tirou o peso
de uma só pessoa, cada um pegou um pedacinho e fez o projeto
decolar. Com isso, pude ter tempo de conversar com cada um dos funcionários
e ajudar a formar um time comprometido.
5) Qual a importância da gestão
de pessoas?
Beto – As pessoas têm mania de fazer perguntas
assim, você trabalha com recursos humanos? Lá vocês
têm RH? Como se gestão de pessoas, e recursos humanos fossem
um produto ou mais um setor da fazenda. Na verdade, a pergunta deveria
ser: “Qual a importância de se respeitar as pessoas? De
saber ouvir? De ter bom senso? De ter auto- controle?” Bem, aí
sim fica fácil até mesmo de todos enxergarem a resposta
– isso é imprescindível para que qualquer tipo de
relacionamento dê certo.
6) Quais as principais ferramentas e metodologias
de gestão de pessoas que você utiliza?
Beto – A principal ferramenta que utilizamos é
a agenda. Ela é essencial para direcionar organizar as atividades
das pessoas no dia a dia. Um dos grandes problemas que vemos nas empresas
é a baixa produtividade de execução. A falta de
direcionamento e organização levam a essa baixa produtividade.
Tenho uma agenda fixa, onde tenho anotado as atividades que realizo
periodicamente. É importante também fazer uma agenda do
dia.
Outra ferramenta importante é o Check List (lista de checagem).
Ela complementa a agenda e ajuda a ter uma noção do andamento
das atividades.
O organograma também é uma ferramenta importante que deve
ser valorizada pois ajuda a entender o fluxo de informações
dentro do sistema. Deve estar em local visível, expresso de uma
maneira que todos possam compreender.
Em relação às metodologias, realizamos treinamentos
com os funcionários. Não são obrigatórios,
vai quem quer. São treinamentos de gestão da qualidade
direcionados aos gerentes, e operacionais direcionados aos funcionários.
Gosto bastante também de conversar com os funcionários
olho a olho. Minha meta é conversar com 4 pessoas por semana.
Nessas conversas, tento perceber o astral da pessoa e procuro saber
o que eles sonham. Tento incentivá-los a construir sonhos e a
torná-los realidade. Porém nunca faço promessas,
apenas os ajudo a perceber as perspectivas.

Beto em conversa com funcionário na recria
7) Quais os critérios para a manutenção
de um bom relacionamento entre gerência e funcionários?
Beto – Sem dúvida, o principal é criar
um bom ambiente de trabalho. Além disso, é muito importante
a prática dos valores, coerência nas atitudes, o respeito
e a honestidade. Algo que busquei também foi deixar de ser chefe
e passar a ser líder, dando mais importância a autoridade
que ao poder, conquistando admiração em vez de promover
medo.
8) Cite exemplos de como aplicá-las no dia a dia para quem pretende
aprimorar essa relação.
Beto – Levar tudo a termo e colocar tudo em pratos
limpos. Essa transparência diminui a fofoca e acaba com o “disse
não disse” diminui possibilidade de inferências .
Outra coisa importante é estabelecer quais são os valores
preconizados pela fazenda. Estabelecer os norteadores (estimulados pelo
proprietário), apresentá-los à equipe pelo gerente
para que possa ser aplicado por todos funcionários. O líder
deve ter objetivos claros, metas de onde quer chegar, se possível
em relação a cada membro da equipe.
9) Quais os fundamentos para a construção
de uma equipe?
Beto – As coisas
são simples. As respostas são as mesmas dadas anteriormente,
não é preciso reinventar a roda. Pense sempre nos valores
como coerência, transparência, honestidade, respeito. Eles
são a base para a construção de uma equipe. Dar
mais valor a vontade aprender do que à experiência, persistir
sempre com as pessoas que querem.
10) Qual o segredo para um bom relacionamento
entre gerente x funcionários?
Beto – Antes de tudo o gestor deve estar
preparado, ou pelo menos em preparação para o cargo, gostar
de lidar com gente. Deve saber o que quer das pessoas para conseguir
chegar onde quer. Ele deve ter a capacidade de perceber as pessoas,
os limites e o potencial de cada um. Deve estimular as pessoas a gostar
do que fazem, e jamais perder de vista os valores da fazenda além
de conquistar a admiração, sem perder o foco que a atividade
exige. Acho que esse é o caminho para estabelecer um bom relacionamento
entre o gerente e os funcionários.

Beto em visita ao bezerreiro
11) A demissão de um funcionário
é sempre um desafio, como você administra esse processo?
Beto – Demissão que surpreende o
funcionário quase não ocorre. No sistema que adotamos,
tudo é muito conversado, então a pessoa já sabe
o que está por acontecer. De certa forma, há uma preparação
do funcionário, pois normalmente é dada uma segunda chance
a ele e ele sabe que não pode desperdiçá-la, pois
já sabe o que irá acontecer caso o problema venha a se
repetir.
12) Ping-Pong:
• Um livro: O monge e o Executivo
• Uma pessoa que admira: Chico Xavier(não
sou espírita)
• O trabalho para você em uma palavra:
Prazer
• Uma qualidade: Persistência
• Um defeito: Impaciência
• Uma frase: “O que você
é fala tão alto aos meus ouvidos, que não consigo
ouvir o que me dizes.”
• Um sonho: Uma casa nas margens do
Rio Grande.
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Leia aqui a entrevista com Thaís Passos, médica
veterinária do ReHAgro.
Leia aqui a entrevista com Fábio Corrêa, engenheiro agrônomo,
diretor do ReHAgro.
Leia aqui
o texto "Como um profissional pode se preparar
para o mercado de trabalho no agronegócio".
Leia aqui
o texto "As novas tendências do Mercado de Trabalho".
Leia aqui
o texto "Primeiro emprego versus profissional do futuro".
Leia aqui
o texto "Currículo: a 1ª impressão é
a que fica".