1)Conte um pouco da história da Procordeiro, como surgiu a idéia de formar esta cooperativa?
Ronaldo - A constatação de que todas os que criadores de cordeiro tinham dificuldade de vender sua produção. Quando conseguiam, eram comumente obrigados a vender para matadouros informais sem nenhuma fiscalização. Estes compradores nunca davam importância à qualidade da carne, compravam carneiros ou ovelhas de qualquer idade e peso, desde que estivessem gordos.Abatiam os animais no que chamamos de “frigomato” e o vendiam por aí. Na maioria das vezes, eram carneiros, e como sabemos os animais adultos têm um sabor acentuado que nem todo mundo gosta de carneiro. Essa prática portanto, dificultava a criação de um mercado em Minas e no Brasil, porque as pessoas que comiam não gostavam, e se recusavam a provar a carne ovina novamente. Por isso, resolvemos formar uma cooperativa com o objetivo de lançar no mercado uma carne de qualidade, igual aos maiores centros consumidores do mundo, apostando que somente assim poderíamos colocar a carne de cordeiro no padrão de excelência como é conhecida mundialmente. Não fui eu, mas o Dr. Octávio Moraes (médico veterinário, pesquisador da EPAMIG e facilitador do curso de Pós Graduação em Ovinocultura de Corte do ReHAgro) o idealizador da criação da cooperativa, trouxe esta idéia lá da Espanha. Muitos criadores vestiram a camisa desta cooperativa e formamos a Procordeiro. Inicialmente éramos em 86 cooperados, muitos desistiram, achavam que a coisa estava muito devagar e outros permanecem até hoje. Chegamos a ser 30 cooperados e hoje somos em 52.
2) Como é gerenciar uma cooperativa como a Procordeiro? Quais são os desafios?
Ronaldo - É muito difícil gerenciar uma cooperativa. Eu até incentivo as pessoas que queiram fazer outras cooperativas oferecendo ajuda, mas a experiência mostra muitas dificuldades. Primeiro é difícil você cumprir as exigências legais para registrar a cooperativa. Por exemplo, nós tínhamos 86 cooperados e para fazer uma mudança na ata, era preciso que eu fosse a todas as cidades onde havia cooperados para poder pegar assinatura e validar esta mudança. Depois, não tinha frigorífico autorizado a realizar os abates em Minas Gerais e, principalmente, um grande problema é que os cooperados em geral não vestem a camisa do cooperativismo. Diz o Dr.Octavio que nós devíamos ser chamados cooperandos. Todos nós cooperados somos proprietários, donos da cooperativa que têm que trabalhar por ela, mas a grande maioria acha que é a cooperativa que tem que trabalhar por eles. Então não participam, muitos porque não podem, outros porque não querem, e a cooperativa fica na mão de um ou outro. No meu caso, como eu estou aposentado, cedi meu escritório nos dois primeiros anos para ser sede da cooperativa. Hoje, exerço 8 horas ou mais por dia de serviço totalmente dedicado a ela. Mas é difícil você encontrar companheiros que se dediquem. Alguns participam, mas não têm condições de se dedicar, porque têm seus principais afazeres, coisas para resolver na sua vida particular; outros não têm o menor interesse, e só querem que a cooperativa seja um órgão para servi-los. Isso dificulta muito. Outro dia eu estava vendo uma palestra do ex-ministro da agricultura, que dizia o seguinte: se as cooperativas não extirparem os maus cooperados, elas vão acabar sucumbindo porque, além das pessoas não se dedicarem, ainda vêm à cooperativa para defender os seus interesses particulares. Sempre existem os que querem levar alguma vantagem como sócios da cooperativa, por exemplo, quer exclusividade para compra, que o preço dele seja melhor do que o dos outros e etc... Na verdade, a cooperativa tem que tratar igualmente os seus cooperados. Eles não entendem isso e acabam não ajudando a comunidade a crescer. Não têm o espírito de cooperativismo, e isso eu acho que é a coisa mais importante: se você tiver o espírito, a cooperativa vai para frente. A troca de conhecimentos e experiências é muito importante para que isso aconteça.
3) Quais seriam as estratégias para despertar este cooperativismo nos cooperados?
Ronaldo - Nós temos tentado fazer muita coisa neste sentido, mostrando que o cooperado sempre leva vantagem, mesmo que a cooperativa pagasse um preço menor do que o de mercado. O lucro que fica com a cooperativa é dos cooperados e são eles que vão resolver o que fazer com o dinheiro no fim do ano. O lucro é impressionante porque tem uma quantidade enorme de produtos que a gente faz e aproveita. Ao vender diretamente para o frigorífico, o produtor não aproveita, por exemplo, o sebo, a tripa, o couro. Então, quando o cooperado vende o cordeiro para frigoríficos comerciais (nada contra eles, estão fazendo o seu papel ), o aproveitamento dos sub-produtos vão para o lucro das empresas. Já se a venda for feita para a cooperativa, é o cooperado quem vai aproveitar os lucros. A cooperativa também orienta todos os cooperados a profissionalizar seus criatórios, ter assistência técnica, fazer um projeto técnico e com isso ganhar muito mais. As pessoas que se lançam sem conhecimento acabam se perdendo. A cooperativa também tem procurado auxiliar na melhoria da qualidade de carcaça dos animais de seus cooperados, mostrando que assim todos os cooperados serão beneficiados. Incentivamos a produção de cordeiros mais precoces através do cruzamento industrial e estamos obtendo resultados muito bons. Hoje quase todos os cooperados que iniciaram criando carneiros Santa Inês, que é uma ótima matriz, realiza o cruzamento industrial como forma de melhorar o produto final. O rendimento de carcaça (RC) de um cordeiro Santa Inês não é maior do que 40%. Mestiços de Texel ou de Dorper têm em torno de 46% de rendimento de carcaça. É interessante para o cooperado produzir carcaças melhores, pois a cooperativa paga pelo peso morto e carcaças com melhor rendimento valem mais.
Se a cooperativa pagar R$7,00/ kg de carcaça, estará pagando por um cordeiro puro Santa Inês, com 40% de RC, o equivalente a R$2,80/ kg de peso vivo. Já por um cordeiro mestiço com 46% de RC, paga-se o equivalente a R$ 3,22/ kg de peso vivo. Alem disto a heterose torna os animais mais precoces saindo mais rápido para o abate.Temos mostrado isso para os cooperados, eles aceitaram perfeitamente e têm feito cruzamentos, deixando na base a ovelha Santa Inês.
4) Quais são os preços que a Procordeiro pratica?
Ronaldo - A Procordeiro pagava R$5,50/kg de carcaça para animais com menos de 12kg de carcaça. Esses animais não são interessantes para a Procordeiro, porque são animais muito pequenos e o custo de transporte e abate é o mesmo.
Por animais com 12 a 14 kg se pagava R$6,50/kg de carcaça; acima de 14 kg de carcaça pagava-se R$ 7,00/kg de carcaça.
No entanto, há hoje uma disputa muito grande no mercado e estão oferecendo cordeiro para churrascarias a preços mais baixos. É natural, muita gente já esperava que o preço caísse com o aumento da oferta. Então, para que a cooperativa continuasse com rendimento e conseguisse formar seu capital de giro, ela foi obrigada a baixar os seus preços também. No entanto podemos afirmar sem medo de errar que se a cooperativa não existisse os preços estariam hoje muito mais baixos.
5) Quais são os produtos da procordeiro hoje?
Ronaldo - A Procordeiro produz hoje tudo que o cliente quer, de acordo com a preferência dele. Temos o carret francês, separamos a ponta do carret, só vendemos as 9 costelas posteriores como carret. Vendemos lombo de cordeiro, filet mignon, costelinha, paleta, pernil e fazemos subprodutos como lingüiça e espetinho de cordeiro.
Fizemos agora parceria com a Alimenta para fazer um kibe e lançar hambúrguer para aproveitar os animais adultos.
Desenvolvemos também uma graxa com sebo do cordeiro para casco de eqüinos. É um produto muito nobre, tem 90% de sebo de cordeiro, o resultado em cascos de eqüinos é muito bom, e custa R$50,00/ kg.
Em relação aos preços, eles são variáveis de acordo com o mercado; temos produtos com preços de R$ 8,00/ kg, que é o preço do pescoço, até R$42,00/ kg, que é o preço do lombo.
6) E a pele?
Ronaldo - O comercio de peles está muito ruim no Brasil atualmente, os curtumes de pele de cordeiros estão na Bahia, os preços são muito baixos, e a qualidade das pele também. Mas eu tenho o sonho de um dia exportar pele curtida para o exterior.
7) Quais funções a Procordeiro se propõe a realizar?
Ronaldo- Procordeiro pede aos cooperados que façam uma previsão de animais para abate. Nós buscamos os cordeiros na fazenda dele, solicitamos que façam uma marca a fogo na cara do cordeiro para poder separar os animais no frigorífico.
Acompanhamos a matança, normalmente com o técnico; trazemos para a cooperativa; fazemos os cortes; congelamos; embalamos a vácuo e vendemos no mercado.
8) Quais são os deveres dos cooperados para com a cooperativa?
Ronaldo - O principal dever do cooperado é participar da vida da cooperativa. Cumprir todas as regras que a cooperativa estabelece, participar da elaboração dessas regras e, na medida do possível, nos ajudar a resolver os problemas. Não basta dar opinião, tem que ajudar a fazer acontecer.
9) Qual é o mercado da Procordeiro hoje?
Ronaldo - O principal mercado é formado pelos restaurantes finos de Belo Horizonte e boutiques de carne. Alem dito temos um delivery para entregarmos a carne em casa, já com um numero considerável de clientes. Como a produção está crescendo muito, vamos começar a abordar outras localidades.
Estamos procurando agora contato com algumas churrascarias porque estamos produzindo carcaças mais adequadas a este mercado.
10) A procordeiro consegue suprir a demanda de carne de cordeiro aqui em BH?
Ronaldo - Não. Nós tínhamos uma demanda por 800 cordeiros por mês na última pesquisa. A cooperativa hoje está preocupada em, além de aumentar seu rebanho, fazer uma casa de carnes maior.
11) Quais os produtos mais consumidos?
Ronaldo - Em Minas Gerais os produtos mais consumidos são lombo, carret, filet mignon, pernil, paleta e lingüiça de carneiro. No Rio Grande do Sul, a carne mais consumida é a costelinha de cordeiro. Entre os nordestinos, os miúdos (fígado, rins, coração bucho) têm grande consumo.
12) Qual o tamanho do rebanho dos associados?
Ronaldo - Ao todo são 12.000 ovelhas. Para suprir o mercado de BH precisaríamos de 20.000 a 30.000 ovelhas. Mas é muita pretensão nossa pensar que só a procordeiro vai abastecer o mercado, que não existe concorrência. O que nós temos que fazer também é sair para buscar outros mercados consumidores. O objetivo é a Grande BH, São Paulo e, futuramente, até a exportação.
13) A cooperativa terceiriza seu abate. Por que a opção de não ter um frigorífico próprio?
Ronaldo - Para viabilizar um frigorífico nós teríamos que abater 200 animais por dia, 5000 animais no mês. É difícil você conseguir toda essa produção. Se um dia tivermos, poderíamos fazer um frigorífico, está no nosso projeto. Por enquanto, a falta na constância e na quantidade de animais prontos para o abate, resultaria em um frigorífico subutilizado, onerando muito os custos da cooperativa. A terceirização nos poupa estes gastos e otimiza o funcionamento do frigorífico que presta este serviço.
14) Quais as dificuldades que o produtor tem hoje?
Vasconcelos - Criar cordeiro é difícil, exige muita assistência e muito cuidado.
Encontrar um bom pastor ou transformar um vaqueiro em pastor também é muito difícil. Alguns vaqueiros se sentem diminuídos, inferiorizados. É preciso mudar esse pensamento, mostrando o quanto a atividade pode ser interessante. Além disso, temos poucos técnicos especializados no assunto. Só agora que as escolas de veterinária têm incentivado os alunos a entrar na área de ovinos. Por exemplo, na área de inseminação artificial e transferência de embrião ainda estamos muito atrasados.
Gosto muito da atividade, acho importante diversificar. Eu achei a diversificação com o cordeiro um bom caminho, mas ainda estamos muito empíricos, é preciso ter um bom controle de custos e de todo o sistema de produção. Gostaria de incentivar as pessoas que queiram entrar na atividade a começar pequenos, investir em treinamento de mão de obra, ter assistência técnica e um bom controle de seu sistema.
15) A cadeia de ovinos tem muito que ser estruturada. Qual o caminho?
Ronaldo - Acredito que as pessoas em primeiro lugar devem contratar um técnico para fazer um projeto e também um acompanhamento. Aconselho aos profissionais, fazer propostas de participação nos lucros do criador porque ele estará mostrando confiança no seu trabalho. Em termo de cadeia produtiva, as pessoas deveriam compartilhar mais as informações, de modo que a experiência de um possa ajudar o outro. Outro ponto importante é a formação de profissionais capazes de desenvolver o mercado de cordeiros através de manejo, cruzamentos e melhoramento genético.
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