Entrevista Sandra Gesteira
Sandra Gesteira Coelho é médica veterinária formada pela Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado e doutorado pela mesma Escola. É atualmente professora da disciplina Bovinocultura de Leite na UFMG. Profissional, com uma trajetória bastante interessante, mostra nessa entrevista que é possível para as mulheres vencer todas as dificuldades e obter sucesso numa área de predomínio masculino.

1)Como foi sua trajetória profissional?
Sandra - Eu formei em Medicina Veterinária em dezembro de 1982. Sempre quis trabalhar com gado de leite e acreditava que para isso era preciso entender muito de reprodução. Nutrição nessa época não era algo que se discutia muito. O foco principal era reprodução. Então eu me formei e fiquei na Escola (Escola de Veterinária da UFMG) para fazer o mestrado. Achava que era preciso me qualificar mais para entrar em um mercado de trabalho que, em 1982, era muito restrito. Na época, o Brasil passava por uma crise econômica, como várias que passou. Então achava que precisava estar melhor qualificada. Entrei no mestrado em 1983 e tive a sorte de trabalhar em uma área que também estava começando, a transferência de embriões, fui estudar especificamente o congelamento de embriões. Assim, além de estar me qualificando fazendo um curso de mestrado, eu estava trabalhando com uma tecnologia de ponta, que tinha pouca gente no país trabalhando. Acho que isso me ajudou a sair de um mercado comum de médicos veterinários e ir para algo mais especializado, onde principalmente o preconceito contra as mulheres era minimizado porque, como nesta área existiam poucos profissionais, perdeu-se essa questão de escolher entre um homem e uma mulher. Acho que isso ajudou muito na minha carreira. Bem, quando estava no mestrado, tive a sorte de ser selecionada para trabalhar em uma grande fazenda no estado de São Paulo, fui escolhida em processo de avaliação de currículo e entrevista. Fiquei nessa fazenda durante um ano e meio quando recebi outra proposta para trabalhar em Minas. Estas oportunidades me ajudaram profissionalmente, pois estava trabalhando com uma tecnologia de ponta e em grandes grupos. Um tempo depois, dentro de uma crise geral no setor pecuário, a transferência de embriões foi uma das atividades mais atingidas. Nessa época, nestas experiências no campo percebi que o foco apenas na reprodução era reducionista, a questão era bem mais ampla. Percebia que muitas vezes este conhecimento mais profundo da reprodução acabava por não se traduzir em resultados expressivos nos índices produtivos de uma fazenda, a questão passava também pela nutrição. Então eu vim ao longo do tempo tentando me especializar sozinha nessa outra área, estudando mais nutrição. Ao mesmo tempo, na crise do setor de transferência, as oportunidades apareceram na área de assistência técnica nas fazendas onde eu já trabalhava com reprodução. Com esta bagagem acumulada de trabalho no campo tive relativa facilidade de entrar neste setor. Então, passo a passo, fui ocupando esse outro espaço e me afastando da transferência de embrião.
2) Atualmente você é professora do curso de Medicina Veterinária da UFMG. Como e por que largou a assistência técnica?
Sandra - Bem, após 12 anos de campo, pensava por quanto tempo ainda teria vontade de trabalhar daquele jeito: acordar muito cedo, pegar estrada, trabalhar o dia todo na fazenda, pegar estrada novamente e chegar em casa muito tarde. Passei a me questionar se agüentaria e se queria essa vida para sempre. Tive também um pequeno acidente de carro que me fez pensar ainda mais sobre isso. Nessa época, decidi fazer doutorado, Achei que ele poderia alavancar minha carreira. Quando fiz a prova para o doutorado, abriu um concurso para professor substituto na UFMG. Passei e após dois anos fiz outro concurso para professor assistente. Novamente passei e assim, em 1995, me tornei professora de bovinocultura de leite na Escola de Veterinária da UFMG.
3) Você é casada e tem duas filhas. Como conciliou o trabalho com a vida pessoal?
Sandra - Talvez minha história seja diferente da maioria das veterinárias. Eu me casei muito cedo, com 18 anos, quando eu ainda era estudante de medicina veterinária. Tive minha primeira filha com 20 anos. Quando eu estava no mestrado eu tive minha segunda filha, o que não foi fácil pois eu precisava conciliar as tarefas de estudante, mãe e dona de casa. Quando eu comecei a trabalhar nas fazendas com transferência de embrião eu já era uma mulher casada e com filhos pequenos, e muitas vezes tinha de me ausentar por uma semana, viajava muito e isto pesava. Mas tinha de ser assim.
4) E o que fez você não desistir do seu trabalho no campo?
Sandra – Primeiro, eu sabia que o trabalho era necessário pois queria dar boas condições as minhas filhas. Além disso, tenho um marido que sempre me apoiou e incentivou bastante. Alguém que acredita que para uma mulher ter crescimento pessoal é preciso que ela se realize também profissionalmente. Sem a ajuda e a parceria dele tudo seria muito mais difícil. Tinha ao meu lado também uma pessoa que trabalhava comigo desde o meu casamento, alguém em quem eu confiava e era possível deixar as minhas filhas com segurança. Sem eles não sei se conseguiria.
5) Você sofreu algum tipo de preconceito?
Sandra - Essa questão do preconceito contra a mulher eu não enfrentei no início, pois existiam poucos profissionais naquele momento com a qualificação que eu tinha. Quando trabalhava em São Paulo, era a única mulher da fazenda. Era muito respeitada. Além disso, acho que as pessoas nesta época tinham mais respeito, as questões éticas foram se degradando muito nestes últimos anos, de modo geral o ambiente era muito melhor. Por outro lado, quando algo me incomodava, nunca deixava passar em branco, falava o que pensava.
6) Quais são os maiores desafios de um veterinário de campo?
Sandra - A atuação no campo exige um tipo de dedicação tão intensa que acaba por impedir, ou limitar, uma série de atividades e prazeres da vida social. Você acaba focando muito no trabalho e abre mão da vida social. Para suportar isso, é preciso gostar muito de estar dentro de uma fazenda.
Além disso, a carreira de médico veterinário de campo pode ser curta – as exigências, inclusive físicas, ficam evidentes com o passar dos anos. Outro ponto importante é que muitas vezes é preciso estar disposto a sair dos grandes centros e ir para cidades menores. E, no final, a profissão, na maioria dos casos, ainda é mal remunerada.
7) Após se tornar professora, o que mudou na sua vida?
Sandra – Voltando à questão de preconceito, talvez aí, na escola, quando entrei foi que enfrentei o maior preconceito em minha carreira. Era uma mulher chegando em uma área de predomínio masculino. Senti mais preconceito dentro da Escola de Veterinária do que fora.
8) Como isso acontecia?
Sandra - Nas reuniões, nas designações das atividades a serem desenvolvidas. Em algumas situações, tive que enfrentar outros professores para mostrar minhas idéias. Além disso, pude perceber que isso não era só comigo. Dentro da universidade, existe preconceito também com as alunas.
9) A que você atribui esse preconceito?
Sandra - Competição por prestígio e também insegurança. Na verdade, a competição existe em qualquer trabalho. Todos estão sempre disputando algo.
10) E como você orienta seus alunos que querem trabalhar no campo?
Sandra - Tento mostrar que a profissão tem suas dificuldades, e muitos pontos específicos que a diferenciam de outras atividades. Apesar disso, incentivo meus alunos a ir para o campo para que eles vivenciem a realidade, as dificuldades. Acredito que a assistência técnica dá uma boa base e o profissional passa a enxergar a medicina veterinária de outra maneira, com seus desafios e suas limitações, diferente do que ele aprende dentro da universidade.
11) Como a universidade pode ajudar a preparar melhor esse aluno para a vida pós formado?
Sandra – Mostrando, antecipando, preparando para as atividades que ele vai enfrentar na vida profissional. Acho que para conseguir dar esta formação, o professor também tem de ter tido esta experiência e isto claramente exige uma mudança do perfil do profissional contratado para professor. Na minha opinião, este profissional que está ligado a parte profissionalizante do curso não deveria ter dedicação exclusiva a Universidade. Esse professor deveria ser estimulado a trabalhar e ter contato com o campo, para que mostrasse para os alunos a realidade que está aí fora.
12) E o aluno, como pode tentar se preparar melhor?
Sandra - Desde o 1º período, fazer estágio nas diversas áreas do curso. É muito importante que ele procure fazer estágio no maior número possível de áreas, ampliando a sua formação. Além disso, a medida que vivencia esses estágios ele vai se tornando um aluno diferente. O que percebo é que atualmente os alunos focam uma área desde o inicio do curso e esquecem as demais. Este foco exclusivo empobrece a sua formação. O que se vê, muitas vezes, é que a maioria não dá a devida importância aos estágios. Quando chegam as férias, a maioria dos estudantes vai para a praia!
13) Se você pudesse dar um conselho às mulheres que estão iniciando ou querem iniciar na atividade de assistência técnica a campo, o que você diria?
Sandra – Uma dica importante: qualificação – fazer um mestrado, uma especialização, para se diferenciar e romper profissionalmente. Saber também que o ambiente se tornou mais perigoso (nas estradas, violência, assaltos) e, portanto, atenção e precaução sempre. Circular com carro em boas condições e estar atento nas estradas.
12) Ping-Pong:
• Um livro: O velho e o mar
• Uma pessoa que admira: Tom Jobim
• O trabalho para você em uma palavra:
Prazer
• Uma qualidade: Saber ouvir
• Um defeito: Ansiedade
• Uma frase: “Nada a temer senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo”
• Um sonho: Conhecer a Índia
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