Durante décadas a agricultura foi submetida à intensa artificialização, o resultado disso foi a enorme degradação do solo com grande comprometimento do meio ambiente. Tal processo foi aceito como inevitável em nome do progresso da agricultura.
Neste cenário surge o plantio direto como uma importante e revolucionária ferramenta de conservação e recuperação do solo. O plantio direto é acima de tudo a reconstrução de todo um sistema de complexa relação de interdependência que tem como resultado final uma agricultura sustentável, produtiva e com retorno econômico.
Este conceito de sustentabilidade na agricultura está erguido por alguns pilares, entre eles “a cobertura do solo” ou “palhada” ou “cobertura morta”, peça fundamental na estruturação de um bom sistema de plantio direto, e é este o tema sobre o qual iremos debater.
Plantio direto, segundo Gassen & Gassen (1996) a expressão plantio direto é adotada para definir: “a prática de semeadura ou de cultivo de plantas sem o preparo físico do solo, mantendo a palha da cultura anterior”. “Compreende um conjunto de técnicas integradas que visam melhorar as condições ambientais (água-solo-clima) para explorar da melhor forma possível o potencial genético de produção das culturas” (Primavesi, 2000).
Plantas de Cobertura: são espécies utilizadas com objetivo de produzir fitomassa, sendo os resíduos mantidos na superfície do solo para formação de cobertura morta, contribuindo para aumentar a eficiência do sistema de plantio direto.
Cobertura morta: tem como objetivo final, através de todos seus efeitos, beneficiar em produtividade as culturas econômicas, sem aumentar os custos de produção.
Variações no Sistema de Plantio Direto
Hoje, podem ser consideradas pelo menos quatro variações de plantio direto praticado pelos produtores nas regiões dos cerrados. Esses tipos classificam em: plantio direto no mato, plantio direto com semipreparo (cultivo mínimo), plantio direto com safrinha e plantio direto com safrinha e cobertura de inverno. Este último destaca-se tendo em vista a maior produção de massa vegetal, garantindo a cobertura morta indispensável ao final do período de seca, para poder ingressar com a cultura de verão neste mesmo sistema.
Esta separação tem apenas efeito didático e teórico, sendo que em condições de campo estas podem se subdividir, e ainda devem considerar adaptações para diferentes condições de solo, clima e emprego de técnicas de cultivo pelo produtor.
Objetivos do Uso de Cobertura do Solo (Calegari,1994)
• Promover a formação de cobertura vegetal, impedindo o impacto direto das gotas de chuva no solo e quebrando a energia cinética da chuva.
• Manutenção da umidade do solo, diminuindo as perdas por evaporação.
• Aumentar a infiltração de água no solo, diminuindo o escorrimento superficial.
• Buscar uma melhor estruturação do solo (melhor agregação, maior aeração), favorecendo os cultivos posteriores.
• Implementar a reciclagem de nutrientes no solo.
• Melhorar o controle de plantas invasoras, cultivando plantas de cobertura com alto grau de competitividade.
• Aumentar o teor de matéria orgânica do solo, melhorando características físicas, químicas e biológicas do solo.
Os objetivos do uso de plantas de cobertura do solo estão intrinsecamente ligados às vantagens trazidas pelo uso e acúmulo de cobertura do solo.
Desvantagens do Uso da Palha
De acordo com Gassen & Gassen (1996), pode-se citar as seguintes desvantagens no uso da palhada:
• Dificultar a semeadura.
• Sobrevivência de patógenos de plantas cultivadas.
• Imobilização de nitrogênio no início do plantio direto.
• A possibilidade de causar alelopatia negativa sobre as culturas seqüentes.
• Risco de fogo.
Outros autores complementam que as desvantagens podem ser superadas com uso adequado de semeadoras, rotação de culturas para evitar as doenças, a suplementação de nitrogênio e o manejo adequado para cada sistema de sucessão de culturas.
Rotação de Culturas
A rotação de culturas assume um papel extremamente importante à viabilização do sistema de plantio direto, principalmente com relação ao controle de pragas, doenças e produção de palha. Além disso, segundo Santos et al (1993), a rotação permite o controle natural de plantas daninhas, através de substâncias químicas e efeito físico das coberturas, permite um melhor aproveitamento energético das calorias investidas e uma melhor rentabilidade da propriedade agrícola.
Na implantação do sistema de plantio direto, para que o esquema de rotação de culturas promova benefícios na superfície do solo deve se ter a manutenção permanente de uma quantidade mínima de aproximadamente 4 a 6 t/há de matéria seca.
Tabela de Teores de nutrientes necessários para a produção de um tonelada de grãos e retorno via palha para cada tonelada de grãos (milho, soja, feijão e trigo) ou de matéria seca (aveia preta e ervilha) produzida.

Os esquemas para uso da rotação de culturas deverão ser montados de acordo com as condições regionais e viabilidade econômica, e sempre que possível dividindo a propriedade em glebas para que ocorra uma sistematização no processo rotacional. A antecedência no planejamento do processo rotacional também é de muita importância para que se alcance o sucesso.
Sucessão de Culturas e Produção
As culturas e os resíduos de plantas que antecedem a cultura principal podem influenciar no seu crescimento e produção. Os efeitos podem ser positivos ou negativos, variando com clima, solo, fatores desconhecidos e as combinações de sucessão. Os efeitos também variam com o intervalo de tempo entre a dessecação ou roçada e a morte das plantas e a semeadura das culturas que a sucedem. Em geral o efeito mais intenso de fitotoxinas ocorre na fase logo após a dessecação.
As figuras a seguir mostram a influência das plantas de cobertura nas culturas subseqüentes.
Efeito de culturas de inverno sobre a produção de soja (média de 4 anos) na região dos Campos Gerais, PR (Neto et al. 1994)
Ta: tremoço-azul; Er: ervilha; Erv: ervilhaca; Ap: aveia-preta; Ab: aveia-branca; Az: azevém; Ser: serradela; Tr: trigo; Cen: centeio; Tri: triticale; Nf: nabo-forrageiro; Can: canola

Relação Carbono/Nitrogênio
A relação entre a proporção de carbono e de nitrogênio na palha e nos restos culturais é denominada Relação C/N.
A Relação C/N e o conteúdo de lignina são fatores que governam boa parte do processo de decomposição dos restos culturais afetando a disponibilidade de nitrogênio para as culturas em sucessão (Alexander, 1977; Heizmann, 1985; Bruulsema & Christie, 1987).
Contudo, apesar das leguminosas possuírem um valor menor para essa relação, trazem as vantagens em curto prazo, especialmente quanto à liberação de nutrientes durante a decomposição, que ocorre mais rápido que as gramíneas, devido a seu maior teor de N (Fageria, 1989, citado por Fageria, Stone e Santos 1999).
As figuras a seguir ilustram a relação C/N de algumas plantas de cobertura.
Relação entre carbono e nitrogênio (C/N) na matéria seca de plantas cultivadas. Nf: nabo-forrageiro; Er: ervilhaca; Tr: tremoço; Se: serradela; Ce: centeio; Ap: aveia-preta; Tri: trigo; Mi: milho (várias fontes)

Relação entre carbono e nitrogênio (C/N) da palha de várias plantas cultivadas durantes o processo de decomposição (várias fontes)

Manejo dos Restos Culturais
O manejo e a uniformidade de destruição dos restos culturais no momento da colheita é um componente importante para o sucesso da semeadura, do crescimento uniforme das plantas e do controle das plantas daninhas, em lavouras sob plantio direto.
A distribuição desuniforme de palha permitirá a emergência de plantas daninhas nas áreas sem cobertura de solo. Deve-se equipar a colhedora com picadores e espalhadores de restos culturais para que façam a distribuição da palha com a melhor uniformidade possível.
O espalhador tem função de esparramar a palha bruta, sem picar, isso é desejável quando se pretende manter a cobertura por maior tempo possível. O picador reduz o tamanho das partículas de palha e acelera o processo de decomposição. Ao espalhar ou picar a palha é importante regular o maquinário para garantir a cobertura uniforme do solo.
Critérios para escolha de Culturas de Sucessão
No cerrado, onde o inverno é menos rigoroso e mais seco, as culturas tradicionais de regiões mais frias não se adaptam tão bem, passando o seu papel de produtoras de matéria seca a ser desempenhado pelas safrinhas. A safrinha por ser considerada uma agricultura alternativa, e sua implantação é efetuada em sistema de plantio direto, como forma de reduzir o risco crescente da semeadura tardia, uma vez que o desenvolvimento das plantas ocorrerá em períodos de baixas e decrescentes precipitações; portanto, o atraso na época de semeadura remete a maiores riscos na rentabilidade dessas culturas.
A correta escolha da cultura que desempenhará o papel de safrinha também é uma opção, não apenas para viabilizar o processo produtivo desta, mas para formação de palhada para o cultivo do verão seguinte.
A seleção deverá ser feita visando o tipo de exploração, levando em consideração os seguintes fatores:
• Quantidade e qualidade de massa produzida;
•Agressividade de desenvolvimento do sistema radicular;
• Rápido desenvolvimento inicial;
• Ter boa sanidade;
• Não ser hospedeira de pragas;
• Facilidade para produção de sementes;
• Aptidão para ser incluída num esquema de sucessão/rotação com as culturas econômicas principais;
• Permitir fácil implantação da cultura subseqüente;
• Possibilidade de incluí-la no plano de trabalho da propriedade, sem necessidade de onerar com aquisição de novas máquinas.
A safrinha e/ou a cobertura de inverno podem ter três finalidades principais: produção de grãos, pasto ou forragem de inverno e geração de palha para cobrir o solo.
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