Formação de Mão-de-Obra, por Marcelo Cabral, Equipe ReHAgro
Artigos Técnicos
Publicado em 26/07/2006 por Marcelo Cabral, Equipe ReHAgro

Formação de Mão-de-Obra
 
Um “Trabalho de Política” ou “Uma Política de Trabalho.”? Como podemos lidar com a situação de mão-de-obra rural num país tão grande e com diferenças de cultura tão significativas em suas diferentes regiões? Qual é a parcela de responsabilidade que nos cabe assumir como produtores, técnicos ou entidades de classe?

Já há alguns anos escutamos que o meio rural tem um problema crônico de pessoal para trabalhar, que somente restam as pessoas menos qualificadas e menos capacitadas para trabalhar nas fazendas. Aceitar que essa realidade está pronta e que é assim mesmo, (que, diga-se de passagem, é o que a grande maioria faz) nos deixa numa posição confortável e contribui para que tudo, realmente, continue do mesmo jeito por ainda alguns bons anos, pois, a sensação de terceirizar a responsabilidade, colocando a culpa nos outros, nos ilude e enganamos a nós mesmos. Diminui sem percebermos, o nível de consciência que deveríamos ter para materializarmos as necessidades de nossas empresas.
 
Sabemos que a sociedade se organiza de diversas formas e com isso pode transformar em realidade os sonhos e aspirações de cada um. As entidades de classe como Sindicatos Rurais, Cooperativas de Produção, Cooperativas de Crédito, entre outras, agregam pessoas com características comuns, com atividades comuns, com problemas comuns, mas, muito além disso, agregam as experiências e iniciativas que cada um desses membros carrega e que se bem trabalhadas, ordenadas e conduzidas, podem ser revertidas em incomensuráveis resultados para todos os envolvidos.

Em termos práticos, penso que as lideranças dessas instituições deveriam ser melhor escolhidas para que pudessem colocar em prática a “produção de idéias”. Penso que uma vez escolhidas e eleitas por nós produtores e membros de cada uma delas, estruturassem programas de “produção de idéias” específicas para cada região ou atividade. “Pensar que há uma receita de bolo, que uma vez escrita e seguida como a bula de um remédio levará à cura”, pode ser um dos principais problemas que nos tem deixado inertes ou pelo menos, lentos na busca de soluções para os nossos negócios.

Vivemos numa sociedade repleta de “demandas comuns” que quando levadas a discussões coletivas, esbarram em questões interpessoais entre aqueles que estão tomando a frente no momento e os demais que deveriam participar e, de maneira madura e responsável, abrir mão de suas demandas pessoais (algumas vezes “luxos e mesquinharias”) em prol da busca de soluções que atendessem à todos. Eu realmente não tenho claro, se os problemas são mais políticos ou se são mais de necessidade de amadurecimento de nós gestores em nossos meios.

 Quando estamos diante de um problema de uma máquina que quebrou em pleno enchimento de um silo, com 50 hectares ainda para colher e com um tempo instável (querendo chover) já sabemos como agir: assumimos o “leme do barco”, pegamos nosso telefone celular, ligamos para o técnico da revenda, pedimos sua visita e quando ele demonstra que pode demorar, nós mesmos saímos de nossas fazendas, vamos direto na cidade e buscamos pessoalmente o mecânico, acompanhamos seus trabalhos, dispostos a irmos à cidade quantas vezes forem necessárias para buscar peças de reposição, para comprar insumos diversos, tudo para que o problema se resolva e o objetivo final seja alcançado sem maiores prejuízos. O interessante é que não temos tido a mesma postura frente a uma questão que tem, ano após ano, interferido nos resultados de nossos negócios.

Me lembro de certa vez, conversando com um amigo bastante sábio, quando ele me disse: “Quando você estiver com um problema para resolver e não souber como faze-lo, compartilhe-o com outras pessoas e ouça suas idéias; seus pontos de vista irão ampliar o seu leque de possibilidades de entender o mesmo problema. Após conversar com esses outros, volte para seu canto e tente novamente encontrar soluções. Você verá que assim fica mais inteligente e produtivo, embora leve talvez um pouco mais de tempo e demande até mesmo receber idéias para depois descarta-las sem usar.” Convertendo isso em atitudes práticas, e sabendo que o número de assuntos é tão vasto e amarrado a traços culturais das regiões ou das atividades, penso que as lideranças deveriam, não assumir a responsabilidade de encontrar soluções sozinhos, mas sim, providenciar que alguns membros de suas sociedades fossem convidados para algumas “Produções de Idéias” (trocas de idéias sobre como formar mais e melhor as pessoas em seus meios).

Termos habilidades de conduzir tais encontros será condição básica e para aqueles que não se julgam habilitados a trabalhar com grupos de pessoas falando e discutindo, caberá buscar apoio em entidades com formação pedagógica (ou mais especificamente, andragógica – ensino e aprendizagem de adultos). Pode ser que várias reuniões e encontros sejam realizados e terminados com uma aparente “não produção de resultados”, mas precisamos aprender que os pensamentos e lógicas que temos usado nessa busca de melhorias e soluções para mão-de-obra no meio rural, podem e talvez, devam ser questionados.
 Um artigo como esse pode parecer teórico e utópico, para alguns até mesmo uma perda de tempo. Os níveis de incômodo que podemos ter ao ler e repensar nossas atitudes serão variáveis para muitos no país inteiro. Quando nos dispomos à dar andamento a essa busca de soluções as coisas mudam. Como falamos em alguns cursos e palestras, para que seja prático é necessário apenas colocar em prática e tomar a iniciativa.

Parcerias com escolas agrotécnicas, parcerias com escolas de formação profissional como Senar, Senai, Sebrae, além de busca de interação com entidades locais, pode levantar possíveis ações que se levadas à cabo podem juntas culminar em novas realidades à curto, médio e longo prazo. Os formatos dos cursos dentro de cada instituição podem ser foco de nossos empenhos. Os estímulos que podemos dar em nos organizar serão com certeza, base de estruturação em futuras reinvidicações junto a fontes de recursos, sejam estas, privadas ou do estado. A participação constante dos membros nessas “Produções de Idéias” será condição básica para que as determinações sejam amadurecidas de maneira coerente com o dia-a-dia.

Pessoas predispostas ao crescimento estão espalhadas por todo o país. Tornar possível esse encontro entre “Talento e oportunidade” (repetindo palavras de um grande amigo e produtor do sul de Minas) é nossa obrigação. Como gestores precisamos, do mesmo jeito que num caso de providenciar soluções para uma máquina que quebrou, sairmos das conversas de balcão e providenciarmos alguns dos primeiros passos que, com certeza, cabem simplesmente à nós.

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