Efeito da manipulação uterina sobre a eficiência reprodutiva de vacas de corte, por Gustavo Melo, Equipe ReHAgro
Artigos Técnicos
Publicado em 26/07/2006 por Gustavo Melo, médico veterinário, Equipe ReHAgro

Efeito da manipulação uterina sobre a eficiência reprodutiva de vacas de corte

Ao aproximarmos da Estação de Monta salienta-se a importância dada a um intervalo entre partos reduzido. Segundo Zimmer & Euclides Filho (1997), a média brasileira de intervalo entre partos encontra-se em 20 meses. A condição nutricional pré e pós-parto é um dos fatores determinantes para o prolongamento excessivo de tal índice, sendo que as primíparas são, principalmente, acometidas, devido à superposição da lactação com o desenvolvimento corporal.    

São utilizadas diversas técnicas de manejo no sentido de reduzir o intervalo entre partos, fazendo com que toda fêmea produza uma cria a cada ano de sua vida produtiva, e conseqüentemente eleve os índices de produtividade do rebanho. Dentre estas técnicas, destacam-se, a introdução do macho (rufião) no lote de fêmeas, restrição de amamentação, manipulação do aparelho reprodutivo, entre outras (Andrade, 2005).

Este artigo tem como objetivo discutir o efeito da manipulação uterina sobre a eficiência reprodutiva de vacas de corte. 

Involução Uterina

O ressurgimento da atividade ovariana pós-parto nos bovinos depende de vários fatores, entre os quais a condição nutricional pré e pós-parto, a quantidade de leite produzida, a idade e a raça do animal, a existência ou não de problemas durante o parto e amamentação. O processo de involução do útero após o parto consiste na mudança e reorganização tecidual, e pode ser divido em três fases seqüenciais: redução do tamanho do útero, perda de tecido uterino e reconstituição do tecido residual (Resende, 1993). 

A involução uterina ocorre de maneira mais acentuada nos primeiros 15 dias pós-parto, de tal forma que aos 30 dias pós-parto o comprimento do corno, antes gravídico, está reduzido a cerca de um terço do seu tamanho pré-parto (Gier & Marion, 1968). Existe grande variação entre as raças no que se refere ao período de involução uterina, sendo que para o zebu este período situa-se em 30,6 e 4,4 dias pós-parto (Nogueira et al., 1993). Segundo Resende (1993) o retorno do útero ao tamanho observado na fase pré-gestacional parece ser alcançado aos 40 dias pós-parto e o processo involutivo microscópico se completa por volta do quadragésimo quinto dia.

Kiracofe (1980) citado por Short et al (1990) concluiu que a involução uterina não tem relação direta com o período de anestro pós-parto, mas que sua integridade e reconstituição são determinantes para o estabelecimento de uma nova gestação.

Guilbaut et al (1984) citado por Resende (1993) observaram uma elevada concentração de 15-Keto-13, 14 – dihydro – prostaglandina F-2-a (PGFM) entre os dias dois e três pós-parto, a qual retornou, de forma progressiva, às concentrações basais por volta do décimo quinto dia pós-parto. A mensuração PGFM na circulação periférica está diretamente correlacionada à presença da PGF2a no útero.

Segundo Short et al (1990) a alta concentração de PGF2a uterina é um dos componentes evolvidos no mecanismo de involução do útero no pós-parto. Se a duração da liberação de PGF2a for muito curta a involução uterina estará prejudicada e se a duração for mais intensa o processo involutivo do útero será mais acelerado (Kindahl et al, 1992).

1.1 Manipulação Uterina

Segundo Tolleson & Randel (1988) PGF2a exógena, quando administrada em vacas Brahman entre os dias 29 e 42 pós-parto reduziu o período parto-primeiro cio. Tolleson & Randel (1988) relatam que a manipulação (massagem) uterina também foi capaz de encurtar o período parto-primeiro cio vacas multíparas Brangus. 

Tolleson & Randel (1987) verificaram que a manipulação uterina levou a um aumento nas concentrações plasmáticas de PGFM em vacas Bos taurus taurus no trigésimo quinto dia pós-parto, não sendo observado tal aumento quando o útero foi manipulado no décimo quarto dia pós-parto.

Tolleson & Randel (1988) avaliaram o efeito do alfaprostol, um análogo da PGF2a, e da massagem uterina via retal sobre o período pós-parto e taxa de gestação em fêmeas Brahman. Vacas multíparas (n=369) com 17 a 49 dias pós-parto, foram distribuídas em três grupos: 1) Alfaprostol + massagem uterina, 2) Somente massagem uterina ou 3) Controle. Antes de iniciarem-se os tratamentos, foi verificado o estágio de involução uterina de cada vaca. O alfaprostol mais a massagem diminuíram o período pós-parto independente do estágio de involução uterina, enquanto que a massagem isolada, teve efeito somente nas vacas em que a involução uterina não estava completa. Considerando-se o período total do experimento, tanto o grupo do alfaprostol mais massagem, como a massagem isolada tiveram período pós-parto significativamente menor do que o controle (47,0; 52,1 e 63,6 dias, respectivamente).  

Velez et al (1990) fizeram um experimento com o objetivo de se determinar o mínimo de massagens uterinas necessárias para se obter máxima resposta reprodutiva de vacas Brahman. Não foi observado diferença quanto aos índices de cio e gestação no 90º dia pós-parto entre os tratamentos cujas vacas receberam uma única massagem no 30º dia pós-parto ou massagem uterina semanalmente do nono ao 51º dia pós-parto ou do nono ao primeiro cio pós-parto.        

Randel et al (1990) estudaram o efeito de uma ou mais massagens uterinas em vacas Brahman, primíparas e multíparas. Os animais tiveram o útero massageado diariamente ou não durante dois minutos , via retal, entre o 29º e o 35º dia pós-parto, ou semanalmente, do sétimo ao 51º dia pós-parto. Os autores observaram que uma única massagem uterina não afetou o desempenho reprodutivo das vacas primíparas, enquanto que no grupo de multíparas o aumento da fertilidade foi significativo (P<0,01). Com relação à massagem uterina semanal, o incremento na taxa de fertilidade foi visto apenas nas multíparas. Os autores concluem que tal prática aumentou em 29,5% o número de vacas multíparas com intervalo entre partos inferior a 365 dias.
Em trabalho desenvolvido no Texas por Wann & Randel (1990), foi feita a avaliação do efeito da massagem uterina por dois minutos em fêmeas multíparas (451 kg e 6,1 de escore médio de condição corporal em escala de 1 a 9) e primíparas (408 kg e 6,3 de escore médio de condição corporal em escala de 1 a 9) da raça Brahman, 35 dias após o parto. Os autores observaram que tal prática não afetou a concentração de PGFM em primíparas, mas nas multíparas a PGFM elevou-se aos 70 minutos após a massagem uterina (Gráfico 1 e 2).


Gráfico 1: Resposta nas concentrações de PGFM de primíparas após massagem uterina. (Fonte: Wann & Randel, 1990)


Gráfico 2: Resposta nas concentrações de PGFM de multíparas após massagem uterina. (Fonte: Wann & Randel, 1990)

Ainda neste experimento, os autores constataram que os intervalos médios parto – primeiro cio de primíparas e multíparas não diferiram (P>0,10) entre os tratamentos (Tabela1)

Tabela 1: Efeito da massagem uterina 35 dias após o parto sobre o intervalo parto-primeiro cio em fêmeas multíparas e primíparas. (Fonte: Wann & Randel, 1990)




Wann & Randel (1990) afirmaram que a involução uterina completa verificada ao início do experimento (35º dia pós-parto), aliada ao alto nível nutricional destes animais contribuíram para a similaridade dos resultados.

Conciani et al (1991) desenvolveram um experimento procurando detectar os efeitos sobre o desempenho reprodutivo em vacas de corte causados pela massagem uterina, desmame temporário e pelo estresse durante uma estação de monta de 120 dias. Foram selecionadas 113 fêmeas da raça Nelore que atenderam as seguintes condições: a) idade – entre 3 e 5 anos; b) categoria reprodutiva – primípara lactente; c) período pós-parto – variando de 17 a 45 dias; d) levantamento reprodutivo – anestro fisiológico. Os animais foram agrupados em cinco tratamentos:  
T1 - controle (manejo tradicional);
T2 - manipulação uterina por 30 segundos a cada 30 dias;
T3 - desmame temporário (36 horas);
T4 - combinação de manipulação uterina e desmame temporário;
T5 - estresse de manejo (vacas conduzidas ao curral a cada 30 dias e presas no tronco de contenção por 30 segundos).

É importante destacar que Conciani et al (1991) optou pela duração do desmame temporário por um período de 36 horas, devido ao receio de possíveis rejeições das crias pelas vacas.



Tabela 2: Efeito da manipulação do aparelho reprodutivo de novilhas primíparas da raça Nelore sobre a eficiência reprodutiva. (Fonte: Conciani et al, 1992)

Tratamento n Manifestação cio, % Gestantes, %
T1 = controle 23 52,2 47,8
T2 = manipulação uterina 23 47,8 34,8
T3 = desmame temporário (36 h) 23 43,5 39,1
T4 = combinação de T2 e T3 22 40,9 36,4
T5 = estresse do manejo 22 40,9 31,8

Conciani et al (1991) concluem o experimento constatando a ausência de efeito (P>0,05)   dos tratamentos sobre o percentual de manifestação de cio e taxa de gestação. O autor, citando Tolleson & Randel (1987) sugere que a falta de maturidade fisiológica, o tamanho corporal ou mesmo outros fatores desconhecidos dificultam a resposta em fêmeas primíparas. Conciani et al (1991) ressalta, com relação ao tratamento de desmame temporário, que possivelmente o período de interrupção do aleitamento utilizado no experimento, não tenha sido suficiente para manter a concentração de LH plasmático elevado o bastante para induzir o desenvolvimento final do folículo e a ovulação.    

Resende (1993) conduziu um experimento no município de Carlos Chagas – MG, com um total de 181 vacas primíparas zebu objetivando avaliar o efeito da restrição de amamentação e da massagem uterina sobre o desempenho reprodutivo. Para o desenvolvimento do experimento os animais foram divididos em quatro tratamentos, sendo:
T1 - restrição de amamentação (uma mamada por dia);
T2 - restrição de amamentação e massagem uterina (massagem efetuada por 30 segundos);
T3 - manejo tradicional ou controle;
T4 - manejo tradicional e massagem uterina.

O autor afirma que os intervalos parto - primeiro cio durante o período experimental foram superiores para aqueles animais que receberam a massagem uterina (T2 e T4), independente do regime de aleitamento (Tabela 3).


O mesmo ocorreu para os intervalos subseqüentes: início do experimento – primeiro cio; parto – primeira I.A.


Tabela 3: Intervalos do parto ou início do experimento ao 1º Cio ou à 1a Inseminação Artificial (IA) de vacas primíparas zebu até o final da fase experimental (63º dia da estação de monta). (Fonte: Resende, 1993)

Outro ponto avaliado por Resende (1993) refere-se à porcentagem de animais ciclando quando submetidos aos diferentes tratamentos dispostos anteriormente e ao longo da estação de monta (estação de monta com duração de 120 dias) (Gráfico 3). É importante salientar, como visto no Gráfico 3, o efeito positivo do aleitamento restrito, que podem ser notados pelo índice de cio dos animais sob este tratamento.


 

Resende (1993) conclui o experimento afirmando que a massagem uterina não exerceu um efeito benéfico visto que as vacas a ele submetidas tiveram intervalos entre partos superiores.
Guatimosin Filho (1995) conduziu um experimento procurando avaliar efeito do manuseio do aparelho reprodutivo sobre o intervalo do parto ao primeiro cio em fêmeas zebu multíparas. Para isto utilizou 136 fêmeas zebu de segunda à sétima ordem de parto dispostas em três tipos de tratamento: T0 (n=46) controle; T1 (n=48) massagem uterina via palpação retal, por um período de 90 segundos, entre os dias 20 e 35 pós-parto, e T2 (n=42), idem ao T1, acrescido de uma segunda massagem entre os dias 48 e 63 pós-parto. Segundo o autor, os tratamentos aplicados não tiveram o efeito de redução do intervalo do parto ao primeiro cio observado (Tabela 4).


Tabela 4: Efeito dos diferentes tratamentos sobre o intervalo do parto ao primeiro cio observado. (Fonte: Guatimosin Filho, 1995)
 
2. Considerações Finais

Frente às diferenças encontradas nos diversos experimentos citados, constata-se que a efetividade real da manipulação uterina objetivando reduzir o intervalo entre partos é questionável, sendo necessários novos trabalhos, ou mesmo experimentos com maior amostragem entre os diferentes tratamentos.

3. Referência Bibliográfica:

Andrade, V. J., Manejo Reprodutivo de Fêmeas Bovinos de Corte. Escola de Veterinária da UFMG, 2005.
Conciani, A. C. Efeito da massagem uterina associada ou não ao desmame temporário, sobre o desempenho reprodutivo de vacas de corte primíparas. Escola de Veterinária da UFMG, 1991, 57p. Tese (Mestre em Zootecnia).
Gier, H. T.; Marion, G. B. Uterus of the cow after parturition: involutional changes. Am. J. Vet. Res., v.29, n.1, p. 83-96. 1968
Kindahl, H.; Odensvik, K.; Aiumlamai, S.; Fredriksson, G. Utero-ovarian relationship during the bovine post partum period. Anim. Reprod. Sci. 28:363-369, 1992.
Nogueira, L.A.G., Pinheiro, L.E.L., Norte, A.I. et al. Involução uterina e retorno à atividade cíclica ovariana em vacas Bos taurus indicus. Rev. Bras. Reprod. Anim., v.17, p.49-56, 1993.
Randel, R. D.; Nevendorff, D. A; Velez, J. S. Effect of uterine manipulation on postpartum fertility of Brahman cows and first-calf heifers. Journal of Animal Science Supplement, v.68, n.1, p.13, 1990.
Resende, H. R. A. Efeito da amamentação e da massagem uterina sobre o desempenho reprodutivo de vacas primíparas Zebu. Escola de Veterinária da UFMG, 1993. 101p. Tese (Mestre em Zootecnia).
Short, R. E.; Bellows, R. A.; Staigmiller, R. B. et al. Physiological mechanisms controlling anestrus and infertility in postpartum beef cattle. J. Anim. Sci., v.68, n.3, p. 799-816,1990.
Tolleson, D. R. and R. D. Randel. 1987. Physical manipulation of the postpartum bovine uterus and the subsequent release of prostaglandin Fzn J. Anim. Sci. 65(Suppl. 1 ):414 (Absu.)
Tolleson, D. R., Randel, R. D. Effects of Alfaprostol and uterine palpation on postpartum interval and pregnancy rate to embryo transfer in Brahman influenced beef cows. Theriogenology, v.29, n.3, p.555-564, 1988.
Wann, R. A., Randel, R. D. Effect of uterine manipulation 35 days after parturition on plasma concentrations of 13, 14-dihydro-15-keto prostaglandin F2 alpha in multiparous and primiparous Brahman cows. J. Anim Sci. v.68, p.1389-1394, 1990.
Zimmer, A.H.; Euclides Filho, K. As pastagens e a pecuária de corte brasileira. In: Simpósio Nacional sobre Produção Animal em Pastejo, 1997, Viçosa. Anais… Viçosa: UFV, 1997. p.349-379.

:: Comentários ::

FILIPE, Vasco Amos -
Estudante

Bom trabalho e melhorem cada vez mais. Estamos juntos Moçambique.
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