Manejo do solo visando produção econômica e sustentável de forragens,
Desde a época de nossos avós, aprendemos no meio rural uma rotina, que é usada até hoje em muitas propriedades, principalmente, naquelas situadas em regiões com agricultura menos desenvolvida. Colhe-se o milho, coloca-se o gado na palhada e próximo ao início da época chuvosa começam os trabalhos de preparo do solo para plantio da próxima safra. Geralmente, se faz primeiro a aração ou gradagem pesada, seguida de grade niveladora até quebrar todos os torrões do solo; plantio do milho, seguida ou não de adubação de cobertura; controle ou não de lagartas, etc; colhe-se o milho para grão ou silagem, e o processo se repete na próxima safra. Após alguns anos, há redução da produtividade da área, o que é natural devido à grande quantidade de nutrientes extraídos do solo, e acredita-se que aquela “terra se encontra cansada”.
Nos dias atuais com toda evolução tecnológica ocorrida no campo das ciências não se admite ou não se sobrevive mais como “antigamente” e os progressos técnicos, que geram retornos econômicos sustentáveis, devem ser inseridos nas propriedades a fim de se atingir aumento de competitividade, uma vez que, a agropecuária brasileira se encontra inserida num mundo globalizado, cada vez mais competitivo.
É pensando nisso que o foco desse artigo é discutir uma das tecnologias que vem gerando cada vez mais ganhos para aqueles que a adotaram e que apesar de possuir mais de 30 anos de existência no Brasil ainda é ignorada por muitos produtores. Tal tecnologia se chama sistema de semeadura direta1 (SSD). Como o próprio nome diz, trata-se de um sistema e como tal depende de uma série de fatores para que se tenha sucesso com o mesmo, sendo o principal deles a necessidade da rotação de culturas.

Milho sobre palhada de braquiaria

Soja de palhada de milheto
De forma similar ao ocorrido com o uso de grade e arado nas regiões temperadas (em que o objetivo era aumentar a temperatura dos solos congelados durante os invernos rigorosos e, dessa forma, criar condições para germinação das sementes das culturas implantadas na primavera/verão), o SSD também é importado. As primeiras experiências sobre o SSD são provenientes da Inglaterra e dos Estados Unidos. Nesses países, o SSD teve grande expansão, principalmente, após a última Grande Guerra. A partir dessa época acelerou-se a produção de agroquímicos e desenvolveram-se as primeiras semeadoras adaptadas ao SSD.
Os primeiros cultivos em SSD no Brasil ocorreram no início da década de 70 nos estados do Paraná (Londrina e Ponta Grossa) e Rio Grande do Sul. No entanto, a maior evolução na utilização desse sistema de cultivo ocorreu nos anos 80 e 90, principalmente, na região sob cerrados. Estima-se que a área cultivada em SSD no país é de 20 milhões de hectares. No entanto, em Minas Gerais, a área pode ter reduzido nos últimos anos com o retorno do sistema convencional em muitos casos, na tentativa de resolver problemas de doenças de milho, gerados pelo mau uso do sistema, ou seja, falta de rotação de culturas (monocultivo).
Se nas áreas de grãos já é difícil a implantação da rotação de culturas (caso típico do monocultivo de milho no Sul de Minas e soja em áreas do Mato Grosso), em muitas áreas de produção de forragem ela é ainda maior. Em muitos casos, o produtor possui área pequena para produção de alimentos, dificultando a rotação de culturas e, além disso, maquinário inadequado ao SSD. Nesses casos, cabe ao técnico responsável discutir com o proprietário se aquela propriedade está no caminho certo produzindo milho para silagem (por exemplo) ou se não seria mais conveniente que houvesse uma troca de volumoso daquela propriedade e mudança de todo o sistema de produção.
Deve-se ter em mente que o conceito do sistema de semeadura direta não pode ser seguido ao pé da letra em muitas propriedades que colhem silagem debaixo de chuva, principalmente, nos solos argilosos (barrentos) de Minas Gerais. Nesses casos, muitas vezes é recomendado o cultivo mínimo, em que o solo não é preparado da forma convencional com grade e arado, usando-se apenas um subsolador/escarificador de acordo com a necessidade. Esse equipamento, além de não promover o pé de grade, provocado pelos demais, pode apresentar a possibilidade de distribuir semente, de uma planta de cobertura adaptada à região e realizar a semeadura direta no final do ano.
Algumas vantagens do sistema de semeadura direta:
As principais vantagens do SSD comparado ao sistema de semeadura convencional (SSC) estão relacionadas, principalmente, com a redução de perdas de solo por erosão, conservação da água e aumento do teor de matéria orgânica (MO). A ausência de revolvimento do solo, que diminui a taxa de decomposição da MO, permite seu acúmulo na superfície.
A presença da palhada na superfície do solo diminui o impacto das gotas de chuvas, reduzindo as perdas de solo e nutrientes por erosão. Além disso, o aumento da MO nesses solos aumenta a capacidade de troca de cátions (CTC) e diminui os efeitos tóxicos do alumínio trocável, que é o principal limitante ao desenvolvimento das raízes em profundidade. A elevação do teor de MO também proporciona melhorias nas propriedades físicas do solo, como maior estruturação, retenção de água e a infiltração de água no solo.
Em solos sob SSD já estabelecidos, a eficiência da adubação fosfatada tende a ser maior do que nos solos cultivados sob SSC, em que o revolvimento do solo pelas operações de preparo promove uma mistura constante do adubo aplicado com o solo. No SSD, o fósforo (P) aplicado está menos sujeito às reações de fixação com os colóides do solo (óxidos de Ferro e alumínio) devido ao menor contato com as partículas do solo, além do aumento das formas de P orgânico em função do aumento da MO.
Outra grande vantagem da adoção do SSD é a diminuição da utilização de máquinas para preparo do solo e, conseqüentemente, do consumo de óleo diesel. Dessa forma, reduzem-se os custos de produção.
Apesar de o SSD apresentar diversas vantagens, sua adoção requer uma mudança de conceitos e paradigmas, relacionados às práticas agronômicas tradicionais, como utilização de máquinas de semeaduras diferenciadas para o SSD e maior atenção no controle de ervas, pragas e doenças. Atenção especial deve ser dada ao manejo da fertilidade do solo, quanto às correções e adubações. Outro ponto de grande importância é a rotação de culturas, que visa, principalmente, melhorar o controle pragas, doenças e ervas invasoras, uma vez que os resíduos vegetais permanecem sobre o solo.
Aspectos importantes no manejo sustentável de solo para produção de milho e sorgo para silagem:
Será exposto a seguir um resumo das principais práticas a serem desempenhadas em uma propriedade que busca produzir volumoso de qualidade e de forma sustentável.
Alguns produtores mais tradicionais de leite ainda são extrativistas na atividade agrícola, ou seja, plantam e colhem milho ou sorgo para silagem numa mesma área ano após ano, sem nenhuma preocupação com a sustentabilidade de produção dessas áreas ao longo do tempo. Geralmente, se foca muito na produtividade por animal e pouco na produtividade da terra. Dessa forma, muitas dessas áreas alcançam médias a baixas produtividades, que tendem a diminuir mais ainda com o tempo, devido, principalmente, à redução dos teores de matéria orgânica e de nutrientes (notoriamente, potássio), além do grave problema de aumento da intensidade de pragas e doenças nessas áreas.
É comum perceber que em muitas áreas produtoras de silagem, a última operação do ano é a colheita e nada mais é feito até a safra seguinte. Geralmente, um mês antes da semeadura da próxima safra (setembro), iniciam-se os trabalhos de preparo do solo, os quais podem chegar até três ou mais operações (aração, gradagem pesada, gradagem niveladora, etc.).
Essas operações, além de causarem o grave problema de pé-de-grade (camada compactada, abaixo da superfície, que impede infiltração de água), deixam o solo extremamente favorável a ser perdido pela erosão, assoreando lagos e rios, principalmente, nas áreas mais declivosas. Devido ao grande tempo decorrido entre a colheita da silagem e o novo plantio, em alguns casos há necessidade de roçada, elevando mais ainda o custo de produção. Quando há necessidade de calcário nessa área, o mesmo é aplicado numa época totalmente desfavorável. Assim, o corretivo terá pouca possibilidade de reagir no solo, além de haver dificuldade operacional na sua compra, transporte e aplicação.
Para planejar o manejo do solo após a colheita da silagem, são listadas as principais operações a serem executadas após a colheita:
Amostragem de solo: a primeira operação após a colheita da silagem. As amostras de terra deverão ser enviadas imediatamente para algum laboratório de boa referência (selo de qualidade) dentro de um prazo de uma semana após a retirada. Não é aconselhável armazenar amostras de terra na propriedade, a menos que as mesmas estejam secas a sombra.
Correção do solo:caso seja constatada a necessidade de calagem, é importante tanto do ponto de vista técnico (tempo e umidade necessária para reação do calcário, quando necessário), como operacional que a mesma seja realizada pelo menos até o final do período chuvoso. Nesse período, geralmente as equipes agrícolas das fazendas se encontram com menor quantidade de serviços, além de ainda haver umidade no solo suficiente para iniciar a reação do calcário.
Outro grande problema dessa operação é a má distribuição do corretivo. Na maioria das propriedades brasileiras, os implementos de distribuição não são bem regulados, não há balizamento e, nem tão pouco, nenhuma preocupação com as condições ambientais no momento da aplicação (excesso de ventos). Deve-se evitar a aplicação de calcário nessas condições.
Preparo do solo: como muitas propriedades colhem silagem “debaixo da água”, ocorre uma grande compactação do solo, podendo haver necessidade de uma escarificação ou subsolagem, no final do período chuvoso. Nas áreas em que essa operação for necessária a mesma deverá ser realizada após a calagem (se for constatada necessidade). Nessa mesma operação, pode-se também efetuar a semeadura de uma planta de cobertura, para iniciar o sistema de semeadura direta na próxima safra. Isso é possível com a utilização de alguns equipamentos disponíveis no mercado capazes de subsolar ou escarificar e distribuir as sementes numa mesma operação.
Nessa etapa começa o investimento que resultará na redução de custo da silagem nos próximos anos e na sustentabilidade do sistema de produção. Ao invés de três ou mais operações de preparo, como comentado anteriormente (alto gasto com horas máquina e óleo diesel), o produtor faz apenas uma operação de escarificação/subsolagem e inicia o investimento no aumento da matéria orgânica da propriedade, diminuição da perda de solo e nutrientes pela lavagem das águas de enxurradas e, conseqüentemente, na redução do custo de produção ao longo do tempo. No entanto, como não existem milagres no sistema, o investimento inicial na correção do solo e compra de sementes deverá ser realizado e os benefícios aparecerão ao longo das futuras safras.
Gessagem: além da coleta de terra para análise da camada de 0-20 cm para determinação da necessidade de calcário, deve-se também coletar amostras da camada de 20-40 cm. A partir desses resultados é que se define a recomendação do gesso agrícola, o qual apresenta muitas vantagens agronômicas. Dentre elas, podem-se citar o aumento de cálcio em profundidade, o qual proporciona condições para desenvolvimento de raízes no subsolo, minimizando os efeitos dos déficits de água, comuns em muitas regiões brasileiras. Outro aspecto importante é o fornecimento de enxofre, o qual é essencial, devido ao uso constante de fórmulas de fertilizantes cada vez mais concentradas e sem esse nutriente.
Potassagem: as lavouras produtoras de volumoso provocam vários danos ao solo, inexistente nas lavouras de produção de grãos. O principal deles é a retirada de praticamente toda palha, diminuindo a cada ano o teor de matéria orgânica do solo, além dos problemas de compactação do solo, quando a forragem é colhida em época chuvosa. Existem algumas maneiras de minimizar esses problemas, uma delas consiste em planejar o plantio para se colher em época com menor intensidade de chuvas, mais fácil em áreas irrigadas. Uma outra maneira para aumentar o teor de matéria orgânica do solo seria fazer a semeadura de alguma planta de cobertura (milheto, aveia, etc.) na área, logo após a colheita da forragem, para se fazer a semeadura direta na safra seguinte. As lavouras de produção de silagem extraem grandes quantidades de nutrientes, uma vez que quase todo material vegetal é retirado do solo. O grande problema da retirada total da palha é que cerca de 70-80 % do potássio extraído pelo milho está na palha e apenas 20 a 30% nos grãos. Isso explica porque as lavouras de silagem no Brasil apresentam baixos teores de potássio e matéria orgânica no solo. Esse problema poderá ser minimizado pela aplicação do potássio em área total (potassagem), antes do plantio, conforme necessidade avaliada pela análise de solo. Cuidados maiores devem ser tomados nos solos arenosos, onde essa prática não poderá ser realizada antes da semeadura, devido às possíveis perdas do potássio por lixiviação.
Não Perca, no próximo artigo, "Plantas para Cobertura de Solos e Sucessão de Culturas". Clique aqui e leia!