Poder x Autoridade: Você sabe a diferença? Leia o artigo "Liderança Autoritária" e descubra, por Marcelo Cabral, facilitador do curso Gerenciamento de Empresas Rurais, Equipe ReHAgro
Artigos Técnicos
Publicado em 23/08/2006 por Marcelo Cabral - médico veterinário, especialista em gestão e recursos humanos -Equipe ReHAgro

Liderança Autoritária

“Liderar” de maneira “Autoritária” é correto? Comandar equipes de funcionários em qualquer tipo de empresa seja ela uma indústria, um comércio ou uma fazenda sempre foi e sempre será um desafio às nossas habilidades. Até que ponto devemos ser democráticos? Até onde cabe o uso do “poder” para conseguirmos os resultados necessários? Alguns modelos de pensamentos vigentes podem estar nos limitando.

É fácil encontrar fazendas onde o “estilão” do gerente ou encarregado é taxado como mandão ou sem educação, que não sabe pedir ou ordenar aos funcionários sobre as tarefas. Para tratarmos de um assunto tão comum e ao mesmo tempo tão importante e desconfortável, valeria à pena nos lembrar de alguns detalhes que podem nos ajudar.

Uma abordagem mais responsável sobre gestão e gerenciamento de fazendas nos conduz a voltar nos pontos mais básicos de qualquer bom empreendimento, mesmo que somente para nos sintonizar dentro do assunto. O planejamento das atividades, ou melhor, a elaboração de um “projeto” ou “plano de negócio” é um dos principais exemplos. Como são muito poucas as fazendas construídas baseadas num projeto estruturado de instalações, previsão de manejo, cercas, corredores, posição das porteiras, distribuição dos bebedouros, previsão de rotinas de limpeza, demandas e especificações de máquinas e equipamentos, etc, é bastante esperado que o dia-a-dia dessas empresas esteja repleto de imprevistos, ajustes e correções de rota na busca de alcançar seus objetivos.

Por falar em objetivos, não sabemos quantificar qual é a percentagem de fazendas que têm claros seus objetivos e metas, que sabem onde querem e onde podem chegar. Percorrendo as fazendas por onde temos andado, podemos afirmar que representam uma minoria. Vários aspectos são considerados quando da determinação desses objetivos e metas, como por exemplo, tamanho da propriedade, disponibilidade de investimento, aptidão da região ou mesmo da topografia das terras, perfil dos gestores ou investidores, características de disponibilidade de mão-de-obra na região (concorrentes diretos e indiretos no mercado como indústrias, atividades sazonais como colheita de café em algumas regiões, etc).

Ainda como fundamento para discutirmos o uso do estilo "Autoritário" na condução de equipes de funcionários, devemos lembrar que a grande massa de trabalhadores disponíveis no mercado para atender nossas fazendas, apresenta baixo nível de formação, baixo nível de instrução técnica, alguns com níveis de experiência prática no ramo variados, sem falar do quanto  que essa experiência pode trazer de carona, alguns “vícios” e erros acumulados durante os empregos anteriores. A escolha desses funcionários já foi comentada em artigos anteriores e merece atenção especial.

O foco desse artigo não está em discutir a determinação de metas, o planejamento, a elaboração de projetos ou mesmo o recrutamento e seleção de funcionários, mas sim, o foco no uso do poder como recurso de liderança dentro das fazendas.

Gostaria de repetir a pergunta: “Liderar” de maneira autoritária é correto? Usar o poder para conseguir liderar pessoas é o caminho?” Uma definição mais clara do que é “poder” e do que é “autoridade” pode nos auxiliar na condução do assunto.

“Poder” tem relação direta com algum tipo de relação de “dependência”, ou seja, se um indivíduo “A” depende do indivíduo “B” significa que “B” tem poder sobre “A”; trazendo para dentro de nossas fazendas podemos correlacionar com as relações hierárquicas entre as pessoas. Um gerente, por estar num cargo mais alto da equipe, passa a ter mais “Poder” sobre os outros do que por exemplo um auxiliar de tratorista. O “Poder” é formal e não tem a ver com as características da pessoa. Por exemplo, hoje se um indivíduo chamado João está na gerência de uma fazenda, seus comandos deverão ser seguidos e acatados por todos os demais que estiverem abaixo dele na hierarquia, no mínimo por respeito ao cargo que ele ocupa. Já se amanhã ele for demitido e passar a não ter mais determinado cargo, seus comandos somente seriam seguidos ou acatados por questões referentes à sua influência como pessoa.

“Autoridade” tem íntima relação com a influência que determinada pessoa tem sobre os demais. Tem a ver com a admiração, respeito, confiança, simplicidade, coerência, competência entre outros valores que levam as outras pessoas a o perceberem como alguém que pode e vale a pena ser ouvido e seguido. Assim, a autoridade quem tem é a pessoa, enquanto que o “Poder” quem tem é o cargo que a pessoa ocupa.

Mediante os conceitos acima, fica clara a importância de se construir uma relação de “autoridade” perante os subordinados, como forma de maximizar a sustentabilidade das relações entre encarregado e demais funcionários. Considerando que desejamos pessoas com “atitude” dentro de nossas empresas e lembrando que a Atitude é composta de três componentes (Razão ou Intelecto, Emocional e o comportamento ou ação prática), deveremos sempre almejar o uso de um estilo mais participativo onde as pessoas possam opinar, participar das decisões e com isso, terem a oportunidade de entender e compartilhar dos desejos e planos da direção.

Quando escrevemos e registramos as idéias de liderança democrática e participativa, tendemos a enxergar a grandeza e nobreza de conseguirmos um clima de equipe e cooperação, porém, qualquer um de nós, está cansado de saber que na prática não é possível sermos tão abertos, pacientes e participativos. São inúmeros os momentos em que não temos tempo de conversar, que não podemos permitir esperar, que precisamos “quase que mandar mesmo” alguém fazer o serviço sem muitas perguntas para depois explicarmos os porquês. É preciso termos plena consciência de que, com muita chance de acerto, quase todas as vezes que precisamos ser “autoritários” aumentamos a chance de gerarmos problemas de relacionamento, problemas de erros na execução, perdas e desperdícios, etc. No início deste artigo comentamos sobre aspectos básicos que são comumente negligenciados (metas, planejamento, recrutamento, treinamento, etc) e agora fica mais fácil entender quantas vezes esse uso do “Poder” se deriva de falhas anteriores de planejamento. Esse fato nos remete à urgência de inserirmos dentro de nossas rotinas, momentos organizados e criteriosos para conversarmos e planejarmos, trocando idéias e permitindo a construção do entendimento para aqueles que irão executar.

O sentimento de culpa e até mesmo, de descrença com as recomendações literárias e de alguns consultores em recursos humanos, pode estar sendo criado e reforçado por uma falha de entendimento e de abordagem do assunto liderança. Muitas vezes fica parecendo que sermos autoritários é um erro. Que não poderíamos gerenciar na base do “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Que as pessoas têm o direito de participar e que isso as tornará mais comprometidas com o trabalho. Bem! Isso tudo pode até ser verdade como forma de sermos mais profissionais na condução de nossas empresas e equipes; porém, as duplicatas precisam ser pagas no vencimento, a compactação da silagem precisa ser bem feita pois ali está um significativo pedaço dos resultados futuros do rebanho, a qualidade do leite precisa ser alcançada dentro dos critérios de CCS e UFC (CBT), o caminhão boiadeiro precisa chegar ao destino com nosso gado carregado no dia marcado pelo cliente, e muitos outros pontos estarão nos pressionando para conseguirmos nos manter no mercado.

Com todas essas considerações, devemos entender que o uso do “Poder” , ou seja, liderarmos com estilo Autoritário, pode ser plenamente correto, desde que, utilizado apenas nos momentos oportunos, com educação e habilidade interpessoal, sempre que possível seguido de momentos de troca de idéias e explicações técnicas para que, as prováveis “perdas” de relacionamento decorrentes do “fazer contrariado” sejam prontamente compensadas, justificadas, tratadas com respeito e conseqüentemente, convertidas em amadurecimento de todos.

Se vamos utilizar do poder para corrigir erros de rota, que o utilizemos com maturidade e de maneira conseqüente. Isso não tira de nós a necessidade de buscarmos minimizar os momentos de necessidade de sermos autoritários, conscientes de seus potenciais malefícios.


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Bia brochado-Rs -
Produtor - Gado de Corte

Acredito que artigos como esse ilustram o produtor vislumbrando pensamentos que contribuem para uma postura que coopera com as empresas rurais, colaborando para vencerem os desafios com mais serenidade e harmonia.
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