Introdução
O sistema de produção de bovinos em confinamento é uma estratégia adotada na estação seca para evitar a perda de peso dos animais, fornecendo ração concentrada e volumoso no cocho. No confinamento o custo é mais elevado devido à demanda por instalações, máquinas, mão de obra específica entre outros, mas em compensação o animal ganha mais peso que no sistema a pasto, desde que a dieta esteja bem balanceada e todo o operacional funcionando.
O uso da terminação de bovinos em confinamento já foi usada como estratégia para aproveitamento das características sazonais do mercado, que permitiam altas rentabilidades devido às diferenças de preço do boi gordo entre a safra e a entressafra que chegavam a mais de 40% nas décadas anteriores, sendo que atualmente não passa de 20%. Atualmente, o confinamento deve ser encarado como uma alternativa estratégica para aumentar a escala de produção da propriedade (arrobas/hectare/ano), retirada da categoria de engorda das pastagens na seca para entrar a recria e produzir novilhos precoces.
Infra-estrutura
O investimento inicial para o confinamento é elevado ficando em R$ 364,25/ boi instalado (Figura 1). As instalações e equipamentos possuem vida útil que varia de 10 a 20 anos, e ainda, a capacidade estática do confinamento é para 2.000 bois, portanto podem ser feitos no mínimo dois ciclos diluindo os custos fixos deste empreendimento. Para isto ocorrer a fazenda deve ter quantidade de animais para engorda suficiente, volumosos e recurso financeiro para todos os insumos.
Figura 1 – Relação de investimentos para confinamento de 2.000 bois

Fonte: Burgi, 2006.
Planejamento
O levantamento dos gastos com o confinamento deve ser bem planejado devido ao elevado volume de recurso financeiro necessário. A maior parte do custo operacional total está relacionada à compra dos bois e depois à dieta (Gráfico 1). Os valores de máquinas e instalações são referentes às depreciações, portanto não são desembolsados no fluxo de caixa da fazenda. Caso a fazenda tenha os bois, na mesma situação, a dieta terá o maior percentual (61%), depreciações (13%), mão de obra (7%), combustível (5%), vacina e outros (2%).
Gráfico 1 – Percentual do custo operacional total de dois confinamentos em 2005.

Fonte: Barbosa et al., 2006.
Sendo assim, o preço de compra dos animais e dos alimentos, além do preço de venda, são de fundamental importância para a viabilidade econômica do confinamento. Em regiões onde o preço de compra do boi (na entrada) é superior a 20% da arroba de boi gordo; os preços de grãos e subprodutos são elevados devido à distância da fábrica até na fazenda; e os preços de boi gordo não são elevados, é totalmente descartada a possibilidade de realizar este confinamento, pois será inviável economicamente na maioria dos anos.
Para realizar a atividade de confinamento é fundamental que na fazenda tenha áreas destinadas para culturas de silagens e/ou cana-de-açúcar. O tamanho da área pode ser fundamental para a escolha de qual volumoso plantar. Por exemplo:
- Confinamento de 4.000 bois
- Produção estimada de cana-de-açúcar = 120 toneladas por hectare
- Produção estimada de silagem de milho = 45 toneladas por hectare
- Consumo médio de cana = 18 kg/cabeça/dia
- Consumo médio de silagem = 20 kg/cabeça/dia
- Dias de confinamento = 70
- Necessidade de volumoso:
1) Cana = 18 kg x 70 dias x 4.000 bois = 5.040 toneladas
2) Silagem = 20 kg x 70 dias x 4.000 bois = 5.600 toneladas
- Necessidade de área:
1) Cana = 5.040 / 120 = 42 hectares
2) Silagem = 5.600 / 45 = 124 hectares
Portanto, a escolha do volumoso pode ser dependente da área disponível na fazenda para a cultura, considerando que existem condições edafoclimáticas para o plantio de cada cultura.
Ração concentrada
O uso de elevada quantidade de volumoso nas rações de confinamento no Brasil é decorrente do seu baixo custo de produção, devido a elevada produtividade e necessidades de áreas relativamente pequenas. Normalmente, as rações contêm entre 50 e 80% de volumosos na matéria seca. Os volumosos mais comuns são: silagens de capins tropicais (Panicuns sp., Brachiaria brizantha, etc.) silagem ou capineira de capim elefante, silagem de milho, sorgo, cana de açúcar, bagaço hidrolisado, etc. Nestas dietas os ganhos não passam de 1,2-1,3 kg/cabeça/dia. Atualmente, o uso de dietas com teores mais elevados de grãos (acima de 60% da dieta) tem proporcionado ganhos mais elevados com o custo por arroba produzida menor (Tabela 1). Estas situações ocorrem onde os preços de grãos e subprodutos são mais baratos. Assim, o uso de resíduos e subprodutos da agricultura e indústria é uma alternativa de grande potencial, uma vez que consistem no aproveitamento de materiais hoje desperdiçados, que podem ser transformados em produtos animais. Os principais requisitos para sua utilização são:
- disponibilidade destes materiais na área de realização de engorda;
- segurança e confiabilidade quanto a presença de resíduos tóxicos;
- análise laboratorial do carregamento que chega na fazenda – alta variação na qualidade;
- existência de tecnologia específica;
- preços dos alimentos colocados na fazenda.
Tabela 1. Diferenças técnicas e econômicas em um confinamento com cana-de-açúcar de acordo com a base de cálculo da dieta.

Como observado na tabela acima (Tabela 1) apesar do gasto diário mais elevado com a dieta de lucro máximo o custo da arroba produzida é menor devido ao maior ganho de peso. Além disso, reduz os dias no confinamento proporcionando maior número de animais por área com a entrada de novas cabeças e diluição das depreciações. A quantidade de concentrado a ser oferecido é em função da raça, do custo da alimentação e arroba produzida e do preço de venda da arroba. Animais de cruzamento industrial respondem com maiores ganhos de peso nas dietas com altos teores de concentrado, onde esse concentrado pode chegar a 2% do peso vivo ou 80-85% na dieta, já os animais zebuínos com ingestões menores de concentrados, em torno de 1,5% do peso vivo ou 60% na dieta.
Volumoso
A qualidade do volumoso e da dieta vai influenciar o ganho de peso dos animais no confinamento. Como observado nas tabelas 2 e 3, quanto melhor o valor nutricional do volumoso maior o ganho de peso dos bovinos. A variedade da espécie forrageira também influenciará o ganho de peso dos animais, onde a silagem de duplo propósito (AG 2006) apresentou maior ganho de peso que a de sorgo forrageiro (AG 2002), e ainda, com o aumento do concentrado na dieta o ganho também foi maior nas duas variedades, mas o impacto deste ganho foi diferente entre elas (Tabela 3).
Tabela 2. Diferenças na qualidade de volumoso e ganho de peso dos animais.

Fonte: Adaptado de Vaz et al., 1999.
Tabela 3. Diferenças no ganho de peso dos animais com diferentes níveis de concentrado associados a duas variedades de silagens de sorgo.

Fonte: Silva (1999) citado por Vaz et al., 2000.
Não perca na próxima parte do artigo, a escolha das categorias e dos animais a suplementar e avaliações econômicas do sistema. Até lá!