Confinamento - Planejamento e Análise Econômica, Parte II, por Fabiano Alvim, médico veterinário, professor da Pós Graduação em Pecuária de Corte ReHAgro, mestre em Nutrição Animal e doutorando em Produção Animal - EV/UFMG
Artigos Técnicos
Publicado em 28/09/2006 por Fabiano Alvim, médico veterinário, mestre em Nutrição Animal e doutorando em Produção Animal - EV/UFMGprofessor da Pós Graduação em Pecuária de Corte ReHAgro

Escolha das categorias e dos animais a suplementar

As categorias dos animais a serem suplementadas dependerão das metas a serem alcançadas, (peso ao abate, peso para entrar no confinamento, peso à primeira cobertura, peso ao primeiro parto, etc.), da disponibilidade de matéria seca disponível e do recurso financeiro.
Como a exigência de energia para a mantença é em função do peso vivo, quanto maior o animal, maior será sua necessidade de ingestão para satisfazer sua mantença para depois atender as exigências de crescimento e ganho de peso. Portanto, os animais de estrutura corporal corporal (frame size), que considera a altura e o comprimento do corpo, intermediário são os mais eficientes. Dentro de uma mesma raça e mesma idade, animais portadores de maior estrutura corporal ganharam peso mais rapidamente e alcançaram peso mais altos que os demais, na época do abate. Quando comparado entre as raças (Angus, Hereford e Charolês), os maiores exigem períodos de alimentação mais longos que os menores para atingir o mesmo ponto de abate, porém com pesos finais sempre mais elevados. Os extremos não são eficientes, pois o animal de porte pequeno terá pouca quantidade de carne para o frigorífico, e, o animal de porte grande, demora a depositar gordura na carcaça (mais tardio). As duas situações são entraves na comercialização dos animais com penalização no preço da arroba vendida.

Os zebuínos possuem exigência de energia de mantença 10% menor do que os taurinos. Os machos inteiros apresentam exigência de energia de mantença 15% acima dos machos castrados e das fêmeas. Sendo assim, a velocidade de ganho e de acabamento será influenciada por estes aspectos. Os animais inteiros, pela ação dos hormônios androgênicos, têm maior ganho de peso em relação aos castrados, normalmente de 20 a 40 kg de peso vivo a mais, entretanto, necessitam de uma maior quantidade de suplemento concentrado para que tenha acúmulo mínimo de gordura na carcaça quanto terminado a pasto.

Os animais que estão em uma situação de escore corporal acima de 6 (escala de 1 a 9) ou 3 (escala de 1 a 5) (tabela 4) apresentam baixa eficiência alimentar, pois, já estão em processo fisiológico de acúmulo de gordura, sendo assim o custo de acrescentar 1kg de peso passa a ficar demorado e muito caro.

Tabela 4. Sistema de escore visual para a avaliação da condição corporal de bovinos.


A categoria animal , as raças, bem como o o ganho de peso anterior deste animais influemciam os desempenhos no confinamento. Os animais que estão com baixo ganho de peso ou até mesmo perdendo peso antes de entrarem no confinamento apresentam ganno compensatório elevado podendo chegar  entre 1,8 a 2,0 kg/cab/dia. Isto acontece, principalmente, com animais muito magros mas com boa carcaça (comprimento, largura e altura), normalmente, até 60 dias de confinamento.  Após este período estes ganhos médios diminuem, e a partir daí os custos da arroba produzida tornar-se-ão mais elevados.

Os animais mais novos e mais leves apresentam melhor conversão alimentar (kg de alimento/ kg de ganho) do que os animais mais velhos, sendo assim, o custo por ganho é menor, entretanto, necessitam de mais tempo no confinamento para a sua terminação. Isso é um dos fatores da diminuição do novilho super-precoce no Brasil, pois o desembolso financeiro é alto devido ao maior número de dias de confinamento (150 a 170), e ainda, dependendo da região (em função da estação de monta e índice pluviométrico)  não consegue atingir o peso mínimo (acima de 17 arrobas) exigido pelo frigorífico de exportação para o animal inteiro.

Os machos inteiros apresentam maior eficiência de ganho de peso que os castrados, pois necessitam de cerca de 13-18% (dependendo da raça) a menos de energia líquida para ganho. Portanto apresentam menor conversão, isto é, necessitam de comer menos para ganhar 1 kg de peso vivo. Em um resumo de vários trabalhos dos pesquisadores do Rio Grande do Sul mostram que os animais inteiros consomem mais alimentos (+5 a 8%), ganham mais peso (+12 a 25%),  tem menores conversões alimentares (-7 a 17%) e maior peso final (+ 14 a 47 kg).

As fêmeas apresentam menor eficiência de ganho de peso que os castrados, pois necessitam de cerca de 17-18% (dependendo da raça) a mais de energia líquida para ganho. Portanto, estas categorias podem trazer prejuízos dentro do confinamento se ficarem muito tempo, acima de 60-70 dias. Além do custo do ganho ser mais elevado que dos machos o preço da arroba da fêmea é mais baixo, com algumas exceções para novilhas precoces. 

Tabela 5. Desempenho de bezerros (BZ), novilhos de sobreano (N 1,5), novilhos de 2,5 anos e vacas descarte (VD) em confinamento por 84 dias com cana-de-açúcar e concentrado.


Fonte: Towsend et al. (1988) citado por Restle et al. (2000).

Segundo Burgi (2006) os 3 principais grupos de bovinos utilizados no Brasil podem ser divididos da seguinte maneira:

 - Zebuínos (Nelore, Guzerá, Brahman, Tabapuã, etc.) – São produzidos no Brasil e outros países da América.  Apresentam massa muscular com pouco marmoreio, porém são bovinos de fácil terminação, do ponto de vista de deposição de gordura extra-muscular e subcutânea. No confinamento, geralmente atingem o peso de abate, já com uma condição adequada de cobertura de gordura na carcaça.

 - Britânicas (Angus, Hereford, Devon, etc.) – São produzidos pelos Estados Unidos, Argentina, Uruguai, Austrália, Inglaterra, entre outros países. Apresentam elevada deposição de gordura na carcaça, com forte marmoreio e muita precocidade de acabamento. No confinamento, quando atingem o peso de abate, geralmente já alcançaram uma condição de terminação (teor de gordura na carcaça) acima da exigida pelos frigoríficos.

 - Continentais (Limousin, Charolês, Blonde, Marchigiana, Piemontês, Chianina, etc.) – São produzidos na Itália, França, Espanha entre outros países. Possuem elevada musculosidade, com pouca deposição de gordura na carcaça. Apresentam cortes sem marmoreio e dificuldade de deposição de gordura extra-muscular e subcutânea. São mais tardios quanto ao acabamento necessitando mais tempo no confinamento para conseguir a cobertura mínima exigida de gordura.

Outras raças podem se encaixar nestes 3 tipos principais como as continentais de dupla aptidão (Simental e Pardo-Suíço), apresentam um pouco de marmoreio e um pouco mais de facilidade de terminação que as raças de corte francesas e italianas. As raças sintéticas formadas a partir de zebuínos e taurinos continentais (por exemplo, o Canchim e o Simbrasil) tem uma condição de terminação intermediária entre estes 2 grupos raciais. As sintéticas com sangue britânico (por exemplo, o Brangus e o Senepol) apresentam melhor precocidade de terminação e um maior grau de marmoreio.

Avaliações econômicas
O uso das suplementações vem aumentando a cada ano, no Brasil, sendo responsável por 15% do total de abate brasileiro (Gráfico 2). Este aumento da intensificação da produção é responsável pelos melhores resultados de produtividade alcançados no Brasil. 

Gráfico 2 – Número de bovinos terminados em suplementação intensiva – mil de cabeça.<. 


Fonte: Anualpec, 2006.

O confinamento é uma atividade que envolve um risco mais elevado devido ao volume de desembolso financeiro, e sua rentabilidade ser totalmente dependete do preço de venda dos bovinos. Em um estudo de dois confinamentos em Minas Gerais, no ano de 2005, mostraram que as fazendas apresentram lucro operacional (LO) e apesar de não serem valores altos, indicam que o confinamento foi uma atividade que conseguiu viabilizar-se e pagar todos os custos operacionais.  No entanto, observou-se que apesar de ter apresentado LO positivo, o confinamento no sistema  2 não conseguiu pagar o custo do capital (COC) investido na atividade (Tabela 6). Este fato ocorreu principalmente devido a pouca valorização da arroba na entressafra, que deveria ser de R$ 51,61 (valor de venda) para pagar COC, ficando o resíduo para remunerar o proprietário igual a zero.
 
É importante ressaltar que, nesse estudo, não foram considerados, para o sistema de produção, outros benefícios  decorrentes da adoção de confinamento tais como: a antecipação das receitas e os custos de permanência destes animais por mais tempo na fazenda. Estes resultados indicam que o confinamento, por si só, não pode ser considerado uma das melhores opções de investimento do mercado, no entanto, quando se considera o confinamento como estratégia para o sistema como um todo é que se entende a sua função estratégica. Os preços de venda e de compra, isto é, a variação do preço da arroba exerce grande influência nos resultados econômicos.

Tabela 6 - Análise econômica e de custos de dois confinamentos.

Fonte: Barbosa et al., 2006

Figura 2 – Custo de produção de um confinamento em 2005.

 


Fonte: Burgi, 2006. 

O custo da arroba produzida varia em função do ganho de peso do animal, o preço dos insumos, infra-estrutura e região onde é realizado o confinamento. Como demonstrado na figura 2, o custo da arroba produzida foi de R$ 47,00, ficando mais baixa que nas fazendas acima (Tabela 35). Portanto, o planejamento bem feito assegura a tomada de decisão de fazer o investimento.   

BIBLIOGRAFIAS CONSULTADAS

ANUALPEC. Anuário da Pecuária Brasileira. São Paulo: Instituto FNP, 2006.
BARBOSA, F.A., GUIMARÃES, P.H.S., LIMA, J.B.M.P. Planejamento e estratégias nutricionais como ferramentas para aumento na rentabilidade da pecuária de corte. In:  ENCONTRO DE MÉDICOS VETERINÁRIOS E ZOOTECNISTAS DOS VALES DO MUCURI, JEQUITINHONHA E RIO DOCE, 26, 2005,Teófilo Otoni, Anais ... Teófilo Otoni: SRMVM, 2005, p.28-43.
BARBOSA, F.A., GUIMARÃES, P.H.S., GRAÇA, D.S., ANDRADE, V.J. CEZAR, I.M., SOUZA, R.C., LIMA, J.B.M.P. Análise da viabilidade econômica da terminação de bovinos de corte em confinamento: uma comparação de dois sistemas. In:  REUNIÃO ANUAL DA SOC. BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 43, João Pessoa. Anais ... João Pessoa: SBZ, 2006, CD-ROM.

BURGI, R. Confinamento: conceitos atualizados. In: CONGRESSO LATINO-AMERICANO DE NUTRIÇÃO ANIMAL, 2, São Paulo. Anais ... São Paulo: CBNA-AMENA, 2006. CD-ROM.
FEIJÓ, G.L.D., SILVA, J.M., THIAGO, L.R.S. et al. Efeito bioeconômico de níveis de concentrdao no confinamento de novilhos. Campo Grande: Embrapa Gado de Corte, 1998. 30p.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient Requeriments of Beef Cattle.  Washington, D.C. National Academy of Sciences, 7 ed., 242 p., 1996.
RESTLE, J., VAZ, F.N., ALVES FILHO, D.C. Machos não castrados para produção de carne. In: RESTLE, J. Confinamento, pastagens e suplementação para produção de bovinos de corte. Santa Maria:  UFSM, 1999, p. 215-231.
RESTLE, J., ALVES FILHO, D.C., NEUMANN, M. Eficiência na terminação de bovinos de corte. In: RESTLE, J. Eficiência na produção de bovinos de corte. Santa Maria:  UFSM, 2000, p. 277-303.
VAZ, F.N., VAZ, R.Z., BERNARDES, R.A.C. Viabilidade econômica do confinamento no Rio Grande do Sul. In: RESTLE, J. Confinamento, pastagens e suplementação para produção de bovinos de corte. Santa Maria:  UFSM, 1999, p. 147-177.
VAZ, F.N., VAZ, R.Z., ROSO, C. Tipos e níveis de concentrado para confinamento. In: RESTLE, J. Eficiência na produção de bovinos de corte. Santa Maria:  UFSM, 2000, p. 219-257.

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