Qual o valor marginal de um litro de leite a mais?
É inquestionável o valor da alimentação dentro de uma fazenda leiteira. Todos sabemos que é o fator mais importante que afeta a produção de leite. Vacas não produzem mais leite a não ser que elas comam mais. Leite entra pela boca, existe uma relação direta entre consumo e produção. A alimentação também é o principal componente do custo de produção de leite , variando de 45 a 60% do custo de produção de leite. Como uma fazenda pode ganhar mais dinheiro com leite? Não existe mágica, a resposta é simples: diminuindo custos ou aumentando a receita. Ao contrário de que muita gente diz, manter os custos baixos não é principal meta, no entanto aumentar o lucro deve ser o principal objetivo. Não produzir alimentos necessários na fazenda vai diminuir os custos, não alimentar uma vaca também, do mesmo modo ir pescar sem isca é pescaria barata. Qual o impacto na receita da fazenda?
Voltando a vacas, quando estas produzem mais leite elas diluem um “custo fixo” chamado mantença. Mantença é a quantidade de nutrientes e energia necessária para a vaca andar, respirar, manter o funcionamento do organismo. Essa exigência é basicamente dependente do peso do animal. Quando uma vaca aumenta a produção de leite, a quantidade de nutrientes e energia necessária para mantença fica diluída em meio a grande quantidade de energia relativa ingerida para a maior produção de leite. Ela se torna mais eficiente, porque a maior parte da energia consumida vai para a produção de leite, diluindo o seu “custo fixo”. Isso não significa que rebanhos de alta produção têm a sua lucratividade garantida, mas dentro de uma fazenda de leite uma maior produção geralmente resulta em aumento de lucros.
A Tabela 1 mostra o cálculo da receita menos o custo de alimentação em vários níveis de produção. A dieta é composta por silagem de milho, milho, polpa, farelo de soja, caroço de algodão, uréia e minerais a preços comumente encontrados na região sudeste.

Como pode ser observado na tabela, o custo alimentar por litro de leite cai com o aumento de produção, demonstrando a maior eficiência da vaca em produzir leite. A receita sobre o custo alimentar sobe com o aumento da produção. As vacas de menor produção custam menos, mas a receita menos o custo alimentar é bem menor em relação às vacas de alta produção.
Custo Alimentar Marginal
Podemos chamar de custo alimentar marginal o valor dos alimentos necessários para se produzir mais leite em determinada vaca.
Na planilha abaixo temos o valor marginal do consumo de 1 quilo a mais de matéria seca de dieta em um rebanho com produção média de 15 litros alimentados com cana-de-açúcar. A produção de leite adicional de uma vaca custa somente o alimento extra para a produção de leite, não existe mudança no custo da mantença. O custo alimentar do litro de leite extra geralmente é bem mais barato que o valor do leite, o que faz com que o aumento de consumo e o conseqüente aumento de produção seja um excelente investimento. Todas essas pressuposições levam em consideração que a vaca tem o potencial de produzir mais. Aumentar o consumo de alimentos em animais que já estão no seu limite de produção não resulta em ganhos de receita em leite. Os dados mostram que é sempre interessante fazer uma vaca produzir mais através da maior ingestão de alimentos.

O valor marginal do leite deve ser levado em consideração na tomada de decisões em um rebanho pois mudanças que visam diminuir o custo alimentar podem ter efeitos prejudiciais por comprometer a produção. O risco de mudança de produção dever ser muito ponderado já que reduções de custos que levem a diminuição da produção geralmente são um mau negócio para a fazenda.
Quais os fatores que afetam a possibilidade de maior consumo? Fatores relacionados ao animal ou ambiente estão relacionados à possibilidade do consumo a mais. Em relação ao animal podemos citar o potencial genético e as doenças. Vacas com maior potencial genético para maiores produções poderão consumir mais e vacas saudáveis também. Medidas de manejo que levem a diminuição dos índices de problemas como distocia, retenção de placenta, metrite, deslocamento de abomaso, cetose e mastite levam a maximização da ingestão. Portanto, investir em condições que evitem problemas principalmente em relação à vaca no período periparto levam a maior ingestão de alimento pelo animal. Em relação ao ambiente, podemos citar a minimização do estresse térmico com a preocupação da disponibilidade e qualidade da sombra, e a drenagem adequada de piquetes. Outro importante ponto para a maximização produtiva seria a eficiência reprodutiva. Com melhoria da eficiência reprodutiva, aumenta-se a proporção de vacas na fase mais produtiva da lactação (próximo ao pico de produção), ou seja, aptas a produzirem e consumirem mais.
O manejo da alimentação também pode ter um efeito importante no consumo animal. Importante que haja uma limpeza periódica dos comedouros evitando que alimentos deteriorados levem a diminuição do alimento recém oferecido. O respeito aos horários dos tratos também é importante para maximização do consumo e eficiência da fermentação ruminal. A disponibilidade de comedouros também afeta a ingestão de matéria seca. Uma baixa disponibilidade de comedouros leva a uma maior competição entre os animais diminuindo o consumo de matéria seca do grupo de produção. A disponibilidade de alimento per se é de extrema importância. Técnicos e produtores devem ficar extremamente preocupados com a situação de comedouros vazios. Na maioria das situações não é economicamente interessante limitar o consumo de energia de uma vaca leiteira, exceto em lote de vacas que estão gordas ou ficando gordas. O valor marginal do leite é simplesmente muito alto para ser desprezado.
Em relação à qualidade do alimento fornecido para a vaca, a qualidade de forragens exerce um efeito grande no consumo. Forragens de baixa qualidade (baixa palatabilidade e de altos teores de fibra) possuem um efeito negativo no consumo animal. Produzir e fornecer forragens de alta qualidade é uma das mais importantes medidas para a maximização do consumo e da produtividade animal. A conservação dos alimentos também é um importante item que afeta o consumo dos animais. Alimentos mal conservados apresentam um efeito depressor no consumo e podem apresentar um risco à saúde animal, portanto deve ser dada atenção à qualidade dos alimentos fornecidos para o rebanho.
Decisões em fazendas não devem ser tomadas somente na pretensão de diminuição de custos. A sobrevivência de uma fazenda não está pautada em custo mínimo, mas sim em lucro máximo.