Ponto de Vista - Clóvis Corrêa - A despolitização do Brasil e o contexto do agronegócio. Leia aqui.
Ponto de Vista
Publicado em 02/10/2006 por Clóvis Corrêa

A despolitização do Brasil e o contexto do agronegócio

O brasileiro tem demonstrado uma assustadora aversão pela política. Na campanha de 2006 para cargos políticos em cinco níveis importantes de governo, muitas pessoas ficaram indiferentes ou falaram da política com descrédito.

Tratar a política como coisa para pessoas desonestas é um grande erro. Sempre teremos política e devemos entender que a única maneira de melhorar nossa representação é acreditando que podemos ter representantes honestos e que pessoas honestas podem e devem ser políticas.

Tememos que, por não estar interessada, por pensar que todos os políticos são desonestos ou por ignorância, a população do país não use o poder do voto para punir a corrupção e demais crimes que ficaram tão evidentes nos últimos anos. Isso seria um estímulo à impunidade.

Porém, além de honestidade, precisamos de ações estratégicas.

O agronegócio brasileiro foi duramente castigado pelas políticas adotadas nos últimos anos. Podemos reclamar e criticar sem fazer nada de concreto ou podemos nos mobilizar de maneira organizada e reagir pelos instrumentos da democracia.

Essa reação precisa ocorrer em diversos níveis e não será de um dia para o outro. Somos um país jovem, um povo acomodado e pouco educado para se organizar e lutar por seus direitos de cidadãos e de classe produtiva.

Para que o todo melhore, cada um de nós tem que ter atitudes em direção à melhoria.

Nessas eleições de 2006, buscamos fazer bom uso da ferramenta que temos - o voto.
Procuramos um candidato com um passado limpo e identidade com o agronegócio e oferecemos nosso apoio, mesmo que pouco expressivo, em troca de abertura para ouvir nossos representantes e apoiar as reivindicações do setor.

Com muitas pequenas instituições fazendo isso, escolhendo bons candidatos, podemos eleger vários deputados que estejam dispostos a nos ouvir.

Feito isso, vem a próxima etapa. Saber quais são nossas reivindicações e quem irá reuni-las e apresentá-las de maneira organizada. Isso só será possível se fortalecermos a política dentro da classe. Temos que fortalecer nossas instituições. O caminho para isso é escolher bem o presidente do sindicato e o presidente da cooperativa. Eles são os representantes dos produtores e estarão credenciados para falar em seu nome.

Se elegermos bons presidentes de sindicato, teremos uma federação estadual e uma confederação nacional fortes. O sistema já existe, cabe aos produtores fortalecê-lo.
Grandes avanços já foram alcançados graças às lutas dessas instituições. Imaginem como isso poderia ser melhor se elas se tornarem cada dia mais representativas devido à presença de melhores lideranças em cada município.

Em resumo, precisamos ter boa representação local, estadual e nacional dentro das instituições da classe. Ela precisa reunir as demandas e ter boa assessoria para transformá-las em propostas. Precisamos eleger representantes políticos, levar as propostas a eles de maneira organizada e acompanhar sua atuação.

Nossa participação não acaba logo após as eleições. Aí é que ela se efetiva. Agora é que vamos traduzir nossas necessidades em reivindicações e mostrá-las aos nossos representantes, para que trabalhem em prol de nossas causas. Vamos discutir com as lideranças locais e regionais e ajudá-las a elaborar propostas ao Congresso. E vamos acompanhar suas ações, monitorando-os!

Pode parecer que isso é sonho ou difícil demais de ser feito. Podemos começar a fazer ou continuar reclamando da vida. A escolha é nossa.

Artigo publicado na Revista Encontro Rural, outubro de 2006.

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