Importância da Qualidade do Produto Final
Em função do vertiginoso crescimento observado nas duas últimas décadas, a produção de leite no Brasil atingiu no ano passado a marca dos 25 bilhões de litros, permitindo o pleno atendimento ao mercado doméstico e gerando excedentes para exportação. Por outro lado, o consumo interno de lácteos está praticamente estagnado na última década, embora tenha apresentado sinais de melhora no último ano. Em 2005, pesquisadores do Cepea (Centro de Pesquisas Econômicas Aplicadas – Esalq-USP) apresentaram estimativas do consumo per capita e do excedente de leite para os anos de 2000 a 2015. Quando aplicada ao modelo uma taxa de crescimento do PIB per capita de 2% ao ano e crescimento da produção de 5% ao ano, estima-se que o excedente torna-se da ordem de 10,9 bilhões de litros em 2015, mesmo havendo expansão do consumo de 128 para 140 litros por habitante por ano.
O leite, com a reestruturação do setor e com os ganhos de produtividade recentes, tem conseguido, além de abastecer o mercado interno, se aproveitar do aumento da demanda externa. Diante deste quadro, é inquestionável que a saída para que o setor evite o excesso de leite nos próximos anos é sustentada em dois pilares: aumento da demanda interna e das exportações. Consumidores aumentam sua demanda quando eleva-se a renda.
O mesmo acontece com a economia mundial, cujo aumento na renda per capita faz com que as importações aumentem, ajudando, portanto, o Brasil e o agronegócio. Nos últimos anos, a economia mundial tem vivido um ciclo de crescimento e poucas turbulências nos mercados financeiros. Entre outros motivos, esse crescimento tem dado grande força para as exportações do agronegócio brasileiro. As importações mundiais deram um grande salto em 2003 e 2004 provavelmente impulsionadas pela intensificação do comércio internacional e, evidentemente, pelo aumento da renda mundial. Por isso, é importante que a economia mundial mantenha seu ritmo de crescimento, permitindo a manutenção da demanda que, por sua vez, gera oportunidades de comércio internacional para o agronegócio brasileiro em geral - e para o setor lácteo em particular.
Todavia, os desafios à cadeia produtiva de lácteos são reais, com mais perspectivas de redução do que aumento de consumo. Modificações nos padrões de consumo, produtos concorrentes em quantidade e com qualidade cada vez maior, baixa renda da população precisam ser considerados com atenção. Experiências, a exemplo do que foi realizado recentemente no estado de Goiás, com a criação de um fundo para o marketing institucional e desenvolvimento de produtos e embalagens mais atraentes para lácteos, podem gerar expressivo aumento de consumo interno e favorecimento direto ao mercado brasileiro. Entretanto, mesmo os cenários mais otimistas sinalizam que o Brasil está caminhando para tornar-se fortemente dependente de conquistar uma posição definitiva como exportador de lácteos. Para participar do mercado internacional, entretanto, é absolutamente imprescindível ser competitivo. Além de lutar contra barreiras sanitárias, tarifárias e ter acesso aos mercados, é fundamental ter excelência em termos de Qualidade.
Há não muito tempo, a Qualidade era considerada algo que se podia adicionar a um produto como extra. Hoje, é um dado em todos os produtos. Não é mais um diferencial competitivo, mas simplesmente o preço para admissão ao mercado. Em se tratando de lácteos, a competitividade do produto brasileiro ainda é comprometida pela Qualidade.
O termo Qualidade de Leite trata de sua durabilidade, rendimento, valor nutricional, sabor, segurança para a saúde, e muito mais. As pessoas envolvidas na produção do leite devem estar conscientes de sua importância como alimento para a população. Os principais fatores que afetam a qualidade do leite na fazenda são: ocorrência de mastite, resfriamento do leite e limpeza de equipamentos e utensílios que têm contato com o leite. Em termos gerais, leite de boa qualidade é aquele que apresenta elevada concentração de sólidos, baixa contagem bacteriana, baixa contagem de células somáticas, mínima presença de contaminantes químicos ou toxinas microbianas e ausência de resíduos de medicamentos e de microorganismos patogênicos ao homem.
Integrantes da cadeia produtiva de lácteos têm, nos últimos anos, vivenciado um movimento constante em busca de melhorar efetivamente a Qualidade do leite, o que em contrapartida resulta em melhoria do rendimento industrial, menor perecibilidade do produto e, consequentemente permite auferir melhores resultados financeiros para todos os integrantes da cadeia produtiva. Neste contexto, a maior profissionalização dos produtores, investimentos realizados em assistência técnica, genética, alimentação, equipamentos de ordenha e de refrigeração, dentre outros, têm resultado em importantes conquistas no que diz respeito à melhoria de Qualidade do leite brasileiro. Tais progressos contribuem inquestionavelmente para o ingresso do Brasil no grupo dos destacados exportadores de lácteos mundiais. Disponibilidade do produto já não é o bastante. Se um produto não consegue ficar de pé, ombro a ombro, com os melhores do mundo numa determinada categoria, pode ser que em breve não haja nem oportunidade de se manter em pé.
Precisamos, pois, estarmos atentos ao novo tempo: conquistar novos mercados, fidelizar compradores e assegurarmos um produto com elevada Qualidade de forma sustentável. A organização da cadeia produtiva do leite deve ser um processo integrado. Seus constituintes e seus setores devem agir não apenas independentemente, mas também interdependentemente a fim de alcançar a excelência em termos de Qualidade, produtividade e consequentemente, competitividade. Esta afirmação é fundamental. Uma vez entendido que o todo pode ser maior e diferente que a soma de suas partes, reconhece-se a importância de uma atuação sinérgica.
Vamos, pois, unirmos nesta luta, cada qual motivado a fazer de maneira responsável e cuidadosa sua parte. A Qualidade é como a boa forma física; não prevalece, a menos que seja mantida continuamente.