Fatores que interferem no período pós-parto em vacas de corte, por Diego Palucci, médico veterinário, Equipe ReHAgro.
Artigos Técnicos
Publicado em 30/10/2006 por Diego Palucci, médico veterinário, Equipe ReHAgro

Fatores que interferem no período pós-parto

Vários fatores interferem no período pós-parto de vacas de corte e, cada dia mais, profissionais  da área tentam entender este período buscando soluções, pois o objetivo é tentar emprenhar os animais dentro de um período pré-determinado, produzindo assim um bezerro por ano. O objetivo deste artigo é mostrar as influências hormonais aliadas aos diversos manejos de fazendas de cria de gado de corte.

Após a parição as vacas de corte passam por um período de involução uterina de aproximadamente 30 dias. Após este período, acontece a retomada dos ciclos ovarianos normais que é regulada pelo eixo hipotálamo-hipofise. Este eixo pode ter interferência da recuperação fisiológica da hipófise dos efeitos dos esteróides gestacionais, condição corporal, efeito da mamada, estação de parição e genética.

Efeitos Gestacionais sobre o Eixo hipotálamo-hipófise

Nos bovinos, as reservas de LH da hipófise estão muito baixas por ocasião da parição, devido aos efeitos de altas concentrações circulantes de estradiol derivado da placenta, que são observados durante a fase tardia da gestação. Concentrações elevadas de estradiol circulante inibem a síntese da subunidade e, até um certo grau, da subunidade da molécula LH nos gonadotrófos. A armazenagem e liberação do hormônio folículo-estimulante (FSH) não muda de forma apreciável durante o período pós-parto. Após a parição, o rápido declínio nos estrógenos circulantes permite um novo e rápido acúmulo de LH da hipófise anterior, que requer de 2 a 3 semanas para ser concluído. Durante este período de recuperação, as concentrações circulantes de LH e a freqüência de pulsos de LH são geralmente baixas. Inicialmente, isto ocorre por causa de uma falta de LH liberável em todas as vacas, independente de terem bezerro ao pé ou não, ou de serem ordenhadas.
 
O fato desta síntese e acúmulo de LH pituitário requererem apenas um nível baixo de estímulo por GnRH explica a capacidade da hipófise de acumular LH durante este período. Depois da segunda ou terceira semana, a liberação pulsátil de LH aumenta nas vacas de corte desmamadas e nas vacas leiteiras ordenhadas, resultando na retomada do desenvolvimento folicular ovariano e ovulação. Nas vacas com bezerro ao pé, entretanto, os efeitos supressores da mamada sobre a secreção hipotalâmica de GnRH continuam prevenindo um aumento na liberação de LH pulsátil. Conseqüentemente, a vaca que recebe remoção do bezerro ou é desmamada, a freqüência e a amplitude dos pulsos de GnRH aumenta dramaticamente, aumenta a freqüência dos pulsos de LH e os ciclos ovarianos são retomados. Ainda que a capacidade do hipotálamo de estimular a onda de LH pré-ovulatória através do feedback positivo do estradiol seja diminuída ou esteja ausente imediatamente depois da parição, a resposta normal ao feedback retoma cerca de 2 semanas após aparição.

Efeitos da Mamada e a Ligação entre Mãe e Bezerro

Durante mais de cinqüenta anos considerou-se que a estimulação sensorial crônica do teto (mamada) era a causa primária da anovulação durante a lactação em todas as espécies, incluindo os bovinos. Foi demonstrado que as vias somato-sensoriais no teto e no úbere são desnecessários para que a mamada suprima a secreção de LH. A ordenha crônica e a presença física do bezerro na ausência da mamada não tiveram efeitos mensuráveis sobre o padrão pulsátil de liberação de LH.

A denervação do úbere e a mastectomia não reduzem o intervalo anovulatório pós-parto se os bezerros permanecerem com suas mães. Outros trabalhos mostraram claramente que a ligação entre a mãe e o bezerro é uma condição necessária da anovulação pós-parto. As fêmeas de corte que são forçadas a permitir que um bezerro estranho mame por até 6 dias sofrem as mesmas alterações neuroendócrina que ocorrem com a desmama: um rápido aumento na freqüência dos pulsos de LH, desenvolvimento de um folículo pré-ovulatório, ovulação e a retomada da ciclicidade ovariana (Figura 1). A formação de um elo maternal seletivo por parte da vaca mais a interação física do bezerro na região inguinal ("cabeçada", manipulação oral do flanco ou a própria mamada) parecem ser responsáveis pelas mudanças neurais que criam o estado anovulatório. Estas mudanças incluem um aumento na sensibilidade hipotalâmica ao feedback negativo do estradiol e um aumento no tônus opióide que provoca a supressão de secreção de GnRH e LH por períodos variáveis. A hora do dia em que os bezerros mamam (noite x dia, por exemplo) não tem nenhum efeito sobre o intervalo pós-parto até a primeira ovulação ou concepção.

Efeitos Genéticos
 
A retomada do padrão apropriado de secreção de gonadotropina para promover a ciclicidade ovariana pode ser afetada por outro fator: genótipo da vaca. Os bovinos Bos indicus puros tendem a ser mais afetados tanto pelos efeitos negativos da mamada como da subnutrição do que a maioria das fêmeas Bos taurus puras. A mestiçagem dentro da mesma espécie ou entre espécies resulta em um desempenho reprodutivo bastante melhorado, incluindo uma redução na duração do intervalo pós-parto. O tamanho da vaca e o potencial de lactação representam características determinadas genotipicamente que também têm impacto sobre a duração da anovulação pós-parto. Estes fatores aumentam as necessidades nutricionais que, por sua vez, afetam o desempenho reprodutivo se os nutrientes forem limitantes.

Condição Corporal

A subnutrição, particularmente uma deficiência na ingestão energética, talvez seja a causa mais prevalente, tanto entre as naturais como as causadas pelo homem, do atraso no retorno à ciclicidade de bovinos. Além disso, os efeitos da subnutrição são maiores quando ocorrem durante a fase tardia da prenhez. As vacas que parem com condição corporal magra têm períodos bastante prolongados até a primeira ovulação e primeiro estro após o parto. Isto ocorre por causa de atraso na repleção de LH na hipófise depois da parição e a intensificação dos efeitos da mamada sobre a secreção de GnRH hipotalâmico. Como resultado, a secreção de LH é baixa e o desenvolvimento de folículos ovulatórios é retardado por períodos que muitas vezes ultrapassam 100 dias ou mais. Foram conduzidos muitos experimentos mostrando os efeitos da condição corporal da vaca e da nutrição pós-parto sobre o desempenho reprodutivo. Ainda que alguns dos efeitos da baixa condição corporal à parição possam ser remediados aumentando a ingestão alimentar depois do parto, esta não é a abordagem mais econômica.

MANEJO DA REPRODUÇÃO PÓS-PARTO

Seleção para Fertilidade

Tradicionalmente, a herdabilidade de características reprodutivas tem sido considerada baixa, tornando lento o progresso genético para a eficiência reprodutiva. Entretanto, grande parte desta falta de robustez é causada pelas interações ambiente x genótipo, que tomam difícil a avaliação precisa do valor genético. Como já foi afirmado, a mestiçagem tem um grande efeito positivo sobre a eficiência reprodutiva. O uso de marcadores fisiológicos ou genéticos para a reprodução começou a ser examinado quanto ao seu valor na identificação de indivíduos superiores em uma fase precoce de suas vidas. Uma abordagem usada no Animal Reproduction Laboratory, em Beeville, foi examinar a responsividade da hipófise ao GnRH logo após a parição (dias 5-8 pós-parto) e em novilhas durante o desenvolvimento da puberdade. Verificamos que existe grande variabilidade na responsividade da hipófise ao GnRH, formando essencialmente uma distribuição normal. Neste rebanho, que foi selecionado para fertilidade, as vacas com altas respostas ao GnRH não tiveram intervalos anovulatórios pós-parto diferentes das vacas com baixa resposta. Entretanto, as vacas que apresentavam um pico de LH precoce após o desafio farmacológico com GnRH tiveram um intervalo pós-parto mais longo do que aquelas com um pico tardio. As mesmas medidas em novilhas não previam a idade à puberdade. Ainda assim, há necessidade de novos estudos nestas áreas, uma vez que foi demonstrado que a herdabilidade para a responsividade da hipófise às gonadotropina está próxima a 0,45 em ovinos.

Manejo Nutricional

O escore de condição corporal (ECC) é um importante elemento no manejo do gado de corte. Considerando uma escala de 1 a 9 (1 = emaciado, 9 = obeso), é desejável manter as vacas em um ECC de pelo menos 5 (boa condição). Em todo o mundo, entretanto, o manejo dos bovinos ocorre em ambientes que muitas vezes resultam em ECC abaixo deste nível recomendado, e o aspecto econômico pode não permitir sua prevenção pela alimentação suplementar. Por isso, se houver variação do ECC com as mudanças ambientais e a disponibilidade de forragem, devem ser feitas tentativas através do manejo para conseguir um ECC tão alto quanto possível antes da parição. Um ECC baixo na parição tem efeitos negativos maiores do que as perdas no ECC depois da parição ou antes da concepção. Se as vacas parem em condição excelente a moderada (ECC 5-6), podem muitas vezes voltar à reprodução cedo o suficiente para resistir aos desafios nutricionais durante a lactação. Por isso, devem receber manejo que lhes permita recuperar a condição corporal durante o período seco e antes do próximo parto.

Por outro lado, podem ser obtidos efeitos positivos sobre o desempenho reprodutivo se as vacas que parem em ECC menor do que ótima forem alimentadas para que ganhem peso e condição corporal depois da parição. Contudo, esta não é uma abordagem muito econômica uma vez que serão usadas quantidades significativas de nutrientes suplementares para a produção de leite e não para a reprodução. Por isso, é melhor ter as vacas parindo em boa condição corporal e então usar a suplementação protéica. De forma estratégica, melhorando o consumo e a digestão de forragens de qualidade baixa a média, para a manutenção da condição corporal.

Manejo da Mamada

Uma melhor compreensão de como a mamada faz a mediação de seus efeitos negativos sobre a reprodução após o parto ajudou a tentativas de desenvolver protocolos de manejo para reduzir estes efeitos. A seguir, uma lista de procedimentos que têm sido utilizados para prevenir os efeitos da mamada.

1. Remoção temporária do bezerro.
Esta prática vem sendo usada desde o início da década de 70, particularmente em associação com os protocolos de sincronização de estro. A remoção dos bezerros durante 48 horas, por exemplo, iniciando-se no momento da remoção de um implante de progestina ou depois de tratamento com GnRH , irá melhorar a sincronia e as taxas de concepção obtidas com IA em tempo fixo. Contudo, não é recomendado que a remoção do bezerro durante 48 horas seja usada sozinha para estimular a ovulação em vacas anovulatórias.A remoção do bezerro durante 48 horas é inadequada para conseguir a ovulação em mais do que 30% das vacas anovulatórias. Isto ocorre porque muitas vacas que respondem à retirada do bezerro serão novamente suprimidas pela mamada se o bezerro retomar depois de 48 horas. Além disso, a primeira ovulação geralmente não é acompanhada por estro. Como não é prudente deixar os bezerros longe das vacas por mais do que 48 horas devido às considerações de saúde, recomendamos a retirada do bezerro por 48 horas apenas quando pode ser combinado com os tratamentos de sincronização que tendem a induzir a ovulação em vacas anovulatórias.

2. Desmame precoce.
Esta técnica é usada nos EUA quando é mais econômico alimentar o bezerro do que alimentar a vaca em lactação. Geralmente é reservada para condições graves de seca e pode permitir que as vacas sejam novamente cobertas sem as elevadas exigências nutricionais associadas com a lactação.

3. Mamada uma vez por dia.
Esta também é uma ferramenta benéfica, particularmente com primíparas, quando as condições ambientais são adversas. Foi demonstrado que as primíparas, mantidas no pasto, retomam ao estro de forma dramaticamente mais cedo do que nas primíparas em que os bezerros podem mamar à vontade.

CONCLUSÃO

Como pode ser visto no texto acima, vários fatores interferem no período pós-parto podendo este ser diminuído através de técnicas de manejo, como por exemplo o manejo de mamada, mas é importante ressaltar que para uma boa taxa de prenhez em um curto tempo, é preciso se ter animais selecionados geneticamente e com um escore corporal mínimo de 5. Com isso, cabe a nós profissionais adequarmos o manejo para cada fazenda, visando uma maior taxa de prenhez, e conseqüentemente maior número de bezerros nascidos por estação.

Adaptado de Williams,G.L. Fisiologia e Manejo Reprodutivo de Vacas de Corte Pós-Parto. IX Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos.195-203.


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