MANEJO DE FÊMEAS LEITEIRAS VISANDO A REPOSIÇÃO
Introdução
Dentre as categorias de animais a mais esquecida pelo produtor, e que determina o futuro potencial de produção em uma propriedade se encontram as novilhas, que necessitam de um correto manejo nutricional e sanitário para manter estável o tamanho do rebanho em lactação.
O custo de criação dos animais de reposição em rebanhos leiteiros é a segunda maior fonte de despesas em um sistema de produção (Socha et al., 2000), ficando atrás somente dos gastos com alimentação, o qual, do ponto de vista econômico, responde de forma imediata, diferente do rebanho em recria.
O objetivo principal de um sistema de manejo de femeas de reposição é produzir vacas produtivas e econômicas. Essa excelência não pode ser medida em termos de ganho médio diário ou eficiência alimentar, mas sim pelo potencial de produção de leite da novilha como vaca. O principal fator limitante do potencial de produção de leite de uma vaca é a quantidade de tecido secretor da glândula mamaria (Sejrsen et al., 1997). Portanto, priorizar sistemas de manejo da recria que maximizem o desenvolvimento do tecido secretor da glândula mamária pode potencialmente melhorar a produção de leite dos animais durante toda sua vida produtiva.
A importância dos custos de criação assim como o tempo que a novilha pode levar para entrar em produção vem aumentando o interesse dos pesquisadores sobre as taxas de crescimento na recria de novilhas leiteiras, visando ganhos maiores assim como impacto sobre a produção de leite durante a vida produtiva desses animais (NRC, 2001).
Nos diferentes sistemas de produção as relações entre taxa de crescimento, desenvolvimento corporal e formação do tecido mamário não têm sido devidamente consideradas, o que pode levar a uma de três situações:
1. As novilhas chegam ao primeiro parto em idade avançada, devido à baixa velocidade de crescimento durante o período de recria, causando perda de receita potencial para a atividade
2. As novilhas chegam ao primeiro parto em idade adequada, mas sem desenvolvimento corporal suficiente, o que aumenta a incidência de distocia, prejudica a produção da primeira lactação, aumenta o intervalo para o segundo parto, e provavelmente, reduz a vida útil desses animais.
3. As novilhas são recriadas, indiscriminadamente a altas taxas de ganho de peso, com dietas excessivas em energia, parindo pela primeira vez em idade adequada, com desenvolvimento corporal satisfatório, mas com o desenvolvimento da glândula mamária comprometido, em alguns casos, de forma irreversível.
Com o objetivo de desenvolver estratégias de alimentação e manejo para as novilhas este trabalho visa mostrar a relação entre o início da puberdade, o desenvolvimento da glândula mamária e as exigências nutricionais da categoria, assim como as possíveis conseqüências destes fatores sobre o potencial de produção de leite.
Inicio da puberdade
Segundo Sejrsen et al. (1997) o início da puberdade em bovinos ocorre normalmente entre 9 e 11 meses de idade (entre 250 e 280 kg para a raça holandesa e entre 170 e 190 kg para a raça Jersey), e é função do peso mais do que da idade. De qualquer modo, o peso e a idade ao inicio da puberdade variam muito de acordo com a raça, e a principal fonte de variação em idade à puberdade é o plano nutricional. Sejrsen et al. (1997) mostram a influência da taxa de crescimento sobre a idade a puberdade, e como o peso à puberdade não se altera em diferentes taxas de ganho de peso. Segundo os mesmos pesquisadores é fisiologicamente possível que o primeiro parto ocorra antes dos 20 meses de idade, dependendo apenas do ritmo de ganho de peso, visando a atingir o peso alvo para primeira inseminação, em torno de 55% do peso adulto esperado, e para o primeiro parto, de 82% do peso adulto esperado (Van Amburgh et al., 1998).
Mamogênese nas diferentes fases do crescimento
Durante o crescimento corporal de novilhas, desde o nascimento até o parto, ocorrem quatro fases distintas de desenvolvimento da glândula mamária. Sendo duas fases onde o desenvolvimento da glândula mamária ocorre em intensidade proporcional aos demais tecidos corporais (fase de crescimento isométrico) e duas fases onde o crescimento da glândula mamária ocorre de 2 a 4 vezes mais rápido que os demais tecidos corporais (fase de crescimento alométrico). As fases de crescimento isométrico estão compreendidas entre o nascimento e o terceiro mês de idade e da puberdade até em torno do terceiro mês de gestação. Já as fases de crescimento alométrico estão entre os três meses de idade e logo após a ocorrência da puberdade e nos dois terços finais da gestação (Tucker, 1987; Sejrsen et al., 1997) (Figura 1).

Figura 1. Crescimento e desenvolvimento mamário.
As fases de crescimento alométrico são as mais suscetíveis aos efeitos negativos da super nutrição, sendo que a primeira fase de crescimento alométrico (entre 3 meses de idade e logo após a ocorrência da puberdade) tem sido identificada como o período critico para o potencial de produção de leite (Lacasse et al., 1993; Van Amburgh et al., 1998; Abeni et al., 2000). Nesta fase em particular, ocorre alongamento e ramificação dos ductos primários (Capuco et al., 1995).
Charles et al. (1999) citam que dietas com alto teor energético podem ser utilizadas após a puberdade, sem interferência sobre o crescimento do tecido mamário. Lacasse et al. (1993) demonstraram um efeito do plano nutricional sobre o consumo de matéria seca e ganho de peso, com efeitos mais pronunciados durante a segunda fase de crescimento alométrico da glândula mamária, mas sem efeito sobre o potencial produtivo dos animais. Segundo os mesmos pesquisadores, as variações do plano nutricional aplicadas fora do período critico de desenvolvimento da glândula mamária, produzem pouco ou nenhum efeito sobre o potencial produtivo do animal, ficando os efeitos restritos muitas vezes ao peso que o animal atinge ao primeiro parto.
Taxas de ganho de peso
Ganhos diários médios variando entre 0,5 a 1,2 kg/dia têm sido apresentados, com resultados que embora variáveis, indicam que ganhos acima de 0,7 kg/dia durante a pré-puberdade produzem resultados negativos para o potencial de produção de leite (Pirlo et al., 1997) (Tabela 1).
Tabela 1. Peso vivo e ganho de peso recomendado para animais de raças grandes do nascimento até os 24 meses de idade.

Alguns autores têm proposto taxas de ganho de peso menores durante a pré-puberdade (abaixo de 0,7 kg/dia), uma vez que este é considerado como o período critico para o desenvolvimento da glândula mamária, sendo que após a concepção poderiam ocorrer ganhos maiores a 1,0 kg/dia, sem a ocorrência de problemas relacionados ao potencial de produção de leite dos animais.
Pirlo et al. (1997) propõem a seguinte estratégia: 0,7 kg/dia dos 3 aos 12 meses e 0,9 kg/dia dos 12 meses até o parto. Esta parece ser a alternativa mais econômica sem afetar o desenvolvimento da glândula mamária, quando o objetivo é o primeiro parto antes dos 24 meses de idade.
A idade ao primeiro parto é o reflexo da taxa de ganho de peso durante a recria. Sejrsen et al. (1997) resumem os resultados de diferentes idades ao primeiro parto sobre a produção de leite em diferentes raças. Segundo estes autores, a redução da produção leiteira não mantêm uma relação de causa:efeito com o peso ao parto, mas sim com as taxas de ganho de peso durante a recria, mostrando a redução relativa em produção na medida em que se reduz a idade ao primeiro parto.
O NRC (2001) afirma que ganhos de peso da ordem de 0,8 a 0,9 kg/dia propiciam a ocorrência do primeiro parto antes dos 24 meses. Segundo Van Amburgh et al. (1998), as novilhas recriadas a uma taxa de ganho de peso de 0,94 kg/dia pariram pela primeira vez antes dos 24 meses de idade, mas produziram 5% menos leite (P<0,05) do que o grupo com taxa de ganho de 0,68 kg/dia, mas não houve diferença significativa quando as produções foram corrigidas para peso ao parto (Tabela 2).
Tabela 2. Ganho de peso durante e após o período experimental e produção de leite corrigida a 4% de gordura de novilhas recriadas em diferentes planos nutricionais entre 90 e 320 kg de peso vivo.

ab médias na mesma linha seguidas por letras diferentes diferem entre si (P<0,05)
Adaptado de Van Amburgh et al. (1998).
Na tabela 2 observa-se também que quando os animais foram submetidos a mesma dieta pós-tratamento o desempenho foi diferente, e as novilhas que ganharam mais peso durante o tratamento (0,94 kg/dia), tiveram pior desempenho subseqüente e apresentaram menores pesos ao primeiro parto do que o grupo de menor ganho (0,68 kg/dia).
Exigências nutricionais para o crescimento de novilhas
A tabela 3 mostra a ingestão de matéria seca e os requerimentos de energia e proteína obtidas do NRC 2001.
Tabela 3. Exigência de nutrientes para raças grandes com ganhos de peso de 800 g/dia (NRC 2001).

A predição dos requerimentos de energia e proteína foi obtida a partir do conteúdo de proteína e energia depositado nos tecidos. A quantidade de proteína requerida foi dada pela soma de proteína degradável no rúmen (PDR) em um determinado nível de carboidratos disponíveis no rúmen e o requerimento de proteína não degradável no rúmen (PNDR) complementando a produção de proteína microbiana para alcançar a energia permitida de ganho (NRC, 2001).
Taxas de crescimento foram determinadas comparando o tamanho atual do animal a uma idade determinada e o peso necessário para alcançar o tamanho adulto. As novilhas normalmente alcançam a puberdade com aproximadamente 55% do peso adulto, e parem a primeira vez com 82% do peso adulto. Exigências nutricionais também são ajustadas de acordo com a temperatura e estresse térmico (calor ou frio).
Alguma discussão tem sido feita em torno dos níveis de proteína das dietas, supondo que uma melhora na relação proteína:energia poderia aumentar a velocidade de crescimento da novilha sem ocasionar grandes acúmulos de gordura no úbere (Capucco et al., 1995; Vandehhar., 1997; Vandehhar et al., 1998). Mantysaari et al. (1995) testaram os efeitos de diferentes níveis e fontes de proteína na dieta de novilhas em crescimento, concluindo que os efeitos sobre o crescimento de parênquima mamário e concentração de DNA parenquimal se relacionaram mais com as taxas de ganho de peso do que com a fonte ou nível protéico utilizados. No mesmo trabalho, a utilização de elevado nível protéico, independentemente da fonte, ocasionou maior ganho de peso, com redução do parênquima mamário, bem como da concentração de DNA no parênquima.
Vandehhar (1998) cita que dietas com relação de 65 a 70 g PB/Mcal EM poderiam ser utilizadas em altos níveis de ganho de peso sem comprometimento do desenvolvimento do tecido mamário. Entretanto esta relação teria que ser reduzida 2 meses antes da inseminação, para não prejudicar a fertilidade dos animais. Este prejuízo ocorreria provavelmente pelo excesso de nitrogênio não metabolizado pelo animal o que aumentaria o pool de uréia no sangue.
O excesso de energia, a deficiência de proteína metabolizável ou ambos, tendem a aumentar a deposição de gordura quando se utilizam altos planos nutricionais. Melhorando-se esta relação poderia ser reduzido o efeito negativo de altas taxas de ganho de peso sobre o desenvolvimento da glândula mamária.
Conclusões
A busca do primeiro parto precoce ocorre no sentido de melhorar o resultado econômico dos sistemas. Os resultados poderão ser bastante satisfatórios desde que as estratégias para estabelecimento das taxas de ganho de peso levem em consideração aquele período onde a literatura tem evidenciado os efeitos negativos da super nutrição.
As taxas de ganho de peso poderão ser estabelecidas para ganhos não superiores a 0,7 e 0,5 kg/dia durante a pré-puberdade, para as raças Holandesa e Jersey, respectivamente, isto com o objetivo de evitar restrições no desenvolvimento do tecido secretor da glândula mamária. Após a puberdade o ganho de peso pode ser ajustado de acordo com o peso a ser atingido ao primeiro parto.
Devem ser estabelecidas estratégias especificas para cada sistema de produção, em função da relação entre os preços dos insumos e do leite, podendo variar assim a idade ótima ao primeiro parto, quando o objetivo for otimizar o resultado econômico.
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