Combinação de vacina e antibioticoterapia na secagem de vacas positivas para Staphylococcus aureus, por Breno Oliveira Silva, médico veterinário, Equipe ReHAgro
Artigos Técnicos
Publicado em 23/11/2006 por Breno Oliveira Silva, médico verterinário, Equipe ReHAgro
UTILIZAÇÃO DE UMA VACINA COMERCIAL EM ASSOCIAÇÃO À TERAPIA ANTIBIÓTICA INTRAMAMÁRIA NA SECAGEM EM VACAS COM MASTITE SUBCLÍNICA CAUSADA POR STAPHYLOCOCCUS AUREUS

1. INTRODUÇÃO:

A mastite é a doença mais dispendiosa do rebanho leiteiro. As perdas relativas à mastite são duas vezes mais elevadas do que as perdas relativas à infertilidade e doenças reprodutivas (Philpot e Nickerson, 2000).

S. aureus é um agente de grande importância como patógeno da glândula mamária. Higiene de ordenha, terapia de vaca seca (TVS), segregação e descarte de animais são algumas das estratégias adotadas para a redução de sua prevalência em rebanhos leiteiros. No entanto S. aureus ainda configura como o principal patógeno interferindo nos índices de mastite e de qualidade de leite em diversos rebanhos leiteiros.

O período seco é uma fase de mudanças anatômicas e fisiológicas para a glândula mamária, sendo o período crítico para controle da mastite. A terapia de vaca seca (TVS) é essencial e largamente utilizada para o controle da mastite. Consiste na administração intramamária de um antibiótico de longa ação logo após a última ordenha da lactação. A TVS atua tanto na prevenção de novas infecções quanto na cura de infecções pré- existentes. Do ponto de vista da mastite contagiosa, o período seco precedido pela TVS constitui um momento único para a eliminação de infecções crônicas e redução significativa desses agentes no rebanho. A TVS é altamente eficaz contra Streptococcus agalactiae, mas taxas de cura de S. aureus são menores e mais variáveis com relatos de 20 a 85% de cura (Oliver e Smith, 1982, Browning et al., 1990, Sol et al., 1994). Outros benefícios econômicos associados à TVS incluem redução da CCS, menor incidência de mastite clínica e aumento de produção na lactação subseqüente (Osteras e Sandvik, 1996).

A bacterina de S. aureus Lavac® Staph (Boehringer Ingelheim, St. Joseph, MO) é uma vacina que tem em sua constituição cepas de Staphylococcus aureus produtoras de pseudocápsula. A pseudocápsula é uma fina camada que envolve a bactéria, tornando-a inacessível a neutrófilos, inibindo a fagocitose (Sears e McCarthy, 2003). Vacinas contendo amostras de S. aureus produtoras de pseudocápsula demonstraram eficácia em diversas situações (Williams et al., 1966, Williams et al., 1975, Pankey et al., 1985, Sears et al., 1990, Nordhaug et al., 1994, Sears, 1999, Nickerson et al., 1999). Pankey et al. (1985) e Williams et al. (1966 e 1975), demonstraram eficácia da vacina em aumentar a cura espontânea, reduzir a severidade das infecções por S. aureus além de reduzir a incidência de casos clínicos em vacas em lactação. Sears et al. (1990), trabalhando com novilhas, comprovaram reduzida taxa de infecção, menor prevalência de infecções crônicas e redução da severidade das infecções pós parto.

Os objetivos deste experimento foram de avaliar a utilização de uma vacina comercial contra S. aureus na secagem, em associação à antibioticoterapia, em vacas com mastite subclínica causada por S. aureus.

2. MATERIAIS E MÉTODOS:

2.1. Animais e período experimental:

Noventa e duas vacas holandesas de um rebanho comercial localizado no estado de Minas Gerais foram utilizadas. Todas as vacas possuíam histórico de, pelo menos, um diagnóstico positivo para S. aureus na lactação e se encontravam segregadas daquelas consideradas negativas. O rebanho foi considerado inicialmente com uma prevalência de 58% de vacas lactantes positivas para S. aureus. Vacas foram secas no período de Novembro de 2003 a Outubro de 2004.

2.2. Delineamento estatístico e tratamentos:

O delineamento estatístico foi de blocos ao acaso. Um total de quarenta e nove vacas foram vacinadas, no músculo semimembranoso, com uma bacterina comercial Lavac® Staph (Boehringer Ingelheim, St. Joseph, MO) e quarenta e três foram mantidas sem vacinação (grupo controle). Duas doses de 5 mL da vacina foram administradas por via intramuscular sendo a primeira no dia da secagem e a segunda 14 dias após de acordo com recomendações do fabricante. Antibiótico intramamário foi administrado em todos os quartos mamários de todas as vacas logo após a última ordenha (Mamizyn® S, Boehringer Ingelhein). Os grupos foram balanceados levando em consideração a CCS e o número de lactações dos animais.

2.3. Coletas e análises laboratoriais:

Para análise bacteriológica dos quartos mamários foram feitas cinco coletas nos períodos –7 e 0 dias relativos a secagem e 0-7, 8-14 e 15-21 dias relativos ao parto subsequente. A coleta de amostras para cultivo bacteriano se deu em frascos estéreis de 10 mL logo após a preparação dos tetos para a ordenha e sanitização com algodão embebido em álcool 70 de acordo com recomendações do National Mastitis Council (NMC, 1999). As amostras foram congeladas logo após a coleta e remetidas após um máximo de 3 dias para o laboratório de qualidade do leite da EMBRAPA – Gado de leite, Juiz de Fora, MG.

Durante toda a lactação, a CCS, a produção e a composição do leite individual por vaca foram avaliadas mensalmente.

2.4. Critérios e definições de status:

O quarto mamário foi considerado a unidade experimental para avaliação estatística dos resultados bacteriológicos. Na secagem um quarto mamário foi considerado positivo para S. aureus mediante um único resultado positivo em duas análises bacteriológicas consecutivas (-7 e 0 dias). Um quarto mamário positivo na secagem foi considerado curado no parto subseqüente mediante resultados negativos em três análises bacteriológicas consecutivas (0-7, 8-14 e 15-21 dias pós-parto). Resultados positivos pós-parto de quartos mamários considerados negativos na secagem foram considerados como novas infecções. Quartos que, por algum motivo, não obtiveram três resultados microbiológicos até os 21 dias pós-parto foram coletados até os 35 dias e os resultados considerados para o cálculo da taxa de cura e incidência.

Para comparação de dados microbiológicos, de produção e de composição do leite, o animal foi considerado positivo para S. aureus mediante uma análise positiva em pelo menos um quarto mamário nas duas coletas consecutivas que antecederam a secagem (-7 e 0 dias).

2.5. Análises estatísticas:

Os dados foram analisados utilizando-se o pacote estatístico SAS (SAS, 1999). Os dados foram considerados estatisticamente diferentes quando P < 0,05.

3. RESULTADOS:

A Tabela 1 mostra o total de vacas e quartos mamários avaliados e o status microbiológico para S. aureus de cada grupo na secagem.

A taxa de cura de quartos mamários de vacas submetidas à vacinação foi significativamente superior se comparada ao grupo controle (P < 0,05).  Apesar da diferença de prevalência de diagnósticos não ser significativa em nenhum dos períodos de coleta pós-parto, ao combinar os resultados ficou comprovada a eficiência da vacina que curou 74% dos quartos contra 50% de cura no grupo controle (Tabela 2).

Tabela 1. Número de vacas e quartos mamários avaliados na secagem
 

Tabela 2. Freqüência de diagnóstico de Staphylococcus aureus e taxa de cura, pós-parto, de quartos mamários infectados na secagem e submetidos à terapia de vaca seca associada ou não à vacinação para S. aureus.
 
1Resultados combinados de duas coletas (-7 e 0 dias relativos à secagem). O quarto mamário foi considerado positivo mediante um único diagnóstico positivo.
2Resultados combinados de três coletas pós-parto. O quarto mamário foi considerado positivo mediante um único diagnóstico positivo.
Letras diferentes na mesma coluna indicam diferenças estatísticas entre grupos (P < 0,05)
 
Oito quartos do grupo controle e 11 do grupo vacinado contraíram novas infecções por S. aureus sendo a incidência semelhante entre os grupos.

A tabela 3 mostra a freqüência de diagnóstico, taxa de cura e taxa de novas infecções das análises onde o animal foi a unidade experimental. Houve tendência de maiores taxas de cura individuais para animais vacinados em relação ao grupo controle (41 e 19%, respectivamente) (P = 0,109). A incidência foi semelhante entre os grupos (P = 0,641).

Tabela 3. Freqüência de diagnóstico de Staphylococcus aureus e taxa de cura, pós-parto, de vacas positivas na secagem e submetidas à terapia de vaca seca associada ou não à vacinação para S. aureus.*
 

*Vacas consideradas positivas para S. aureus mediante uma análise positiva em pelo menos um quarto mamário nas duas coletas consecutivas que antecederam a secagem
1Resultados combinados de duas coletas (-7 e 0 dias relativos à secagem). A vaca é considerada positiva mediante um único resultado positivo.
2Resultados combinados de três coletas pós-parto. A vaca é considerada positiva mediante um único resultado positivo.

Nas vacas positivas para S. aureus na secagem, a CCS da lactação subseqüente foi significativamente reduzida no grupo vacinado em relação ao grupo controle (Figura 1). As produções de leite, gordura e proteína não foram diferentes entre os grupos (Tabela 4). Entre as vacas negativas para S. aureus à secagem não houve diferença estatística entre os animais vacinados e controle para produção e composição do leite.

 

*Dados referentes ao encerramento em 305dias. n = 20 e 21, respectivamente, para os grupos controle e vacinado.
Letras diferentes indicam diferenças significativas entre grupos (P = 0,033). Comparações estatísticas feitas através de dados transformados para base logarítmica (ln).
Figura 1. Contagem de células somáticas (CCS) média da lactação de vacas positivas para Staphylococcus aureus submetidas à terapia de vaca seca associada ou não à vacinação para S. aureus na secagem anterior.*

Tabela 4. Produção de leite e de sólidos do leite na lactação, de vacas positivas para Staphylococcus aureus submetidas à terapia de vaca seca associada ou não à vacinação para S. aureus na secagem anterior.
 
Letras diferentes indicam diferenças significativas entre grupos (P < 0,05).
1EPM = erro padrão da média; 2Contagem de células somáticas transformadas para base logarítmica (ln).

4. DISCUSSÃO:

A TVS continua sendo a ferramenta mais importante na redução da prevalência de S. aureus em rebanhos leiteiros. Entre 40 e 70% das infecções são eliminadas com a utilização da TVS, sem o acréscimo dos custos relativos ao descarte de leite (Nickerson, 1993). Porém, a possibilidade de sucesso é menor e com maior variação, comparada aos outros agentes infecciosos. Estratégias como a associação de antibiótico sistêmico (oxitetraciclina) ou mesmo a repetição da terapia intramamária após 7 e 14 dias não aumentaram as taxas de cura para S. aureus na secagem se comparadas à TVS isolada (Cummins e McCaskey, 1990, Erskine et al., 1994).

No presente experimento, a associação da vacinação e da TVS em animais com infecção prévia por S. aureus mostrou grande eficiência na cura dessas infecções. A taxa de cura de quartos mamários aumentou em 47% no grupo vacinado em relação ao grupo controle (73,7% e 50,0%, respectivamente) (P = 0,048). Levando em consideração o animal, o aumento foi de 115% (P = 0,109). Somente 19,0% das vacas curaram com a utilização exclusiva da TVS enquanto 40,9% curaram com a associação da vacina e TVS. Esses dados demonstram a importância da associação da vacina e TVS a fim de acelerar o controle do agente em situações de alta prevalência.

Sears (1999) também demonstrou eficiência de uma vacina trivalente capsular. Durante a lactação, relatou cura de 78% dos quartos (49/63 quartos) com a associação da vacina e apenas 22% em quartos tratados somente com antibiótico. No entanto, a associação de tratamento antibiótico e vacinação é mais vantajosa no momento da secagem por evitar custos com descarte de leite.

A vacinação não preveniu a ocorrência de novas infecções no período seco. A incidência não variou entre os grupos sendo de 9,5% no grupo controle e 12,6% no grupo vacinado (P = 0,516). Nordhaug et al. (1994), também não encontraram redução na incidência cumulativa de infecções na primeira lactação de novilhas vacinadas durante a gestação. Porém, conseguiram reduzir o número de casos clínicos e subclínicos no grupo vacinado em relação ao grupo controle. Ao contrário desses resultados, Nickerson (1993) trabalhando com desafio experimental durante o período seco concluíram que a vacinação foi eficaz em prevenir novas infecções. Sears et al. (1990) também demonstraram redução em 52% de novas infecções em novilhas vacinadas pré-parto e desafiadas experimentalmente no pós-parto.

A vacinação na secagem melhorou significativamente a qualidade do leite produzido na lactação subseqüente. Vacas positivas para S. aureus vacinadas tiveram sua CCS significativamente reduzida em relação a vacas do grupo controle (P = 0,033).

5. CONCLUSÕES:

A vacinação de vacas com infecções por S. aureus deve ser recomendada na secagem, em associação à terapia de vaca seca, com objetivo de aumentar a taxa de cura destes animais, acelerar o controle do agente e melhorar a qualidade do leite produzido nos rebanhos acometidos.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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:: Comentários ::

paloma -
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Muito bom.
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