Como manejar as altas infestações das cigarrinhas-das-pastagens?
O complexo das cigarrinhas das pastagens inclui diversas espécies: Deois incompleta, importante na região norte do país, Notozulia entreriana (Figura 1C), Deois schach (Figura 1B) e Aeneolamia selecta, importantes para o nordeste e Deois flavopicta (Figura 1A), que juntamente com Notozulia entreriana predominam nos estados do Brasil central, norte do Paraná e na região leste. Outras espécies ainda podem ocorrer em menores índices populacionais, como Mahanarva fimbriolata (Figura 1D) e Kanaina vittata. No Brasil, avalia-se, atualmente, que as cigarrinhas ocorrem em cerca de 10 milhões de hectares de gramíneas, provocando prejuízos variáveis entre 10 e 100%, dependendo das espécies, do tipo de gramíneas, das condições de tempo e do manejo das pastagens.
O problema com cigarrinhas também tem se tornado cada vez mais freqüente na cultura da cana-de-açúcar, onde se destacam duas espécies principais: a cigarrinha-das-raízes, Mahanarva frimbriolata e a cigarrinha-da-folha, Mahanarva posticata (Figura 1 E). Tem se observado que com o predomínio da colheita mecanizada da cana e ausência das queimadas o nível de infestação da cigarrinha-da-raiz está aumentando gradativamente. Também esse problema tem se tornado mais freqüente nas fazendas leiteiras que produzem cana para a alimentação dos animais.

A - Deois flavopicta
B - Deois schach
C - Notozulia entreriana
D - Mahanarva fimbriolata
E - Mahanarva posticata (macho e fêmea)
Figura 1. Espécies de cigarrinhas-das-pastagens que infestam pastagem e cana-de-açúcar. Fonte: Gallo et al. (2002).
Os surtos populacionais das cigarrinhas ocorrem em função das estações climáticas, as quais variam de acordo com as diferentes regiões do país. Alta precipitação pluvial aliada à alta temperatura são condições que propiciam a explosão populacional da praga, condições comuns no último trimestre do ano.
As cigarrinhas causam dois tipos de danos às forrageiras. Primeiramente, quando o solo é fraco, com baixa retenção de umidade e sob superpastejo, as ninfas (formas jovens), sugando constantemente a seiva, causam um amarelecimento (Figura 2C) que começa pela base (Figura 2 E), até se estender a toda planta. O segundo tipo de dano é causado pela cigarrinha adulta, que se alimenta nas partes verdes e nas poucas brotações da planta, causando uma fitotoxicidade que varia entre as espécies de gramíneas utilizadas nas pastagens. Esta fitotoxicidade promove redução nos teores de proteína bruta, ácidos graxos e minerais, com conseqüente queda na qualidade nutricional da forragem.
Os danos do inseto variam com a espécie de gramínea atacada. Existem espécies de plantas que possuem características morfo-fisiológicas que afetam negativamente o desenvolvimento do inseto.
Na cana-de-açúcar, a cigarrinha-da-folha pode acarretar, por meio da sucção de seiva, a “queima” das folhas (Figura 2B), que se manifesta pelas estrias longitudinais de coloração amarelada em seu limbo, com as pontas enroladas, dando a impressão de crestamento por falta d’ água. Devido ao seu ataque, os colmos definham (Figura 2A e D), diminuindo consideravelmente o espaço internodal e ficando com um aspecto semelhante ao da palmeira. Entretanto, o maior prejuízo causado pela cigarrinha, deve-se a perda e açúcar.

A – Redução do diâmetro dos colmos da cana.
B - Amarelecimento das folhas de cana.
C - Amarelecimento das pastagens.
D - Definhamento dos colmos da cana.
E - Espuma produzida pelas ninfas na base da planta.
Figura 2. Danos causados pelas cigarrinhas-das-pastagens em pastagem e na cana-de-açúcar.
Para o controle do complexo de cigarrinhas recomenda-se o Manejo Integrado de Pragas (MIP) utilizando-se da consorciação de vários métodos: controle biológico, resistência de plantas, controle cultural e em último caso o controle químico.
a) Controle biológico: os inimigos naturais das cigarrinhas podem ser divididos em: predadores (pássaros, formigas, percevejos, mosca Salpingogaster nigra); parasitóides de ovos e agentes patogênicos (microrganismos) que ocorrem naturalmente no ambiente.
A espuma produzida pela ninfa da cigarrinha, sob a qual se abriga, confere-lhe uma proteção muito eficiente contra seus inimigos naturais. No entanto, os pássaros, a mosca S. nigra e o fungo Metarhizium anisopliae se mostram eficientes no controle da fase jovem (ninfa).
Algumas empresas (Biocontrol, Itaforte) já comercializam M. anisopliae em doses variando de 2x1012 a 5X1012 conídios/ha (500 g de fungos puros) que deve ser aplicado quando se encontram de 5 a 7 espumas/m2, 5 a 10 ninfas/m2 ou 3 a 5 adultos/m2. Esse tipo de controle tem se mostrado bastante promissor (Figura 3).

Figura 3. Cigarrinha-das-pastagens infectada pelo fungo Metarhizium anisopliae. Fonte: Itaforte Bioprodutos.
As aplicações podem ser preventivas ou curativas. Como preventivo, o fungo pode ser aplicado em áreas previamente infestadas, com ovos em dormência. Como curativo as aplicações devem ser executadas com o aparecimento da 2ª e 3ª gerações de ninfas. As pulverizações podem ser executadas com pulverizadores terrestres ou com aviões.
b) Resistência de plantas: as cigarrinhas podem viver em quase todas as gramíneas. Existem, no entanto, espécies que possuem características de resistência à praga (Tabela 1). A constituição fisiológica das plantas forrageiras pode ser uma barreira física ao ataque da cigarrinha, impedindo ou dificultando a penetração do seu aparelho bucal. Algumas forrageiras mostram-se resistentes por apresentarem características que dificultam a propagação da praga, como pilosidade, rigidez dos tecidos do colmo e produção de alomônios de alimentação.

Tabela 1. Nível de resistência de gramíneas forrageiras à cigarrinha-das-pastagens Deois flavopicta (Adaptada de COSENZA et al., 1981).
Como táticas de controle recomenda-se manter as pastagens de capins suscetíveis com altura elevada, ou seja, realizar pastejos leves nas épocas de ocorrência ou implantar pastagens de capins resistentes, que suportem o maior peso do pastejo.
c) Controle cultural: uma estratégia importante é o manejo adequado de cada tipo de capim, controlando a altura por meio do pastejo, fazendo com que haja uma menor relação: número de ninfas de cigarrinhas por quilograma de matéria verde. Outras medidas culturais são: em pastagens em formação realizar adubação de formação e manutenção; consorciar na área, gramíneas nativas ou resistentes com gramíneas suscetíveis; manter as gramíneas a uma altura ao redor de 25 cm, evitando superpastejo; preservar matas ou faixas de vegetação nativa para abrigar e multiplicar os inimigos naturais das cigarrinhas; diversificar as pastagens na propriedade, com a inclusão de gramíneas resistentes às cigarrinhas, visando redução dos níveis populacionais; manejo de pastagens adequado à carga-animal, de modo a evitar sobra de pasto, a fim de reduzir os níveis populacionais das cigarrinhas pela diminuição da altura da gramínea e da quantidade de palha acumulada no solo, resultando em condições desfavoráveis ao desenvolvimento e à sobrevivência de ovos e ninfas de cigarrinhas.
d) Controle químico: como medida exclusiva para o controle das cigarrinhas torna-se antieconômico em grandes áreas, em decorrência da baixa eficiência desses produtos sobre ninfas do inseto e do número elevado de aplicações que devem ser executadas. Além disso, existe o problema da poluição ambiental ocasionada pelo depósito de inseticidas no meio ambiente. Muitas vezes ocorre persistência dos produtos químicos no solo que podem ser absorvidos pelas plantas, conseqüentemente resultando no aparecimento de resíduos no leite e na carne. Quando o controle químico se faz necessário como medida emergencial, o mais indicado é a utilização de produtos de baixa toxicidade, pouco agressivos ao meio ambiente e, se possível, seletivos aos inimigos naturais. Esse tipo de controle deve ser evitado em área total, podendo ser usado em áreas destinadas à produção de sementes; somente deve ser usado em casos de extrema necessidade e nos focos de infestação, a fim de evitar a dispersão do inseto. Na tabela 2 são listados alguns produtos registrados na ANVISA (2006) para o controle das cigarrinhas em pastagens e na cana-de-açúcar.
Tabela 2. Inseticidas indicados para o controle das cigarrinhas-das-pastagens em cana-de-açúcar e em pastagem.
Cultura Espécie de cigarrinha Produto comercial Grupo químico Classe Toxicológica Dose

Fonte: ANVISA (2006)
No entanto, acredita-se que o manejo bem sucedido das cigarrinhas-das-pastagens esteja condicionado a um conjunto de medidas de controle que leve em consideração a garantia da qualidade da forragem a ser oferecida aos animais, a preservação do meio ambiente e o equilíbrio biológico e ecológico e acima de tudo a garantia de alimento (carne e leite) saudável aos consumidores.
Referências Bibliográficas:
ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: http://www4.anvisa.gov.br/anvisa/asp/dfault.asp. em 30 nov. 2006.
COSENZA, G.W. Resistência de gramíneas forrageiras à cigarrinha-das-pastagens, Deois flavopicta (STAL 1854). Brasília. Boletim de Pesquisa n. 7, Embrapa – CPAC. 1981, 16p.
GALLO, D. et al. (in memorian). Entomologia Agrícola. Piracicaba: Fealq, vol. 10, 2002. 920 p.
MIRANDA, J.E.; TOSCANO, L.C.; DE BORTOLI, S.A.; BOIÇA JÚNIOR, A.L. Manejo Integrado de cigarrinhas-das-pastagens. Jaboticabal: FUNEP, 2002, 21p.
Contatos para obtenção do fungo Metarhizium anisopliae:
- Biocontrol. Fone: (16) 3945 0384
- Itaforte Industrial de Bioprodutos Agro-Florestais Ltda. Fone: (15) 3271 2971, Fax: (15) 3271 0009, e-mail: itaforte@itafortebioprodutos.com.br