A rotação de culturas como ferramenta ao controle de pragas agrícolas, por Rosângela Marucci, Equipe ReHAgro
Artigos Técnicos
Publicado em 03/01/2007 por Rosangela Marucci, engenheira agrônoma, Equipe ReHAgro

A rotação de culturas como ferramenta ao controle de pragas agrícolas

A rotação de culturas, a prática mais antiga no controle de pragas continua sendo a mais eficiente entre os métodos culturais de controle. Ela consiste no cultivo alternado de espécies vegetais diferentes no mesmo local e na mesma estação anual. Assim, numa mesma lavoura durante o inverno, são cultivadas alternadamente duas espécies de cereais, por exemplo, trigo e aveia. Por outro lado, o cultivo alternado de diferentes espécies, na mesma lavoura, em estações diferentes, constitui a sucessão anual de culturas. Por exemplo, a alternância entre trigo e soja bastante utilizada no Paraná e milho e feijão realizada em Minas Gerais. Dessa forma, tem-se o trigo no inverno e a soja no verão no Paraná e o milho no verão e o feijão no inverno em Minas Gerais. Diz-se que ocorre uma dupla monocultura anual.

As vantagens de sua adoção são inúmeras. Além de proporcionar a produção diversificada de alimentos e outros produtos agrícolas, se adotada e conduzida de modo adequado e por um período suficientemente longo, essa prática melhora as características físicas, químicas e biológicas do solo; auxilia no controle de plantas daninhas, doenças e pragas; repõe matéria orgânica e protege o solo da ação dos agentes climáticos e ajuda a viabilização do sistema de semeadura direta e dos seus efeitos benéficos sobre a produção agropecuária e sobre o ambiente como um todo.

Para a obtenção de máxima eficiência, na melhoria da capacidade produtiva do solo, o planejamento da rotação de culturas deve considerar, preferencialmente, plantas comerciais e, sempre que possível, associar espécies que produzam grandes quantidades de biomassa e de rápido desenvolvimento, cultivadas isoladamente ou em consórcio com culturas comerciais.

Nesse planejamento, é necessário considerar que não basta apenas estabelecer e conduzir a melhor seqüência de culturas, dispondo-as nas diferentes glebas da propriedade. É necessário que o agricultor utilize todas as demais tecnologias a sua disposição: controle de erosão, calagem, adubação, qualidade e tratamento de sementes, época e densidade de semeadura, cultivares adaptadas, controle de plantas daninhas, pragas e doenças.

Um esquema de rotação deve ter flexibilidade, de modo a atender as particularidades regionais e as perspectivas de comercialização dos produtos. O uso da rotação de culturas conduz à diversificação das atividades na propriedade, possibilitando estabelecer esquemas que envolvam apenas culturas anuais, tais como: soja, milho, arroz, sorgo, algodão, feijão e girassol, ou de culturas anuais e pastagem. Em ambos os casos, o planejamento da propriedade a médio e longo prazo faz-se necessário para que a implementação seja exeqüível e economicamente viável.

As espécies vegetais envolvidas na rotação de cultura devem ser consideradas do ponto de vista de sua exploração comercial ou destinadas somente à cobertura do solo e adubação verde. A escolha da cobertura vegetal do solo deve, sempre que possível, ser feita no sentido de obter grande quantidade de biomassa. Plantas forrageiras, gramíneas e leguminosas, anuais ou semi-perenes são apropriadas para essa finalidade. Além disso, deve-se dar preferência a plantas fixadoras de nitrogênio, com sistema radicular profundo e abundante, para promover a reciclagem de nutrientes.

A seleção de espécies deve basear-se na diversidade botânica. Plantas com diferentes sistemas radiculares, hábitos de crescimento e exigências nutricionais podem ter efeito na interrupção dos ciclos de pragas e doenças, na redução de custos e no aumento do rendimento da cultura principal. Considerando, por exemplo, a soja as principais opções de plantas de cobertura são: milho, sorgo, milheto (principal espécie cultivada em sucessão: safrinha) e, em menor escala, o girassol.

A rotação de cultura entre uma leguminosa (soja, amendoim, feijão) e uma gramínea (trigo, milho, sorgo) é uma das práticas mais efetivas para se obter altas produções, tanto de milho quanto de leguminosas. A rotação reduz o nível de pragas e melhora as condições físicas do solo para a cultura seguinte. No caso do milho, a rotação com soja permite economia de nitrogênio. Outras culturas, que não leguminosas, apresentam também bons resultados de rotação, como o algodão, a mamona, etc.

Para a recuperação de solos degradados, indicam-se espécies que produzam grande quantidade de massa verde e tenham abundante sistema radicular. Para isso, lançar mão de consorciação de culturas comerciais e leguminosas, como por exemplo, milho-guandu, ou de mistura de culturas para cobertura do solo, como por exemplo, braquiária + milheto, e seqüências de culturas de grande potencial para produção de biomassa. Para estabelecer o consórcio milho-guandu, semeia-se milho precoce em setembro-outubro e, cerca de 30 dias após a emergência do milho, semeia-se o guandu nas entrelinhas do milho.

O papel da rotação de culturas no Manejo Integrado de Pragas Agrícolas

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) tem como base fundamental a integração de várias estratégias de controle de pragas, tais como: manipulação de cultivares, controle cultural (plantio, conservação do solo e adubação, densidade de plantio, destruição dos restos de cultura e rotação de cultura), controle climático, controle biológico e controle químico.

O princípio de controle envolvido na rotação de culturas é a eliminação ou supressão do substrato para o inseto ou patógeno. A ausência da planta anual cultivada leva a redução populacional ou erradicação do inseto numa determinada área e época do ano, principalmente, quando se trata de pragas que se alimentam ou infectam exclusivamente uma única espécie de planta.

No caso do algodão, seu cultivo alternado com outras culturas, em sucessões repetidas, adotando-se uma seqüência definida, além de contribuir para a redução de pragas específicas associadas a uma delas, concorre favoravelmente para a melhoria das condições físicas e químicas do solo.

Recentemente, tem-se observado, em algumas regiões, o aparecimento de nematóides trazendo prejuízos consideráveis. Nesse caso a rotação de cultura é obrigatória para reduzir os níveis de infestação. Assim, tem-se tornado comum nessas regiões, utilização de adubação verde, como a mucuna-preta (Mucuna aterrina) e a crotalária (Crotalaria spectabilis, Crotalaria juncea) para reduzir os níveis de infestação. Esses adubos verdes são plantados logo após a colheita do milho (março), crescem durante o inverno, e são incorporados em agosto/setembro, no momento de preparo do solo para plantio.

Em áreas onde ocorre o cancro da haste da soja, o guandu e o tremoço não devem ser cultivados, antecedendo a soja. O guandu, apesar de não mostrar sintomas da doença durante o estádio vegetativo, reproduz o patógeno nos restos de cultivo. Desse modo, após o consórcio milho-guandu, deve-se usar uma cultivar de soja resistente ao cancro da haste. O tremoço é altamente suscetível ao cancro da haste. Em áreas infestadas com nematóides de galhas da soja, não devem ser usados tremoço e labe-labe, por serem hospedeiros e fonte de inóculo desse patógeno.

O cultivo de determinadas espécies vegetais, apresentando efeitos alelopáticos, pode colaborar no controle de plantas daninhas através da inibição do desenvolvimento proporcionado pela liberação de alguns compostos orgânicos, principalmente, na decomposição da fitomassa. No entanto, para manifestação da ação alelopática, faz-se necessário que a produção de toxinas (aleloquímicos) atinja níveis letais para sementes e ou plantas daninhas e, que sejam liberadas de forma suficiente e gradativa, possibilitando prolongamento de seus efeitos.

Sempre que possível deve-se utilizar a rotação de culturas como uma ferramenta do MIP no sentido de reduzir o nível populacional das pragas agrícolas e facilitar seu controle por meio da consorciação de diversos métodos, visando a preservação do meio ambiente, a segurança do trabalhador e a saúde do consumidor.


:: Comentários ::

Camila -
Estudante

O artigo é bom, mas deveria ter mais conteúdo.
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Equipe ReHAgro - 07/11/2008 08:01
Consultor Técnico

Camila, no banco de artigos do site ReHAgro existem outros textos falando deste mesmo assunto, inclusive desta mesma autora.Fique à vontade para buscar. Assim , você pode pesquisar com maior aprofundamento.
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Carlos André - Futuro Eng. Agronômo -
Estudante

Excelente artigo! Foi de extrema importância para a realização de um trabalho científico e expandi meu campo lexical.
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Socorro Santos - 01/03/2009 01:00
Estudante

Gostaria de saber onde posso encontrar as caracteristicas botanicas das forrageiras-gramineas e leguminosas. Obrigada
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Fernando Rati - 27/03/2009 11:11
Consultor Técnico

Socorro Santos, Existem inúmeras literaturas sobre as características botânicas das culturas que você deseja aprofundar. Procure por trabalhos feitos pelas principais universidades agrárias do Brasil, EPAMIG, EMBRAPA. Fernando Rati, graduando em agronomia - Estagiário - Equipe ReHAgro
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Diogo -
Estudante

Antes de mais nada, ótimo texto! Só fiquei com uma pequena dúvida, a rotação de cultura favorece mais o controle de pragas ou a qualidade do solo?
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Emerson Fernandes -
Estudante

O artigo e bom... Me ajudou a entender melhor o impacto da rotação de culturas no combate a pragas e doenças.
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Emerson Fernandes -
Estudante

Gostaria de saber o que e época de sementeira ou plantio, e o que quer dizer época fechada em sanidade vegetal?
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Emerson Fernandes -
Estudante

Gostaria de saber que grupo de organismos é controlado quase exclusivamente pela rotação de culturas?
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Abibo Caroa -
Estudante

O Artigo é ótimo, este recheado de informações muito úteis para o meu curso, razão pela qual desejo de mais força e muita pesquisa, aprende não só que, podemos melhorar o controle de doenças e pragas, mas também o sistema de rotação de cultura melhora estrutura do solo, a fertilidade e aumenta o rendimento na produção agrícola. Obrigado. Qual e o papel da rotação de culturas usando uma agricultura biológica?
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