Monitorando a eficiência reprodutiva, por Ernane Campos, médico veterinário, Equipe ReHAgro
Artigos Técnicos
Publicado em 23/01/2007 por Ernane Campos, médico veterinário, Equipe ReHAgro

Monitorando a Eficiência Reprodutiva

Sem dúvida alguma, o impacto da eficiência reprodutiva na rentabilidade dos sistemas produtivos de leite é muito grande.

A explicação para isto vem da própria fisiologia dos animais em fase produtiva. Vacas em início de lactação priorizam para a produção de leite os nutrientes ingeridos através do consumo de alimentos volumosos e concentrados e também a mobilização de reservas corporais. Ao contrário, vacas em final de lactação, têm a produção de leite reduzida, pois a prioridade não é mais a produção de leite e sim a recomposição das reservas de energia (aumento do escore corporal) e o desenvolvimento do feto. Esta mudança é lógica quando pensamos no animal livre na natureza. No início da lactação, um grande volume de leite é necessário para que o bezerro recém nascido se desenvolva bem, já que o seu principal alimento é o leite. Com o passar do tempo o bezerro já se torna um ruminante verdadeiro, com capacidade para digerir celulose, o principal componente dos alimentos volumosos. A partir daí, a prioridade não é o leite para o bezerro e sim a preparação para o próximo parto (recomposição das reservas e crescimento do feto).




Portanto vacas em início de lactação convertem, com maior eficiência, os alimentos ingeridos em leite. Portanto, produzimos leite com menor custo por litro quando temos mais vacas em início de lactação. Para atingirmos esta situação, precisamos reduzir o tempo em que as vacas ficam “vazias” no rebanho. Este tempo é conhecido como Período de Serviço, e é o intervalo entre o parto e a concepção em dias. O período de serviço + o período de gestação = Intervalo de Partos (IdP).

As tabelas (1 e 2) abaixo mostram o impacto da eficiência reprodutiva no número de vacas em lactação de um rebanho, considerando um período de lactação de 10 meses, e na produção de leite e no número de animais na recria.

Tabela 1 – Impacto do IdP na produção de leite, e número de animais na recria


Tabela 2 – Impacto do IdP no número de vacas em lactação de um rebanho considerando a duração da lactação de 10 meses.


Entretanto a eficiência reprodutiva é influenciada por uma série de fatores. Dentre eles estão a sanidade do rebanho, a nutrição, o ambiente e as pessoas, que influenciam diretamente no manejo dos animais. Na maioria dos casos de insucesso, os problemas estão nas pessoas, pois elas não sabem o que devem fazer e o porquê de se fazer determinada tarefa de certa forma e na maioria das vezes estão desmotivadas. Ou seja, trata-se de um problema gerencial e não de incapacidade.

Uma importante ferramenta para monitorar a eficiência reprodutiva dos rebanhos é a obtenção de índices. Estes são fundamentais para definirmos qual a situação atual, como estamos caminhando e onde queremos chegar, que são as metas. 

Alguns índices muito usados, como o IdP e o período de serviço, não são boas ferramentas para monitorar a eficiência reprodutiva, pois são índices históricos, ou seja, refletem uma situação vivida a meses atrás e portanto podem não representar a situação atual. Além disto, incluem somente os animais que já estão prenhes, desconsiderando as vacas vazias e os descartes.

Os índices atualmente recomendados incluem todo o rebanho e são obtidos de forma relativamente rápida, possibilitando atuação emergencial quando necessário. Os mais importantes são: taxa de serviço, taxa de concepção e a taxa de prenhez.

Taxa de serviço

Representa a porcentagem de animais inseminados dentre os animais aptos para serem inseminados, em um período de 21 dias. Para calculá-lo faz-se um levantamento dos animais aptos (animais com dias em lactação (DEL) acima do período voluntário de espera (PVE) + os animais inseminados que não estão prenhes - através de uma estimativa da taxa de concepção). Após 21 dias da data do levantamento, conta-se quantos animais daqueles aptos foram inseminados. Agora basta dividir o número de animais inseminados pelo número de animais aptos e multiplicar por 100. Deve ser avaliado a cada 21 dias.
Tx serviço = nº de animais inseminados em 21 dias/nº de animais aptos x 100

Taxa de concepção 

Representa a porcentagem de animais que ficaram gestantes em função do número de animais inseminados em determinado período. Para calculá-lo basta dividir o número de animais que ficaram gestantes em determinado período pelo número de animais inseminados naquele mesmo período.

A taxa de concepção deverá ser estratificada por inseminadores, touros, no de inseminações, fase da lactação, condição de inseminação, etc. Deve ser avaliado, no mínimo mensalmente.

Tx de concepção = nº de animais prenhes/nº de animais inseminados x 100

Taxa de prenhez 

É o principal índice. Representa a velocidade em que as vacas ficam prenhes. É calculado dividindo-se o número de animais que ficaram prenhes pelo número de animais que estavam aptos em um período de 21 dias. Uma taxa de prenhez de 20% por exemplo, diz que 20 vacas a cada grupo de 100 ficam prenhes a cada 21 dias. Na verdade é o produto entre a taxa de serviço e a taxa de concepção.
 
Tx de prenhez = nº de animais prenhes em 21 dias/nº de aptos x 100

Outros índices como a porcentagem de reabsorção embrionária, abortos e retenção de placenta também devem ser monitorados, pois têm grande impacto na eficiência reprodutiva.
 Para cada índice, uma meta deve ser estabelecida. Esta meta deve ser definida em função do rebanho, da fazenda, da época do ano, etc. Para isto, o auxílio de um técnico é de fundamental importância.

O porquê do não cumprimento das metas deverá ser discutido entre a gerência, os funcionários do setor e com o técnico responsável pela assistência na fazenda. Caso necessário deve-se reavaliar as metas, definindo um plano de ação para que estas sejam cumpridas. Na maioria das vezes, o problema está no manejo e não nos animais. A influência das pessoas e do ambiente nos resultados é muito grande. 

No próximo artigo discutiremos quais fatores interferem na eficiência reprodutiva e como devemos abordá-los.


 


:: Comentários ::

José Assunção Silveira Junior - 01/10/2008 08:54
Consultor Técnico

Muito bom, vou procurar ler o próximo número
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