Entrevista com Thaís Passos.
Ponto de Vista
Publicado em 18/12/2006 por Equipe ReHAgro

Thaís Passos é médica veterinária, formada pela Unesp-Botucatu. Trabalha na Equipe ReHAgro como coordenadora de cursos presenciais. Em 2007 vai para Wisconsin - EUA fazer mestrado na área de gestão ambiental.



1) Quando e por que você decidiu pela área técnica de bovinos, especialmente qualidade do leite?

Thaís - Decidi que iria trabalhar com agropecuária em 1993, depois de ter cursado a disciplina “Bovinocultura de leite”, em meu curso de graduação (Medicina Veterinária - FMVZ Unesp Botucatu SP). A complexidade da pecuária leiteira despertou meu interesse e passei a participar de atividades organizadas por um grupo de alunos coordenado pelo prof. Zequinha (prof. Dr. José Luiz Moraes de Vasconcelos), com visitas à fazendas etc. O principal motivo da minha decisão, na época, foi minha intenção de ser útil à produção de alimentos (tanto aos produtores de leite quanto à população em geral).O direcionamento para o assunto “qualidade do leite” aconteceu em 1995, durante estágios que realizei em cooperativas e fazendas leiteiras. Interessei-me em trabalhar pela melhoria da qualidade do leite por acreditar que devemos fornecer alimentos seguros e nutritivos aos consumidores e também que o produto 'leite de boa qualidade' pode trazer ganhos econômicos e de saúde ao país.

2) Como você se preparou durante a graduação para o mercado de trabalho? O resultado pós formada foi como você esperava?

Thaís - Além de buscar conhecimentos em aulas e estudos, preparei-me efetivamente por meio de minha participação na empresa júnior em que se transformou aquele grupo de alunos, a Conapec Jr. As discussões técnicas, as visitas às fazendas, o trabalho de assistência que prestávamos e, principalmente, a percepção do mercado que adquiríamos ao lidar com questões reais, me ensinaram muito e me ajudaram a entender várias demandas do setor; assim, tomei uma posição no mercado. Sinceramente, eu não tinha uma expectativa muito concreta de como seria meu trabalho. Lembro-me de querer unir a teoria à prática, aplicar a tecnologia.Considero ter sido privilegiada com boa orientação e indicação. Penso que, no mercado de trabalho, contam muito o empenho, o conhecimento e o comprometimento.

3) Conte-nos sobre sua trajetória até o ReHAgro. Quais foram seus maiores desafios e os benefícios nessa jornada?

Thaís - Meu primeiro trabalho foi em uma cooperativa de produtores de leite em que eu fazia estágio, na cidade de Passos, sudoeste de MG. Ali, trabalhei no campo, avaliando equipamentos de ordenha, analisando amostras de leite e orientando produtores, ordenhadores e técnicos. Conheci diversas realidades e aprendi muito. No laticínio dessa cooperativa, convivi com conseqüências advindas da captação de leite de diferentes ‘qualidades’ e, assim, reforcei minha crença de que podemos e devemos melhorar a qualidade do leite brasileiro para a sociedade como um todo.
Depois, trabalhei para a DeLaval, onde aperfeiçoei meus conhecimentos sobre equipamentos de ordenha e ampliei minha visão do mercado.
Quando aceitei fazer parte de um grupo de técnicos que prestariam assistência técnica e ministrariam cursos (o nascente ReHAgro), fui bastante criticada por alguns colegas. Parecia que eu estava retrocedendo: deixando uma carreira promissora numa empresa multinacional para voltar a trabalhar no campo, dar cursos para funcionários de fazendas, ter a insegurança de ser autônoma etc. Mas não me arrependo nem por um segundo e acho que a educação é a solução, e não um retrocesso!
A meu ver, os desafios do dia-a-dia são: estar atualizado tecnicamente, ser ouvido, transmitir conhecimentos em linguagem adequada, gerar transformação.
Desafios ligados ao meio são: a situação econômica do país como um todo, a dificuldade para que a informação chegue ao campo, a necessidade de haver persistência em todos os sentidos (desde o ordenhador que deve fazer suas tarefas repetitivas com excelência, passando pelo empresário laticinista que traça suas estratégias mercadológicas, até o governo que implementa políticas agrícolas visando o crescimento e a sustentabilidade a longo prazo e muito mais). Os maiores desafios foram e continuam sendo: saber o que se quer fazer, imaginar os possíveis caminhos, tomar as decisões coerentes, abrir mão de algumas coisas, dar os passos necessários e executar o que se prega.
Nesse caminho, muitas vezes me inspirei no exemplo de pessoas que admiro e que me levam a ter mais persistência e/ou adotar determinada postura. Professores, amigos, colegas, pessoas que carrego comigo sempre e para sempre.
Os benefícios com que tenho sido contemplada são muitos! Ter a possibilidade de aprender a lidar com a confiança e com a escolha é um desses benefícios e merece ser citado: buscar confiança para escolher o que fazer.

4) Quantos anos atuou na área técnica? Por que deixou ela de lado?

Thaís - Atuei diretamente em 'Qualidade de leite e Equipamentos de ordenha' durante 9 anos. Aos poucos, intensifiquei o foco em ‘transportar o conhecimento’, ou seja: coordenar cursos de capacitação. Acho que consigo contribuir mais dessa maneira. Mas mantenho contato com o que acontece na prática, para que minhas ações sejam alinhadas com as demandas do campo e com as muitas realidades existentes. No meu caso, acho que "deixar a área técnica de lado" significa dar mais importância às atitudes, e não somente às técnicas.
A partir de 2007, direciono minhas atenções à Gestão Ambiental. Farei um mestrado nessa área durante os próximos 3 anos, com foco em recursos naturais e energia rural. Busco ajudar a evolução sustentável da humanidade por meio dessa minha nova atuação. Quero que minha pesquisa inclua fazendas brasileiras, para que as informações geradas sejam o mais úteis possíveis à nossa realidade e futuro.

5) Pretende voltar a atuar no campo?

Thaís - Sim, porém não utilizando 100% do meu tempo no campo. Acho que preciso estudar mais e também atuar mais amplamente, em diversos canais, para ajudar a levar mais informações ao campo. Mas estarei sempre com o pé no campo e voltada para o campo!

6) Quais os maiores desafios que uma mulher pode enfrentar nesse meio e quais os conselhos você daria àquelas que pretendem atuar nessa área?

Thaís - Talvez o maior desafio feminino seja obter respeito, tanto pessoal quanto profissionalmente. Muitas pessoas ainda vêem as mulheres como fêmeas e não como indivíduos. Muitos subestimam nossa capacidade intelectual e produtiva e, portanto, delegam-nos tarefas e cargos de menor importância e com menos oportunidades de crescimento. O interessante é que, devido a essa crença numa suposto papel inferior, muitas mulheres realmente adotam comportamentos compatíveis com tal expectativa, contando com grande tolerância às falhas, à baixa eficiência etc. Esse tipo de atitude nutre um círculo vicioso e quem quebra o ciclo é considerado anormal. Quem quebra o ciclo pode até ser incomum, mas não é anormal. São pessoas normais, homens e mulheres que agem racionalmente e não somente movidos por impulsos de competitivdade, conquista, poder ou vaidade.
Penso que tudo - nas pequenas e nas grandes coisas - é uma questão de escolha; e todas as nossas escolhas têm consequências.

Não sei se posso dar conselhos, mas eu digo para mim mesma: "leve a sério o seu papel no mundo".


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