Aspectos Clínicos da Brucelose Bovina, por Lívio Molina, médico veterinário, professor da EV-UFMG
Artigos Técnicos
Publicado em 13/02/2007 por Lívio Molina, médico veterinário, professor da EV-UFMG

Aspectos Clínicos da Brucelose Bovina

A brucelose é uma doença de animais transmissível aos humanos, responsável por consideráveis perdas econômicas na atividade pecuária bovina. No Brasil, dados de 1997 detectaram pelos testes sorológicos 3,47% de animais positivos e 1,56% de animais suspeitos. A brucelose acomete preferencialmente fêmeas em reprodução e eventualmente os machos. Alguns países da Europa e América do Norte erradicaram a doença, na década de 1940, razão pela qual impõem severas restrições ao comércio internacional de animais vivos e seus produtos. Em outros países, incluindo o Brasil, a brucelose é endêmica e dependem de programas de controle ou de erradicação.

A brucelose em bovinos resulta principalmente da infecção por Brucella abortus, bactéria que possui uma alta predileção pelo epitélio da placenta. A infecção resulta na morte celular, infecção dos tecidos adjacentes e eventualmente placentite e abortos. A placenta e o feto abortado constituem a principal fonte de infecção para outros animais. A Brucella abortus também infecta e replica em macrófagos. A sobrevivência em macrófagos, na glândula mamária e no linfonodo supramamário resulta na infecção crônica após o aborto.

O gênero Brucella consiste em seis espécies que exibem preferências por diferentes hospedeiros. A principal porta de entrada da B. abortus é a mucosa do aparelho digestivo (oral) quando da ingestão de água ou alimento contaminado com restos de abortos (feto, placenta, secreção uterina). A bactéria atravessa a barreira intestinal alcançando a circulação sanguínea. Na circulação sanguínea, penetra nos macrófagos, multiplicam-se e dirigem-se para os órgãos de eleição (aparelho reprodutor). Nas fêmeas infectam o útero grávido (feto e anexos embrionários), glândula mamária, linfonodos supramamários, medula óssea e nos machos atingem células dos testículos, epidídimo, ampolas e vesículas seminais com conseqüente eliminação da brucela pelo sêmen. As lesões determinadas nestes tecidos dos órgãos reprodutores são de natureza necrótica. Ocasionalmente podem localizar-se nas bainhas tendinosas, articulações e bolsas serosas. Simultaneamente, a bactéria é encontrada em outros órgãos como fígado, baço, diafragma e tireóide. É necessário frisar que o tecido de eleição da B. abortus é representado pelo útero e glândula mamária.
 
A imunidade contra brucelose é estabelecida pela imunidade celular. A imunidade humoral é importante do ponto de vista do diagnóstico sorológico. Não está totalmente estabelecida a relação entre proteção e imunidade humoral. O período de incubação varia de 14 a 180 dias.

Febre é um sinal presente, mas de pouco significado epidemiológico dado que o abortos é o sinal mais importante da doença. Os sinais da brucelose nas fêmeas são abortos, retenção de placenta e secreção vaginal purulenta e fétida e a infecção da glândula mamária. A imunidade que se instala é lenta, razão pela qual pode ocorrer mais de um aborto em uma mesma fêmea.

Na primeira gestação, o aborto ocorre mais precocemente (5o ou 6o mês), na segunda gestação pode ocorrer ao redor do sétimo mês e um terceiro eventual aborto (raro) por volta do oitavo mês porque a imunidade protetora se instala completamente por volta do período correspondente ao terceiro abortos. A partir de então, as gestações seguem normalmente e os bezerros nascem a termo.

Nos machos observa-se artrite (tarso e metatarso) ou poliartrite, tenosinovite, bursites e abscessos cutâneos e ocasionalmente orquite e epididimite. As lesões, nas fêmeas, localizam-se em linfonodos, órgãos parenquimatosos e genitais em decorrência da ação direta da bactéria e por reações de natureza alérgica. As lesões observadas nos fetos abortados são: edema (de pele, pericárdio e no cordão umbilical) e transudato sero-hemorrágico nas cavidades torácica e abdominal e no pericárdio. As lesões no tecido mamário são raramente observadas macroscopicamente. As lesões nos machos são hemorragia e focos de necrose nas vesículas seminais que evoluem (fase crônica) com hipertrofia e endurecimento do cordão espermático em conseqüência à proliferação de tecido conjuntivo. Nos casos de evolução crônica os testículos e epidídimo podem estar aumentados de volume devido à proliferação de tecido conjuntivo.
 
A localização intracitoplasmática da Brucella nas células do hospedeiro contribui para o caráter crônico da doença. A sobrevivência no interior dos macrófagos permite a essa bactéria escapar dos mecanismos extracelulares de defesa do hospedeiro.

Apesar de terem sido feitos vários estudos sobre a patogênese da Brucella, poucas informações estão disponíveis sobre os mecanismos que permitem sua invasão e permanência intracelular. A brucelose é uma doença essencialmente crônica e o prognóstico deve ser avaliado sob a ótica clínica e também epidemiológica.

Sob a primeira ótica, observa-se que depois de um episódio de abortos, a fêmea pode conceber normalmente, mas que poderá redundar ou não em novo aborto ou gestação a termo. Eventual endometrite poderá causar esterilidade temporária de duração variável.

Sob a ótica da epidemiologia, ressalte-se que, mesmo na ausência de abortos, a fêmea elimina a B. abortus pelo leite principalmente, o que a torna fonte de infecção para homens e animais na ausência de sintomas clínicos.



:: Comentários ::

cosma neris de lima -
Estudante

Olá! Esse artigo é ótimo! Ficaria mais rico se fossem denominadas as outras brucellas e em que cituações cada uma delas é mais comum.
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Equipe ReHAgro - 31/10/2008 10:12
Consultor Técnico

Sugestão anotada, Cosma!
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Ana Lucia de Lima Cavalcante -
Estudante

Este artigo é muito bom, poderia melhorar ainda mais, falando sobre os meios de preservação através de exames e vacinas...
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Osvaldo Caetano de Abreu -
Outros

Gostei muito do têxto. Meus parabéns. Osvaldo/SIF/SIPAG/DFA/GO.
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