Qualidade do leite e controle de mastite: Staphylococcus aureus - conheça o inimigo e veja como vencer um dos maiores desafios sanitários da pecuária leiteira!
Artigos Técnicos
Publicado em 18/05/2009 por Breno Silva, médico veterinário, Doutor em Ciência Animal, Equipe ReHagro

As exigências por qualidade de leite e a interferência dos parâmetros de qualidade na remuneração do produtor de leite vieram para ficar. Nesse cenário, devemos encarar o controle da mastite como uma prioridade nos sistemas de produção leiteira.

A infecção da glândula mamária, órgão diretamente responsável pela produção do leite, reduz a capacidade produtiva e a qualidade do leite produzido. Não é a toa, portanto, que a mastite é geralmente a doença que ocasiona os maiores prejuízos na atividade.

Vários são os agentes que podem causar mastite mas o Staphylococcus aureus é, sem dúvida alguma, a bactéria mais eficiente e que demanda grandes esforços e conhecimento para o seu controle.

O S. aureus tem a capacidade de colonizar o epitélio dos tetos, principalmente se a pele se encontra lesada ou ressecada. Uma vez dentro da glândula mamária, o S. aureus segue um padrão longo de infecção, levando a um aumento significativo da contagem de células somáticas (CCS) e causando graves lesões, que irão reduzir a qualidade do leite e o potencial produtivo da glândula mamária. Na figura 1 é possível identificar os diferentes estágios da infecção dentro da glândula mamária. O início ocorre com a adesão da bactéria aos tecidos da glândula (A), migração de glóbulos brancos (células somáticas) para dentro da glândula (C), obstrução das vias de drenagem por coágulos de leite e destruição do tecido que fica incapaz de produzir leite (F). A figura 2 demonstra, macroscopicamente, a capacidade destruidora desse agente e o enorme prejuízo que pode causar deixando glândulas mamárias improdutivas.

Figura 1. Esquema ilustrativo da infecção intramamária por Staphylococcus aureus



Figura 2. Visualização macroscópica das lesões da glândula mamária em casos crônicos de mastite por Staphylococcus aureus.



Diagnóstico

S. aureus se comportam de forma contagiosa, passando de animal para animal no momento da ordenha. Como em qualquer doença de comportamento contagioso, a identificação dos animais infectados é fundamental para o seu controle. S. aureus causam, na maioria das vezes, mastite subclínica de longa duração com ocorrência de casos clínicos esporádicos. Portanto o monitoramento mensal da contagem de células somáticas das vacas em lactação é de grande importância. Pode sugerir a presença e o comportamento do agente no rebanho, como ,por exemplo, sua introdução, disseminação ou controle.


No entanto, em vista da existência de outros agentes que se comportam da mesma forma, o isolamento através de cultivo microbiológico do leite é fundamental. Para isso, amostras de leite devem ser coletadas de maneira assépticas, congeladas e enviadas para laboratório de microbiologia. Uma parcela considerável das amostras enviadas geram resultados falso-negativos, já que S. aureus muitas vezes são eliminados de forma cíclica ou em baixo número na glândula mamária. Portanto, 3 amostras semanais de cada animal são necessárias para identificação eficiente de todas as vacas infectadas por S. aureus.

Controle

Os pontos fundamentais de atuação para o controle da mastite contagiosa são:

1. Rotina higiênica de ordenha, focando na desinfecção dos tetos após a ordenha (pós-diping)
2. Funcionamento adequado do equipamento de ordenha
3. Terapia de vaca seca (TVS) em todos os quartos mamários
4. Segregação e/ou linha de ordenha
5. Tratamento de casos clínicos e alguns subclínicos
6. Descarte de animais com infecção crônica
7. Melhoria do “status” imunológico dos animais via redução de stress, suplementação adequada de vitaminas e minerais ou mesmo vacinações.

Para um eficiente controle do S. aureus em rebanhos leiteiros é fundamental que todos esses pontos sejam implementados e gerenciados rotineiramente nas propriedades leiteiras, além da orientação técnica de um profissional competente, levando a um comprometimento de toda a equipe vinculada ao sistema produtivo.

- Pós-Dipping

A imersão dos tetos com produto germicida logo após a ordenha é fundamental para evitar que microrganismos contagiosos como o S.aureus se instalem na superfície dos tetos ou no canal do teto. Portanto, toda a superfície dos tetos deve ser coberta pelo produto a fim de reduzir a população de S. aureus no rebanho e, por consequência, reduzir a ocorrência de novas infecções.

- Segregação / linha de ordenha

Identificar os animais infectados e ordenhá-los após os animais sadios é fundamental para o controle do S.aureus. A glândula mamária infectada é o principal reservatório desse agente no sistema e sua disseminação ocorre no momento da ordenha. Portanto, separar os animais doentes para o final da ordenha evita a ocorrência de novas infecções.

- Terapia com antibióticos

S. aureus são agentes invasivos que se alojam em áreas profundas da glândula, geralmente com formação de microabscessos. Nessas áreas, a penetração do antibiótico é geralmente reduzida, o que dificulta a eliminação desse agente via antibioticoterapia. Além disso, S.aureus são, geralmente, resistentes a alguns antimicrobianos (especialmente β-lactâmicos). Portanto, a eliminação de infecções intramamárias de S. aureus pelo tratamento com antibióticos durante a lactação, normalmente, é antieconômica e de baixa eficácia.

Por outro lado, o tratamento com antibióticos na secagem do animal (terapia de vaca seca -TVS) permite a infusão de um produto de maior duração na glândula, o que aumenta a eficiência do tratamento. Taxas de cura giram em torno de 20 a 85% e, portanto, a infusão de todos os quartos de todas as vacas na secagem é um método essencial para o controle do S. aureus. Uma estratégia interessante e comprovada por nossa equipe recentemente se refere à associação de uma vacina contra S. aureus à terapia de vaca seca. Essa associação aumentou a taxa de cura em 48% se comparada à TVS sozinha (figura 3).

Figura 3. Taxa de cura pós-parto de quartos mamários de vacas submetidas ou não à vacinação na secagem em associação à terapia de vaca seca (TVS).


Fonte: www.rehagro.com.br

Em resumo, diagnosticar e controlar a mastite por S. aureus são tarefas difíceis e que exigem orientação e dedicação. Não raramente, temos encontrado propriedades que relevaram o controle desse agente durante os anos, chegando, em certos casos, a prevalências superiores a 50% no rebanho. Em um cenário futuro, onde a qualidade do leite estará interferindo cada vez mais na remuneração do produtor, relevar o controle desse agente hoje pode trazer perdas econômicas irreparáveis e até mesmo inviabilizar muitas propriedades.


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:: Comentários ::

Camila Fernanda -
Estudante

Muito bom! Estava fazendo um projeto de pesquisa sobre a mastite bovina e esse artigo me foi muito útil. Para mim, esse é um assunto importante e deveria ser mais estudado.
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Hildebrando - 21/05/2009 10:10
Consultor Técnico

A grande quantidade de descartes causados por mastite torna seu estudo importante para o sucesso da produção econômica de leite.
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LUCIANO MARTINS REDU -
Consultor Técnico

Sou veterinario de campo há 8 anos,e somente apos realizar uma pós- graduação,onde foi relatado profundamente o problema st.aureus, foi onde constatei o poder de defesa desta bacteria e ,consequentemente, a gravidade das lesões quase que 100% irreversiveis que este microorganismo é capaz de causar. parabens pela materia!!
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Jonas - 25/05/2009 10:32
Consultor Técnico

Em caso de propriedades onde o pós-dipping é realizado com bezerro, existe algum benefício na prevenção de infecções por S. aureus, ou somente substancias quimicas são eficazes?
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Soraia - 31/05/2009 22:32
Estudante

Breno, Gostaria de saber mais sobre a associação da terapia de vaca seca com a vacina para S. aureus e quais foram os parâmetros utilizados para avaliar a taxa de cura. Att, Soraia Rodrigues (soraiavet@yahoo.com.br)
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Paulo Henrique Martins - 05/06/2009 10:20
Estudante

É muito importante sabermos todos os tipos de infecção que ha nos tetos de uma vaca.
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HELBA -
Estudante

OLHA ESTE MATERIAL ESTÁ ÓTIMO, TIROU TODAS MINHAS DUVIDAS.
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MARISA MENDES -
Produtor - Gado de Leite

A aplicação de antibiótico aliada a terapia da vaca seca pode colaborar no tratamento do S. aureus. Aqui na Fazenda Romy estamos na terceira dose da vacina e não percebi alteração, consultarei o veterinário sobre a possibilidade de aliá-la a secagem. Parabéns pela clareza do artigo.
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Equipe ReHAgro - 18/08/2009 13:42
Consultor Técnico

Caro Jonas, o bezerro pode ser um veículo de disseminação de S.aureus no rebanho por veicular o agente de um teto para outro, uma vez que não se comprovou que as enzimas presentes na saliva do bezerro tenham ação contra a bactéia em questão.Há relatos de propriedades com bezerro ao pé com 22% das vacas contaminadas com o agente, o que sugere que a saliva não teve uma ação bactericida.
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