Efeito do balanço energético negativo na eficiência reprodutiva
Nos últimos anos, o grande aumento na produção dos rebanhos leiteiros vem sendo associado à queda nos índices reprodutivos. Atualmente a taxa de concepção nestes rebanhos é de 35 a 40% em vacas multíparas, 51% em primíparas, e 65% em novilhas (Butler, 2004).
No pós-parto as vacas passam por um período de balanço energético negativo (BEN). Este é determinado por um consumo de energia abaixo do requerido. Sendo assim, fica comprometida a reprodução (Santos, 2005). Em vacas de alta produção, o redirecionamento de nutrientes a favor da glândula mamária faz com que as atividades reprodutivas acabem sendo obliteradas em detrimento da sobrevivência e da lactação. Vacas com alto escore de condição corporal (acima de 3,5) apresentam maior queda na ingestão de alimentos, agravando ainda mais o BEN (Butler, 2004).
Uma a duas semanas antes do parto, a ingestão de alimentos diminui, levando ao BEN. O BEN se torna mais acentuado duas a três semanas pós-parto devido ao aumento das demandas nutricionais com o início da lactação. Nos primeiros 60 dias pós-parto a vaca aumenta a produção de leite. O início da lactação leva a uma enorme demanda de nutrientes principalmente em vacas de alta produção. Estas não têm um consumo de alimento compensatório, pois não conseguem consumir o necessário. Quando estas passam por um período de BEN aumenta os níveis de ácidos graxos não esterificados (AGNE) na corrente sanguínea, junto com uma queda nos níveis de glicemia, insulina e fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-1). Estas alterações metabólicas levam a uma diminuição nos pulsos LH (hormônio luteinizante), necessários para estimular o desenvolvimento de folículos ovarianos e reduzindo também a resposta ovariana às gonadotrofinas. O atraso ou a baixa produção de esteróides nos ovários, estrógeno nos folículos e progesterona após ovulação, promove atraso na involução uterina e o restabelecimento das suas funções (Santos 2005, Butler 2004).
A queda nas concentrações plasmáticas de estrógeno após a parição e a eliminação da placenta interrompe a inibição da secreção de FSH. Sendo assim os folículos começam a se desenvolver já no sétimo dia após o parto, devido a o aumento das concentrações plasmáticas de FSH. Acontece então a dominância folicular. Mas este folículo dominante (FD) não produz estradiol, levando a baixos níveis de LH e secreções pulsáteis insuficientes. Não ocorrendo à ovulação, o folículo regride. Esta fase pode estar caracterizada por quantidades inadequadas de IGF-1 secretadas para favorecer a sinergia com LH. Tanto o LH como quanto IGF-1 são necessários para o crescimento de um folículo estrogênico funcional (Thatcher, 2005).
O BEN acarreta mobilização de gordura corporal. A quantidade de ácidos graxos que pode ser metabolizada pelo fígado é baixa. Quando este processo é saturado os ácidos graxos que chegam ao fígado, são transformados em triglicérides, que se acumulam nos hepatócitos, caracterizando um quadro de esteatose ou “fígado gordo”, agravando ainda mais o processo. O acetil-COA que seria incorporado ao ciclo do ácido tricarboxílico é então utilizado para a síntese de acetoacetato, beta-hidroxibutirato (HBA) e acetona, estas substâncias são também conhecidas como corpos cetônicos, quando presente no sangue em concentrações aumentadas, causa o quadro clínico conhecido como cetose (Souza, 2003).
No período de transição, as concentrações de AGNE e HBA e o acúmulo de triglicérides no fígado foram maiores nas vacas em que o primeiro folículo dominante pós-parto não ovulou, em comparação àquelas que apresentaram folículos ovulatórios. A forte relação negativa entre as concentrações de AGNE e de HBA com o status ovulatório do FD mostra que níveis circulantes mais altos podem atuar inibindo a produção de estradiol folicular e a ovulação. Os locais de potencial inibição estão no hipotálamo, na freqüência dos pulsos de LH, e na sensibilidade dos folículos dominantes a estímulos metabólicos, como insulina e IGF-1 (Butler, 2004).
O BEN gera perdas na condição corporal das vacas, levando a anovulação e anestro prolongado no pós-parto, alonga o período do parto até o primeiro serviço e reduz a fertilidade. A desnutrição também inibe o comportamento de estro das vacas, devido a menor resposta do sistema nervoso central ao estrógeno, pois ocorre queda no número de receptores no SNC. É possível que fatores endócrinos e metabólicos associados ao BEN que ocorrem durante o período de crescimento dos folículos em estágios iniciais de crescimento acabem afetando a qualidade dos ovócitos e dos CL (corpo lúteo) subseqüentes à ovulação já no período de inseminação. Folículos pré-antrais destinados a ovular semanas mais tarde, podem ter sua qualidade alterada devido a fatores metabólicos durante o desenvolvimento (Santos, 2005).
Vacas que ciclaram mais tarde e as em anestro apresentaram BEN progressivo, principalmente as acíclicas. Em experimento (Thatcher, 2005) concluiu que o consumo alimentar de vacas em anestro foi continuamente inferior ao das vacas que ciclaram. Além de ingerirem menos na primeira semana pós-parto, à medida que o tempo passava a diferença entre a ingestão das vacas em anestro aumentavam cada vez mais.
Existe também um comprometimento na sobrevivência do embrião. É importante que haja um retorno precoce à ciclicidade com vistas a uma concepção precoce. O momento da primeira ovulação após o parto determina e limita o número de ciclo estrais que ocorrem antes do início do período de inseminação artificial. Em geral na maioria dos rebanhos leiteiros, menos de 20% das vacas devem estar anovulatórias 60 dias pós-parto. A expressão do estro, a taxa de concepção e a sobrevivência do embrião melhoraram quando as vacas estavam ciclando antes de um programa de sincronização de estro para a primeira inseminação pós-parto (Santos et al., 2004, Santos et al., 2004b). Butler, 2004 citando Butler 2001 e Lucy and Crooker, 2001 reportaram também que existe uma relação positiva entre taxa de concepção e início precoce dos ciclos ovulatórios pós-parto. A taxa de concepção aumenta com o decorrer dos ciclos, provavelmente devido à melhora nos perfis de progesterona.
A progesterona é essencial para a prenhez após a IA, devendo estar presente na corrente sanguínea em quantidades suficientes para promover a sobrevivência e o desenvolvimento do embrião. O nível de progesterona aumenta nos três primeiros ciclos ovulatórios no pós-parto, com menor evolução nas vacas com maior BEN (Butler, 2004).
O BEN é um período fisiológico pelo qual toda a vaca passa. Mas este pode ser reduzido, e seus efeitos podem ser diminuídos e menos alterações causar na produção de leite e na reprodução das vacas. Para isto deve ser realizado um manejo nutricional adequado. Segundo Santos e Sá filho, 2006 o mais importante para reverter o BEN é a disponibilidade de alimento: palatável, de fácil acesso, boa qualidade e quantidade. Garantindo assim máxima ingestão de matéria seca.
Alem do manejo nutricional deve se ter atenção também com o manejo reprodutivo e sanitário durante o período de transição. Sendo assim a vaca poderá reverter as alterações endócrinas e metabólicas citadas, podendo retornar as atividades reprodutivas.
REFERÊNCIAS
BUTLER, W. R. Efeito do balanço energético negativo na fertilidade de vacas leiteiras. In anais do VII curso de novos enfoques na produção e reprodução de bovinos, Uberlândia, 2004.
SANTOS, J. E. P., SÁ FILHO, M. F. Biotecnologia da reprodução em bovinos. 2° Simpósio Internacional de Reprodução Animal Aplicada.
SANTOS, J. E. P. Efeitos da nutrição e do manejo periparto na eficiência reprodutiva de vacas de leite. In anais do VIII curso de novos enfoques na produção e reprodução de bovinos. Uberlândia, 2005.
SOUZA, R. C. Considerações sobre desordens metabólicas em vacas leiteiras. Clinica de Ruminante – Universidade Federal de Minas Gerais, 2003.
THACHER, W. W., et al. Dinâmica no período periparto e subseqüente impacto na fertilidade. In anais do VIII curso de novos enfoques na produção e reprodução de bovinos. Uberlândia, 2005.