Como utilizar o Escore de Locomoção para monitorar a saúde dos cascos do rebanho
Os problemas relacionados ao casco, juntamente com as desordens reprodutivas e as mastites, têm sido apontados como uma das principais causas de perdas econômicas em rebanhos leiteiros. As perdas de produtividade são representadas por queda na produção de leite, diminuição do peso corporal, redução no desempenho reprodutivo, tratamento dos animais doentes e descarte.
As lesões que causam manqueira ocorrem em 90% dos casos nos cascos dos bovinos e 10% das lesões ocorrem nas partes altas. Dessa forma, a prevenção e o tratamento das lesões de casco devem ser feitos rotineiramente na fazenda a fim de evitar os prejuízos por elas causados.
Uma ferramenta no controle dos problemas de casco em rebanhos leiteiros é o escore de locomoção. É efetivo na detecção recente de desordens no casco, serve para o monitoramento da prevalência, incidência e severidade de manqueiras, além de identificar as vacas a serem casqueadas.
O escore de locomoção é baseado na observação de vacas em estação e locomovendo-se com especial ênfase na região posterior dos animais. A observação deve ser feita em superfície plana que permita que as vacas caminhem normalmente. Segue abaixo um esquema de classificação dos animais de acordo com o escore de locomoção.

Fig. 1 - Escore de locomoção 1 - Postura normal com linha de dorso retilínea em estação e locomoção, passos firmes com distribuição correta do peso e apoios.

Fig. 2 - Escore locomoção 2 - Postura normal em estação e ligeiramente arqueada em locomoção, apoios normais.

Fig. 3 - Escore de locomoção 3 – Postura arqueada em estação e locomoção, ligeira alteração dos passos.

Fig. 4 - Escore de locomoção 4 - Arqueamento do corpo em estação e locomoção, assimetria evidente do apoio poupando membros, com menor tempo de apoio do(s) membro(s) lesado(s).

Fig. 5 - Escore de locomoção 5 - Incapacidade de apoio ou de sustentação do peso do(s) membro(s) lesado(s), relutância ou recusa para locomover-se.
* Adaptado de Sprecher, D.J., Hostetier, D.E., Kaneene, J.K. 1997. Theriogenology 47: 1178-1187.
O escore de locomoção deve ser realizado a cada dois meses no rebanho, e o resultado acompanhado, definindo metas e as ações corretivas. Os números de prevalência e incidência são bastante variados entre rebanhos, mas de uma forma geral deseja-se que apenas 10% do rebanho tenha escore maior que 3, que são as vacas consideradas mancas (FERREIRA et al., 2006).
Ao iniciar o trabalho em uma fazenda, o técnico deve seguir um método de trabalho a fim de reduzir os problemas de casco. A fazenda deve ser examinada para que se defina os fatores desafiantes que o sistema impõe aos animais. Deve ser avaliado o número de casos observados anualmente e as perdas ocorridas, as faixas etárias e grupos de produção mais acometidos, em quais instalações o problema está ocorrendo, tipo das instalações, tipo e volume da cama, método e freqüência da remoção de fezes e urina, qualidade e freqüência do casqueamento, composição da dieta, freqüência do pedilúvio e a substância e concentração utilizada.
Posteriormente, o escore de locomoção deve ser realizado em todo o rebanho, possibilitando a identificação dos animais que necessitam ser casqueados e também comparar com escores futuros e avaliar a eficiência das medidas tomadas.
Os animais com escore 4 ou 5 têm lesões graves nos cascos e devem ser casqueados imediatamente para que recuperem das lesões e reduzam seus efeitos nos parâmetros produtivos. As vacas com escore 2 ou 3 devem ser examinadas e casqueadas a fim de prevenir que a lesão aumente. O tipo das lesões deve ser anotado para avaliar quais são mais freqüentes e direcionar as medidas que deverão ser tomadas.
A fim de estimar os prejuízos causados pelas manqueiras, utilizamos um calculador de perdas em produção de leite, baseado no escore de locomoção das vacas. Seguno Robinson,p. (2001), as perdas estimadas são de:
- Escore de locomoção 3: 5,1% de perdas em produção
- Escore de locomoção 4: 16,8% de perdas em produção
- Escore de locomoção 5: 36,0% de perdas em produção
Em um exemplo real, em uma Fazenda assistida pelo ReHAgro na Zona da Mata, em Minas Gerais, o trabalho sobre a saúde dos cascos foi iniciado com a realização do escore de locomoção das vacas em fevereiro de 2006. A partir daí, todos os animais foram casqueados preventivamente, sendo que aqueles que apresentavam lesões voltavam ao tronco de contenção para limpeza das lesões e troca dos curativos. Após a realização de cada escore de locomoção, todos os animais com escore igual ou acima de 2 eram casqueados. O pedilúvio passou a ser realizado diariamente com uma solução de formol a 5%, permitindo que apenas 200 animais passassem na solução. Caso houvesse maior necessidade, uma nova solução era preparada.
Os resultados são apresentados nas tabelas abaixo, considerando a média do rebanho como 22 litros de leite/dia e o preço do litro de leite como 0,56 centavos.
Tabela 1 – Nº de animais, perdas em produção de leite e perdas econômicas, nas datas em que foram realizados os escores de locomoção

Inicialmente, podemos observar uma redução acentuada da prevalência de animais mancos, escore de locomoção 3 a 5. Em fevereiro de 2006, 72,5% das vacas apresentavam manqueira, esse número reduziu para 21,14% em junho de 2006 e para 18,90% em setembro do mesmo ano. A meta é reduzir a porcentagem de animais mancos para abaixo de 10%.

Gráfico 1 – Evolução do escore de locomoção nos meses de fevereiro, junho e setembro
A redução nas perdas em produção de leite foi de 296 litros de junho em relação a janeiro e 26,4 litros de setembro em relação a junho.
Pense na situação acima como se cada uma das tabelas de escore de locomoção representasse uma fazenda diferente. As perdas anuais em produção de leite representariam R$ 92.557,63, R$ 32.053,19 e R$ 26.557,03 para as situações 1, 2 e 3 respectivamente. A diferença entre a situação 1 e 3 seria de R$ 65.900.60 por ano. Esse dinheiro paga os gastos com os medicamentos utilizados com a prevenção e tratamento dos cascos e ainda sobra para o caixa da fazenda.

Gráfico 2 – Comparação das perdas em R$/ano devido a queda na produção de leite, dos meses de fevereiro, junho e setembro
Esses números consideram apenas as perdas em produção de leite, aqui não foram consideradas as perdas com reprodução, emagrecimento, tratamento de animais doentes e descarte. Dessa forma, toda fazenda deve ter especial atenção na prevenção e tratamento dos cascos de suas vacas, visto as grandes perdas econômicas que podem ser evitadas.
Os problemas de casco têm três origens básicas:
1. Contaminação bacteriana e outros microrganismos
2. Nutrição
3. Excesso de umidade e abrasão no ambiente.
As principais lesões dos cascos de bovinos estão diretamente relacionadas com a origem do problema. A correta identificação das lesões e tratamento adequado das mesmas determina o sucesso na cura dos animais mancos. Portanto, é fundamental aprender a reconhecer as lesões e tratá-las corretamente. Não perca no próximo artigo, onde abordaremos as principais lesões e os seus respectivos tratamentos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. FERREIRA, P. M., CARVALHO, A. U., FACURY FILHO, E.J., COELHO, S. G., FERREIRA, M. G., FERREIRA, R. G. Sistema Locomotor dos Ruminantes. 2006. 40p.
2. ROBINSON, P. Locomotion scoring cows. 2001. http://www.availa4.com/locomotion/pdf/LocmotionScoring.pdf - acessado em 23/3/2007.