O Estresse Calórico Afetando a Produção nos Bovinos
Em um país tropical como o Brasil, o estresse calórico é sentido tanto por nós quanto pelos animais, sendo um tema de extrema importância pois influi diretamente na produtividade dos animais.
A caracterização do estresse foi feita por Bearden e Fuguay (1980) como sendo um termo que se aplica a qualquer mudança ambiental suficientemente severa para introduzir respostas que afetam a fisiologia, comportamento e produção animal. Ocorrendo o estresse calórico quando a taxa de ganho de calor de um animal excede a de perda, fazendo com que o mesmo saia de sua zona de conforto térmico(ZCT), e apresente um quadro de hipertermia (Dhiman e Zaman, 2001). Assim, em condições de estresse, são necessários ajustamentos no comportamento e/ou fisiologia do animal, com a finalidade de fazer frente aos aspectos anti-homeostáticos do ambiente (Pires, 1997).
Os animais homeotérmicos (sangue quente) mantêm sua temperatura corporal através do equilíbrio entre o calor produzido pelo metabolismo e o fluxo de calor perdido para o ambiente. O calor interno dos animais advém do metabolismo de alimentos orgânicos como: carboidratos, lipídeos e proteínas, fermentação ruminal, atividade muscular e também da radiação solar e do calor do meio ambiente (Pereira, 2005). A perda de calor para o ambiente ocorre por meios não evaporativos e evaporativos. Os meios não evaporativos, também chamados de sensíveis, são: radiação, convecção e condução. Em temperaturas mais altas (acima de 21,1ºC) os meios evaporativos (suor e respiração) são os mais importantes para a transferência de calor ao ambiente (Shearer e Beed, 1990). Portanto, a evaporação é o meio mais importante em um país tropical como o Brasil, onde as temperaturas ambientes notadamente são superiores a 21,1 ºC na maior parte do ano, em quase todas as regiões. A evaporação é muito eficiente na transferência de calor para o meio, mas é limitada quando a umidade relativa do ar está elevada, pois o ambiente está saturado com vapor d’água, o que atrapalha a evaporação.
Os bovinos utilizam os mecanismos citados acima quando ultrapassaram seus limites de conforto de térmico. Existe para os animais o que chamamos de zona de conforto térmico(ZCT), que são os limites de temperatura onde o animal não precisa expressar seus recursos termorreguladores, correspondendo à faixa de temperatura ótima para a produção animal. Há uma significativa diferença entre animais zebuínos, animais taurinos (europeus) e seus mestiços. Segundo Pereira (2005), não há definições precisas e rígidas sobre valores de ZCT, mas a literatura cita para zebuínos ZCT entre 10 ºC e 27 ºC, taurinos entre 0 ºC e 16 ºC. Para os mestiços há citações menos definidas com valores entre 5 ºC e 31 ºC. A partir desses valores podemos perceber que animais europeus estão mais susceptíveis ao estresse calórico. Essa maior susceptibilidade à temperatura é explicada no caso das raças especializadas em produção de leite, pelo grande metabolismo basal e também pela ineficiência em perder calor quando comparada a zebuínos.
Uma das reações fisiológicas mais imediatas ao estresse calórico é a redução no consumo de alimentos, estratégia para diminuir o metabolismo basal e manter a temperatura constante. Segundo Marcheto et al. (2002) a redução no consumo de alimentos é tanto maior quanto mais intenso é o estresse térmico e é atribuída à inibição, pelo calor, do centro do apetite, localizado no hipotálamo. Ingram e Mount (1975) perceberam que a 32 ºC, o consumo alimentar de vacas holandesas em lactação tem queda de 20% e, a 40 ºC, declina a zero. Consequentemente à diminuição na ingestão de alimentos, ocorre redução na produção e nos constituintes do leite, além de problemas reprodutivos, acarretando prejuízos aos produtores.
Pode-se perceber que um rebanho está sofrendo estresse calórico quando: há diminuição na produção de leite de 10 a 20%, a freqüência respiratória está acima de 80 movimentos por minuto em 70% dos animais do lote, a temperatura retal estiver maior que 39,2 ºC em 70% dos animais do lote, ocorrer redução de 10 a 15% ingestão de alimentos, aumentar o consumo de água, os animais mudarem de comportamento e quando houver mudanças no estado de hidratação dos animais (Dhiman e Zaman, 2001).
Considerando os possíveis prejuízos provocados pelo estresse calórico, devemos utilizar meios para diminuir o problema. Basicamente temos que realizar modificações no ambiente e no manejo nutricional.
No ambiente, podemos utilizar sombras, sendo naturais ou artificiais, que forneçam uma área de 3 a 5 m² por animal. A sombra natural possui a vantagem de ser mais barata e de proporcionar além da redução no ganho de calor pelo animal, ganhos ambientais. Mas como o crescimento das árvores é um processo lento, muitas vezes é necessário lançar mão do sombreamento artificial. Este pode ser conseguido com a utilização de sombrites, que são telas de fibra sintética e que devem fornecer de 60% a 80% de sombra. Temos também como opção a utilização de materiais compactos que tenham alta refletividade, baixa condutividade e baixa emissividade para o interior da instalação (Pires et al.,2005). A orientação das árvores ou da estrutura artificial deve ser planejada. Quando os animais estão confinados a melhor orientação é a leste-oeste por proporcionar sombra o dia todo, já quando os animais não estão confinados eles podem se movimentar a procura de sombra, devendo então a estrutura ter orientação norte-sul, pois diminui a formação de barro já que os animais não ficam apenas em um local. Outro fator de extrema importância é a presença de cochos de água e comida na sombra ou próximo, para que os animais não fiquem apenas na sombra e tenham seu consumo diminuído. A utilização de ventiladores, aspersores e nebulizadores também pode ser estudada em galpões de confinamento, currais de espera ou em áreas cobertas e apresenta grande eficiência na retirada de calor do animal e do ambiente.
Comparada a um eficaz sistema de manejo do ambiente, a manipulação da dieta da vaca leiteira em estresse calórico terá efeito relativamente pequeno sobre a produtividade. O consumo de matéria seca começa a reduzir quando a temperatura ambiente excede 25,5 ºC. Normalmente essa queda de consumo é maior para alimentos volumosos do que para concentrados, pois o metabolismo de forragens gera mais calor, sendo maior a redução quando o alimento possui mais fibra. Podemos interferir proporcionando aos animais dietas de alta densidade energética, suplementação adicional de minerais, gordura, forragens de melhor qualidade e água de boa qualidade e em grande quantidade. Além de fornecer esse alimento parcelado durante o dia. (Reis et al., 2005)
O efeito do estresse calórico no desempenho animal, provavelmente vai se tornar muito mais importante no futuro, caso a destruição ambiental continue aumentando. Dessa forma o aquecimento global que já pode ser notado, tenderá a ter efeitos ainda maiores. Somente o esforço conjunto entre governos e sociedades pode reverter esse quadro. Em se tratando de estresse calórico animal, deve ser promovida a integração entre técnicos, pesquisadores e produtores, na busca por alternativas viáveis e adaptadas a cada realidade.
Referências Bibliográficas:
BEARDEN, H.J.; FUQUAY, J. Applied animal reproduction. Reston: Reston Publishing, 1980. 337p.
DHIMAN, T.R.; ZAMAN, M.S. Desafios dos sistemas de produção de leite em confinamento em condições de clima quente. In: Simpósio de Nutrição e Produção de gado de Leite, 2., 2001, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2001.p. 05-20.
INGRAM, D. L.; MOUNT, L.E. Man and animals in hot envoirenment, New York: Springer – Verlag New York Inc, 1975. 185p.
MARCHETO, F.G.; NÃÃS, I.A. et al. Efeito das temperaturas do bulbo seco e do globo negro e do índice de temperatura e umidade, em vacas em produção alojadas em sistema de free stall. Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci., v.39, n.6, p.1-8, 2002.
PEREIRA, J.C.C. Fundamentos de bioclimatologia aplicados à produção animal. Belo Horizonte: FEPMVZ, 2005. 195p.
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PIRES, M.F.A.; CARVALHO, M.M.; ALVIM, M.J.; AROEIRA, L.J.M. Alternativas para amenizar os efeitos do estresse calórico em vacas leiteiras. In: PEREIRA, J.C.C. Fundamentos de bioclimatologia aplicados à produção animal. Belo Horizonte: FEPMVZ, 2005. Cap.12, p.99-126.
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SHEARER, J.K.; BEEDE, D.K. Thermoregulation and plysiological responses of dairy cattle in hot weather. Agric. Prat., v.11, n.4, p.8-17, 1990.