"O cobre na alimentação dos ovinos", por Sérgio Ribeiro, médico veterinário da ATO - Assessoria Técnica em Ovinocultura
Artigos Técnicos
Publicado em 10/06/2007 por Sérgio Ribeiro, médico veterinário da ATO

Introdução

                

O cobre é um elemento-traço essencial, também chamado de micro-elemento. Ele participa de diversos processos no organismo, tais como a metabolização do ferro por enzimas, que são cobre-dependentes; a formação de elastina e do colágeno, que são proteínas presentes em várias partes do corpo como, por exemplo, nos vasos sanguíneos; produção de melanina, responsável pela pigmentação da pele, pelos e lã; e a manutenção da integridade do sistema nervoso central.

Apesar de essencial, várias indústrias de misturas minerais retiram este elemento de seus produtos ou lançam outros produtos sem o cobre. Isto se deve a crença, ainda existente em algumas regiões, de que os ovinos não podem ingerir este elemento. Provavelmente este conceito surgiu e se popularizou após ovinos ingerirem formulações minerais para bovinos, intoxicando-se e vindo a óbito. Contudo, o fato reside na quantidade ingerida e não na “necessidade” de haver a ausência do nutriente na dieta de ovinos. Minerais elaborados para bovinos têm uma quantidade de cobre significativamente acima do recomendado para ovinos, por isso o risco de intoxicação e morte.

Dietas bem balanceadas contendo quantidades adequadas deste elemento são de extrema importância para o sucesso de um sistema de produção de ovinos.

Deficiência de cobre

A deficiência de cobre nos ovinos pode ser tanto ou mais danosa ao bolso do produtor quanto a intoxicação por este elemento. Muitas vezes esta deficiência causa prejuízos imperceptíveis ao ovinocultor, e, nos casos em que são percebidos, raramente consegue-se determinar sua causa. Já os prejuízos pela intoxicação são mais evidentes, pois muitas vezes há alguma sintomatologia clínica e, não raramente, o animal vem à óbito, fazendo com que e as providências sejam tomadas de imediato.

Segundo Nunes (1998) a mortalidade perinatal de cordeiros, provocada por bactérias como Escherichia coli e Pasteurella haemolytica, pode ser reduzida com a suplementação correta de misturas minerais com cobre para as ovelhas antes do parto. Isto porque o cobre participa, dentre outras, da enzima lactotransferritina, que tem ação bacteriostática através do seqüestro de ferro das bactérias, inibindo seu desenvolvimento no leite e transmissão ao cordeiro. A deficiência por cobre também reduz o número de neutrófilos circulantes, pois tem ação reconhecida, mesmo que ainda não tão bem esclarecida, sobre o sistema imunológico. Uma diminuição da atividade bactericida no organismo pode ocorrer no início do desenvolvimento de deficiência de cobre em bovinos e ovinos (Pedreira e Berchielli, 2006).

A presença do cobre também é fundamental na dieta dos ovinos pois, como em todos os mamíferos, participa da formação da hemoglobina como catalizador, favorecendo a utilização do ferro.

A ceruloplasmina é a proteína sanguínea que contém a maior parte do cobre do organismo (acima de 95%), e é responsável pela conversão do ferro do estado ferroso, estocado no fígado, para o estado férrico que é incorporado à hemoglobina das hemácias. Neste sentido, a deficiência de cobre leva a uma anemia microcítica hipocrômica pela diminuição da disponibilidade de ferro para síntese de hemoglobina (National..., 2006).    

Outro ponto importante de atuações do cobre é na mielinização do sistema nervos central. A mielina é uma proteína que, dentre outras funções, envolve e protege as fibras nervosas promovendo um correto funcionamento desse sistema. Sua formação e manutenção é dependente da disponibilidade de cobre. A deficiência de cobre pode levar a uma síndrome conhecida como ataxia neonatal dos cordeiros, devido a desmielinização do sistema nervoso central (National..., 1985 ; National..., 2006). Ocorre mais comumente logo após o parto, mas pode revelar-se em algumas semanas.

O cobre é necessário para a enzima lisil-oxidase que está envolvida na síntese de colágeno e elastina. O colágeno forma a matriz necessária para a deposição de cálcio e fósforo nos ossos. A falta de cobre nas dietas dos ovinos pode gerar uma osteoporose e ocasionar fraturas em animais por falha na deposição destes minerais. A elastina participa da constituição de tendões e ligamento (National..., 2006).

De acordo com National Research Council (2006), a mais evidente função do cobre é na síntese de melanina, pigmento da pele, pêlos e lã, devido a sua presença na enzima tirosinase. Ovelhas apresentando lã endurecida e quebradiça, sem elasticidade e pigmentação adequadas podem ser sinal de falta de cobre.

Intoxicação por cobre

Existe normalmente uma ampla diferença entre níveis deficientes e níveis tóxicos de cobre para mamíferos. A ingestão continuada de cobre em níveis acima das exigências dietéticas dos animais conduz a um acúmulo gradativo do elemento em vários tecidos, principalmente no fígado, e eventualmente leva à intoxicação. A capacidade de acumular cobre nos tecidos varia grandemente com as espécies animais e mesmo com as raças dentro de uma mesma espécie (Nunes, 1998; Embrapa, 1982).

A ocorrência mais comum de intoxicação por cobre em ovinos é quando estes animais ingerem misturas minerais destinadas a bovinos. Diferentemente dos bovinos, o limite tóxico para ovinos é baixo, o que gera uma faixa relativamente estreita entre a necessidade e a toxicidade. Os suplementos minerais de bovinos apresentam, de modo geral, entre 1200 e 2000 mg de cobre por quilo de produto, bem acima dos suplementos para ovinos que apresentam em média 400mg/Kg. A ingestão de produtos para bovinos por ovinos pode levar a um consumo de 30 a 60 mg/ kg de matéria seca, que são valores bastante elevados para a espécie.

O mecanismo de intoxicação cúprica ocorre em duas fases:
 
1) período passivo de acúmulo de cobre nos tecidos, que pode variar de algumas semanas a mais de um ano, durante o qual o animal não exibe sintomas de intoxicação.

2) fase tóxica que se caracteriza por um processo agudo conhecido como crise hemolítica. As mucosas aparentes podem tornar-se ictéricas. Há uma obstrução dos túbulos renais, que leva o rim a adquirir um aspecto entumecido e de coloração bem avermelhada. Estas características levaram a intoxicação ser conhecida como “doença do rim pouposo”. Nesta fase, a morte pode ocorrer em período de poucas horas até dois a quatro dias.

A ingestão continuada de cobre, entre 26 a 38 mg/ kg de matéria seca, em dietas de ovinos elevam acentuadamente seus níveis de cobre hepático (Nunes, 1998).

Suplementação com cobre

Segundo o National...(1985), a necessidade diária de cobre (Cu) dos ovinos é de 7 a 11 mg/Kg de matéria seca (MS) ingerida. Contudo a edição mais recente (2006) apresenta uma grande variação na necessidade de cobre de acordo com o peso do animal, categoria e fase em que se encontra. Como exemplo, ovelhas de 60 Kg de peso vivo, no final da gestação e com dois fetos precisariam ingerir 11,4 mg de Cu por dia. Se a gestação fosse de apenas um feto, esta ovelha necessitaria de 8,6 mg/dia.

Outro aspecto importante é a interação do cobre com outros elementos, como o molibdênio e enxofre, que podem aumentar as necessidades daquele se estiverem em excesso na dieta.

De modo geral, o importante é que os animais tenham uma dieta balanceada por um técnico capacitado. Deve-se levar em consideração o tipo de pastagem, rações e demais suplementos que estão sendo oferecidos aos ovinos. Pastagens no sul do país possuem níveis de cobre mais elevados. Já as pastagens, principalmente de áreas de cerrado, apresentam geralmente baixos teores de cobre, além de limitada disponibilidade. Em termos práticos, suplementos minerais prontos para uso que apresentam de 200 a 750 mg de cobre por quilo do produto, onde os animais lambem de 20 a 40 g por dia, provavelmente não oferecem risco de intoxicação para os ovinos. É preciso avaliar, entretanto, se estão suprindo as necessidades. É importante avaliar também os demais alimentos da dieta dos animais.

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Referências bibliográficas

EMBRAPA. Comunicado técnico, COT nº 14, dez 1982. Embrapa Gado de Corte. Campo Grande – MS.
NUNES, I., J. Nutrição Animal Básica. FEP-MVZ editora. Belo Horizonte – MG, 1998. 388p. 
NATIONAL RESEARCH CONCIL. Nutrient requirements of sheep, 6ª ed. Washington, DC: National Academy Press, 1985. 99p.
NATIONAL RESEARCH CONCIL. Nutrient requirements of small ruminats. Washington DC: National Academy Press, 2006. 362 p.
PEDREIRA, M., S.; BERCHIELLI, T.,T. Minerais. In: Nutrição de ruminantes. Jaboticabal – SP, 2006. p. 333-396.


 

:: Comentários ::

genaro Oliveira machado - 29/09/2008 22:42
Produtor - Ovino

Muito interessante esse artigo principalmente ao mito da ingestão do cobre por caprinos, pois tinha uma enorme dificuldade em obter uma resposta satisfatória quanto a que li agora.Saudações.
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