A indústria sucro-alcooleira do Brasil vive dias de exuberância e expectativa ímpares. Graças à tecnologia utilizada na produção do etanol, o País ganhou prestígio e despertou o interesse de nações desenvolvidas na busca por soluções que diminuam o impacto causado pela poluição na atmosfera. Mas a febre em torno do biocombustível pode trazer conseqüências desastrosas ao setor agropecuário.
Com a perspectiva de que os investimentos estrangeiros vão aumentar consideravelmente nos próximos anos, muitos fazendeiros já pensam em trocar o gado pela cana-de-açúcar, num movimento sem paralelos, que pode ter reflexos irreparáveis ao setor pecuarista, sobretudo, no interior do Estado de São Paulo.
A disposição dos administradores públicos em incentivar a implantação de novas usinas de beneficiamento de cana é compreensível, mas não se pode admitir que o entusiasmo em torno do “ouro verde” prejudique o desenvolvimento de setores que também possuem peso inegável na balança comercial, como a pecuária bovina.
Este processo barra também o avanço do leite no Brasil. Bacias leiteiras importantes, como as de Lins e Tupã, no interior do Estado de São Paulo, estão diminuindo sua produção. As fazendas leiteiras paulistas estão se transformando em canaviais e o Estado passou a importar leite, produto em que era auto-suficiente num passado pouco distante.
O contra-senso na aplicação de recursos não se limita ao estímulo à cana-de-açúcar. Nos últimos anos, o governo federal destinou milhões de reais para fazer a Reforma Agrária, em doses inversamente proporcionais ao que foi gasto com a pecuária. O investimento é justo e ameniza a situação difícil de milhares de famílias que vivem em situação de miséria. Mas isso de nada adianta se não houver o fortalecimento de outras atividades no campo.
A posição privilegiada da pecuária nacional ainda não sensibilizou as autoridades, ao contrário do que ocorre com a cana. Até 2014, nossa liderança no comércio de carne bovina deverá ser ainda maior, já que o consumo aumentará consideravelmente, uma tendência que se acentua com o passar dos anos, ao mesmo tempo em que o número de produtores cairá consideravelmente, sobretudo, por causa da redução do espaço para a atividade. Nesse sentido, o cenário que se apresenta diante de nossos olhos é fantástico, indicando que somente seis players permanecerão produzindo carne bovina – Brasil, Austrália, Canadá, Argentina, Índia e Nova Zelândia.
Sem investimentos para a implantação de um rigoroso controle de vigilância sanitária, o produtor eficiente viverá ameaçado de ver seu produto rejeitado pela irresponsabilidade de quem não se preocupa em prevenir o surgimento de focos de febre aftosa. Desde 2000, a União Européia determinou a adoção de controles severos na rastreabilidade do gado. Mas ainda hoje o Brasil tem dificuldades para se enquadrar dentro dessas exigências.
As outras mazelas enfrentadas pelo setor são comuns à maioria dos empresários brasileiros, como o câmbio, a política de juros altos e as dificuldades impostas pela lei. Se, hoje, controlamos um quinto do mercado mundial, mesmo com todas essas dificuldades, imagine qual seria nossa parcela se houvesse maior seriedade em torno dessas questões.
Enquanto isso, o estímulo à produção de etanol segue a todo vapor, incentivando o capital estrangeiro, com especial atenção para áreas localizadas em São Paulo. Aos poucos, os pequenos produtores alugam suas terras em troca de bons ganhos na colheita da cana. Se o governo estadual não agir rápido, correrá o risco de ver essa indústria migrar para regiões como o Vale do São Francisco, no oeste baiano, e os estados de Goiás e do Tocantins. Vai entregar “de bandeja” uma parcela importante da arrecadação tributária e ainda terá de explicar ao consumidor o porquê do inevitável aumento de preços.
O empresário do campo não pode ficar refém da produção de etanol, principalmente porque está comprovado que existe vida além do mar de cana-de-açúcar vislumbrado por nossas autoridades. Se essa insistência se intensificar, a situação do setor pecuarista deverá se agravar. Sem dinheiro para desenvolver tecnologia e ampliar a produção, o gado bovino nacional pode começar a gerar desconfiança nos mercados estrangeiros. Se canalizarmos a energia somente em torno da cana-de-açúcar, estaremos regredindo, numa espécie de retorno à monocultura dos tempos do Império. Um retrocesso que pode custar caro.
Artigo publicado na Revista Balde Branco do mês de maio. Para conhecer e assinar Balde Branco acesse www.baldebranco.com.br