"Touros de corte para monta natural: Aspectos relevantes na sua escolha", por Adriano Botelho, Equipe ReHAgro
Artigos Técnicos
Publicado em 25/06/2007 por Adriano Botelho, graduando em medicina veterinária, estagiário Equipe ReHAgro

Touros de corte para monta natural: Aspectos relevantes na sua escolha

Nos últimos anos a inseminação artificial tem sido muito difundida no Brasil, sendo utilizada em vários rebanhos bovinos no intuito de aprimorar geneticamente os animais. Entretanto, cerca de 94% dos cruzamentos do rebanho de corte nacional são realizados ainda através da monta natural, remetendo o país a uma demanda anual de aproximadamente 360 mil touros, considerando 20% de reposição por ano. Este fato revela a importância de se usar touros de boa qualidade nas estações de monta.

Vários produtores rurais compram touros sem nenhuma avaliação da qualidade desses animais. Um touro superior deve apresentar, além de bons atributos de peso, carcaça e conformação (prepúcio, sistema locomotor, etc.), três características básicas: um bom comportamento sexual, uma boa circunferência escrotal e uma boa qualidade espermática. Os reprodutores devem atingir a puberdade precocemente, ou seja, devem apresentar rápido desenvolvimento reprodutivo. Essa fase na reprodução caracteriza-se como a idade em que ocorre rápido crescimento testicular, mudanças no modelo de secreção do hormônio luteinizante, que promove um incremento gradativo dos níveis sangüíneos de testosterona e, como conseqüência, a iniciação da espermatogênese. A antecipação da puberdade proporciona um retorno mais rápido do investimento, um aumento da vida útil dos touros, maior intensidade de seleção no rebanho, redução do intervalo de gerações e aumento do incremento genético por unidade de tempo. Para que o touro expresse todo o seu potencial genético e seja precoce sexualmente é de extrema importância que ele esteja em um ambiente favorável, com o mínimo de fatores estressantes e com alimentação adequada. O macho deve começar sua vida reprodutiva apenas quando atingir a maturidade sexual e com um número menor de fêmeas. É interessante ressaltar que animais zebuínos são mais tardios quando comparados com o gado europeu. Em contrapartida, a rusticidade dos primeiros garante um melhor desempenho a pasto dos touros nas condições climáticas existentes no Brasil central. A tabela abaixo indica as idades à puberdade e à maturidade sexual para Bos taurus indicus e Bos taurus taurus.


O comportamento sexual de touros deve ser avaliado para se buscar maiores taxas de fertilidade nos rebanhos, melhorar a relação touro: vaca nos sistemas de monta natural, reduzindo custos e alcançando maior lucratividade. O termo comportamento sexual pode ser dividido em dois componentes: a libido, que significa a avidez do reprodutor em montar e copular e a capacidade de serviço, definida como o número de montas realizadas pelo macho em um determinado período. Alguns autores afirmam que a libido e a capacidade de serviço em touros sofrem forte influência de fatores genéticos, e que alterações no bem-estar destes reprodutores podem comprometer seu comportamento sexual.

Em diversos estudos realizados observou-se baixa correlação da libido com a qualidade seminal e com a circunferência escrotal de touros, isto é, touros com testículos grandes e sêmen de alta qualidade não têm necessariamente um comportamento sexual desejável. Em reprodutores zebuínos sabe-se que este comportamento sexual pode ser afetado pelo seu temperamento agitado e pelo estabelecimento de hierarquia. Os touros europeus são menos inquietos e apresentam, normalmente, uma melhor libido quando comparados com animais zebuínos.
Outra característica importante a ser avaliada em touros é a circunferência escrotal. Esta mensuração, além de ser uma ferramenta imprescindível, é facilmente obtida e de alta confiabilidade. Em animais zebuínos o crescimento testicular ocorre de forma gradativa do nascimento aos 33 meses de idade, quando há sua estabilização. A circunferência escrotal possui altas correlações positivas com peso corporal e idade do animal, além de apresentar também uma relação com produção quantitativa e qualitativa de sêmen. Um reprodutor zebu com 24 meses de idade deve ter, no mínimo, 30 centímetros de circunferência escrotal. Alguns autores ainda reconhecem e ressaltam a importância da mensuração bidimensional (largura e comprimento) como método complementar à circunferência escrotal.

Para que os reprodutores sejam avaliados de forma completa deve-se aliar à análise do comportamento sexual e da circunferência escrotal o exame andrológico dos touros. Tal exame consiste em boa anamnese e conhecimento do histórico dos animais, um exame clínico minucioso geral e específico do sistema genital, observando a presença de dois testículos, sua simetria e consistência. O mesmo deve ser feito com a cauda do epidídimo. O sêmen deve ser avaliado considerando suas características físicas (volume, coloração, turbilhonamento, motilidade, vigor e concentração) e morfológicas (análise de defeitos maiores e menores nos espermatozóides). Há uma correlação direta entre motilidade, vigor e concentração dos espermatozóides com seu turbilhonamento. Assim pode-se avaliar o potencial dos touros e determinar o número de fêmeas a serem colocadas nos lotes que eles irão servir. O que normalmente se vê na prática é a utilização de 1 touro para 25 vacas. Esta relação muitas vezes subestima a capacidade reprodutiva dos touros. Animais com bom comportamento sexual, boa circunferência escrotal, alta porcentagem de espermatozóides móveis e baixas taxas de patologias espermáticas podem servir um número maior de fêmeas. Estudos mostram que touros testados têm maior capacidade de servir nos primeiros dias da estação de monta, aumentando o peso a desmama dos bezerros, já que estes serão produzidos mais cedo na estação de nascimento. Pesquisadores afirmam não existir diferenças significativas na taxa de fertilidade do rebanho quando se utiliza relações de 1 touro: 20 vacas, 1 touro: 40 vacas e 1 touro: 60 vacas. Em 2000, Fonseca avaliou as taxas de gestação em um rebanho de fêmeas Nelore, acasaladas coletivamente com touros previamente testados, na proporção touro: vaca de 1: 40 e 1: 60, em estação de monta de 120 dias. A tabela seguinte mostra os resultados encontrados, indicando que os reprodutores suportaram o desafio e não apresentaram sinais de esgotamento.


O sucesso da melhoria da relação touro: vaca só pode ser alcançado em função da realização de adequado manejo dos animais. É preciso estar atento aos diversos fatores que podem provocar degeneração testicular e outros problemas nos reprodutores. Temperaturas elevadas, condições estressantes, deficiências nutricionais e lesões testiculares devem ser evitadas no intuito de preservar a saúde testicular e a qualidade espermática. A condição dos pastos também é relevante, já que pastos “sujos” dificultam a detecção de vacas em cio pelos touros. A realização desses procedimentos na escolha de touros de corte para monta a campo em conjunto com os cuidados necessários para um bom desempenho destes animais fornecem ao produtor uma segurança maior em relação à qualidade e à quantidade dos bezerros produzidos, proporcionando assim, um retorno financeiro mais satisfatório.

Texto revisado por Gustavo Melo, médico veterinário, Equipe ReHAgro

Referências Bibliográficas:


G.E. Freneau; V.R. Vale Filho; A.P. Marques Jr.; W.S. Maria. Puberdade em touros Nelore criados em pasto no Brasil: características corporais, testiculares e seminais e de índice de capacidade andrológica por pontos: Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., vol.58, nº.6, Belo Horizonte, dezembro de 2006.
M.D. Santos; C.A.A. Torres; J.D. Guimarães; J.R.M. Ruas; G.R. Carvalho. Libido de touros Nelore: efeito da proporção touro: vaca sobre a taxa de gestação: Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., vol.55, nº.3, Belo Horizonte, junho de 2003.
J. Osorio; A.S. Carmo; M.G.T.Gómez; C.A.Clemente; M.Henry. Avaliação da biometria e morfologia testicular em machos Guzerá criados a pasto com suplementação volumosa na seca na região do cerrado: Laboratório de Reprodução Animal, Escola de Veterinária - Universidade Federal de Minas Gerais.
J. Osorio; A.S. Carmo; M.G.T.Gómez; C.A.Clemente; M.Henry. Parâmetros de desenvolvimento testicular de touros da raça Guzerá criados na região do cerrado em Minas Gerais: Laboratório de Reprodução Animal, Escola de Veterinária - Universidade Federal de Minas Gerais.
V.J. de Andrade. Manejo Reprodutivo de Bovinos de Corte: Departamento de Zootecnia, Escola de Veterinária – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.

:: Comentários ::

... -
Estudante

Este artigo é ótimo, como fonte de pesquisa, já que estava procurando artigos sobre a reprodução dos touros e vacas. Muito proveitoso.
..............................................................................................................................................................

Escreva aqui o seu comentário sobre o artigo. Ele é muito importante para gerar discussões produtivas sobre o assunto. Contribua!

Comentários
Nome:
Vínculo ao Agronegócio:
Comentário: