Não deixe de ler o artigo "Como anda nossa qualidade interna?", por Carlos Alberto de Carvalho.
Artigos Técnicos
Publicado em 09/07/2007 por Carlos Alberto de Carvalho, gerente da Fazenda São João, Equipe ReHAgro

O ReHAgro nasceu de algumas convicções, entre elas “de que a diferença está nas pessoas, e da enorme distância entre o real e o possível” - palavras do Clóvis Eduardo que não me esqueço, e me servem de aprendizado não só na área humana.

Há poucos dias estava assistindo uma palestra sobre perspectivas para o agronegócio e ouvi de um especialista no assunto a afirmação de que o produtor deve se preparar para enfrentar achatamentos de preço, que serão inevitáveis em qualquer atividade. A sugestão dada para se preparar para a tal situação em primeira instância é estar atento e diminuir a distância entre o real e possível em todos os processos.

Lembrei-me então da admirável visão do diretor do ReHAgro, e pude entender que ela vale não só para  recursos humanos, mas para tudo em qualquer atividade. Será que estamos atentos para esta realidade? Em cada um de seus processos qual é a distância entre o real e o possível? Se ela for grande fique atento, isto poderá lhe tirar da atividade. A qualidade e a produtividade do que você faz, está muito distante do possível potencial do que se pode atingir?

Dois exemplos reais retratam bem a fala do Clóvis: duas fazendas, duas equipes, duas formas de gestão.

Quando trabalhava com assistência técnica me lembro bem de uma empresa que aqui vamos chamar de Fazenda Pinheirinho, que possuía seis funcionários. O gerente Marcos direcionava os trabalhos, era honesto e trabalhador - requisitos suficientes para assumir o cargo, no conceito do proprietário. Mas era muito inábil para se relacionar com seus subordinados, gerando neles os mais variados sentimentos. Tinha como principal característica a falta de autocontrole ao corrigir, não sabia elogiar, inspirava medo em seus subordinados, mas tentava se atualizar tecnicamente.

Nelson, o responsável pelo gado de leite, sempre tratava os bens da fazenda de maneira pouco comprometida; ex. “este trator de vocês está com os pneus ruins”, “ as suas vacas estão carrapatadas”, além disso vivia reclamando de seu gerente pra todos os cantos menos pra ele. Marconi, o responsável pelo plantio, conversava com Nelson apenas o necessário, desavenças antigas. Reclamava que o Nelson não era solidário a ele quando precisava de apoio no setor agrícola, mas em compensação não oferecia ajuda ao companheiro quando este também precisava. Os dois eram desconfiados, sempre achavam que o outro fazia fofoca a seu respeito para o gerente, que por sua vez sabia das desconfianças, mas não fazia questão de esclarecimentos.

Entre os funcionários havia uma unanimidade de opiniões que Marcos não sabia ouvir, na verdade nem fazia questão que conversasse com ele assuntos de serviço. Quando recebíamos visitas não era raro algum funcionário se aproximar do visitante querendo saber salários em sua região, e possibilidade de vagas, pois estavam atrás de qualquer oportunidade para ganhar um pouco mais.

A desconfiança predominava, e era percussora de inúmeras inferências e fofocas, as falhas e erros eram sempre encobertos pois ninguém queria se comprometer, e quem o fizesse recebia o título de “bajulador” e era considerado um traidor. O que reinava era: não faça nada que não for sua obrigação, portanto faça o mínimo.

Das visitas que já realizei em empresas rurais com intuito de conhecer novas experiências, e busca de aprendizado, pude conhecer várias realidades, interessantes formas de conduzir empresas e negócios. De todas, uma me chamou a atenção da qual não consegui esquecer.
Uma granja de suínos, nome Tia Iracema, o gerente Júlio mais do que de suínos entendia de gente, era um maestro de 26 funcionários, tinha a admiração das pessoas, liderava com a participação de todos, fazia questão de ouvi-las, ouvia sem interromper.

A empresa tinha valores definidos que eram praticados constantemente, as ações positivas eram valorizadas, tudo que era dito era apurado frente a frente, olho no olho. Júlio não queria ouvir o que não pudesse ser comprovado, o que gerava responsabilidade nas pessoas na hora de falar, fofocas não existiam.

A granja possuía quatro setores, cada gerente reproduzia o sistema a seus subordinados, o comprometimento era um dos valores mais praticados, o ambiente era contagiante e energizava as pessoas, novos funcionários assimilavam o clima logo, as pessoas tinham prazer em se relacionar.

Os funcionários conheciam os resultados da empresa, vibravam com resultados positivos, sentiam quando as metas não eram alcançadas, eram voluntários em qualquer situação, sempre estavam dispostos a fazerem cada vez mais e melhor.

É possível, mesmo sem conhecer, imaginar qual equipe é mais comprometida, ou qual das empresas está próximo do ideal, ou seja do possível. A fazenda Pinheirinho tinha seis funcionários, que participavam do dia-dia executavam o recomendado, não gerava problemas, como eles mesmo diziam quando eram perguntados sobre como era trabalhar ali, “ não é ruim não, dá pra ir levando”, ou “não tem opção, a gente tem que trabalhar”. Na granja era diferente, as respostas eram “trabalhar aqui é um dos prazeres que tenho na vida” ou “ estar com meus companheiros é tão bom quanto estar com minha família”. A fazenda Pinheirinho conseguia atingir os resultados sim, mas não eram sustentáveis pois eram conseguidos pela pressão e pelo poder. Já na Tia Iracema as tarefas eram tomadas como metas pessoais, as pessoas queriam atingir os resultados inicialmente para satisfazer a si mesmo, e depois para atender a empresa. O Marcos tinha a filosofia de fazer com que as pessoas fizessem, o Júlio tinha a capacidade de persuadir as pessoas de forma que elas quisessem fazer.

As conseqüências... como medir? Será possível enxergar todo o prejuízo causado por uma equipe mediana, que faz as atividades mas com baixo comprometimento? A diferença em ter uma boa equipe e uma equipe intensamente energizada é a diferença entre o real e o possível. È bom lembrar que o insumo ao qual nos referimos, liderança, não custa mais, apenas aperfeiçoamento do candidato a líder, a granja liderada pelo Júlio não tem um custo a mais do que a fazenda Pinheirinho do Marcos, por conseguir pessoas altamente energizadas e comprometidas com os resultados.

Sabemos que cada vez mais precisamos de coração e mente das pessoas em vez de somente braços, não dá pra continuar com a filosofia de vigiar as pessoas. Temos exemplos de que isto é possível, para sairmos do real em direção ao possível, as mudanças são imprescindíveis, inicialmente em nós mesmos, depois no ambiente e por último nas outras pessoas.


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