Deficiência de zinco e ocorrência de paraqueratose em bezerros de corte
De ocorrência comum em fazendas de crias, a paraqueratose é uma doença de pele que afeta principalmente bezerros lactentes, e está intimamente relacionada à deficiência de zinco no animal.
O zinco desempenha papel importante em numerosos sistemas enzimáticos; na produção, armazenamento e secreção de hormônios (insulina e corticóides); na reprodução (desenvolvimento dos órgãos sexuais, espermatogênese, lactação, etc); no crescimento e proteção de membranas; no crescimento da microbiota ruminal; possui função antioxidante e sua deficiência está diretamente relacionada à doenças de pele.
Segundo Miller (1962)1, a deficiência de zinco em bezerros manifesta-se por crescimento subnormal, alopecia e paraqueratose, principalmente nas regiões do focinho, orelhas, pescoço, escroto, tornozelos e parte de trás dos membros posteriores.
Bezerros carentes em zinco apresentam a pele com consistência áspera e enrugada, podendo dar origem à fissuras e predispor a infecções secundárias. Além de ter seu crescimento normal comprometido pela deficiência de zinco, bezerros com paraqueratose sofrem desvalorização pelo aspecto anormal da pele.
A deficiência de zinco advêm da baixa concentração do elemento nas pastagens, juntamente com a falta de suplementação mineral. Resultados de análises de forrageiras nativas e cultivadas das áreas de cerrado, realizadas no laboratório da Embrapa Gado de Corte2, demonstraram que 90% das amostras apresentaram teores de Zn abaixo do nível considerado mínimo para um bom desempenho animal.
Os requerimentos para bovinos variam de 60-100 ppm dependendo da idade, estado fisiológico, ambiente e saúde do animal5. Animais mais velhos apresentam menor capacidade de absorção, assim como animais que já deixaram de crescer. Quanto maior a taxa de crescimento, maior é o requerimento. Infestações parasitárias, coccidiose, sudoração excessiva e situações de estresse em geral, também aumentam os requisitos do animal.
Quando há alta exigência de um mineral no organismo, este trata de promover uma maior absorção e ao mesmo tempo reter ao máximo o elemento, diminuído assim sua excreção.
No caso das vacas de corte, as pastagens deficientes em zinco e seu período de maior exigência (pós-parto) fazem com que seu organismo deixe de excretar zinco através do leite, para que seu metabolismo normal não fique comprometido. Com isso, a quantidade de zinco recebida pelo bezerro através do leite é mínima ou inexistente, predispondo então a um quadro de paraqueratose. Daí vem a necessidade de uma suplementação “extra” de zinco nesta fase.
É importante salientar que mesmo os níveis de zinco pesquisados no organismo estando normais, justamente pelo mecanismo de homeostase, o animal pode estar passando por um momento de sub-produção, não expressando totalmente sua capacidade produtiva. Além disso, segundo Underwood (1981)4, nenhum desses parâmetros de pesquisa oferece fidedignidade suficiente para permitir um diagnóstico seguro da deficiência do elemento no organismo.
Aspectos clínicos de paraqueratose:

Fonte: Ferreira P. M.

Fonte: Ferreira P. M.

Fonte: Ferreira P. M.

Fonte: Ferreira P. M.
Mineralização
A importância de se buscar níveis adequados de zinco no mineral, afim de superar seu déficit nas pastagens, torna-se ainda maior nos meses de parição e aleitamento, por ser este o período de maior exigência do mineral.
O gráfico a seguir ilustra diferentes programas nutricionais quanto ao atendimento ou não das exigências de minerais:
Fonte: Ferreira P. M.
Como pode ser observado, forrageiras de má qualidade apresentam níveis muito baixos do elemento, predispondo a sintomas clínicos da doença. Já forragens de boa qualidade, geralmente atendem aos requisitos mínimos para que a manifestação clínica da doença não ocorra, porém costumam estar abaixo dos níveis ótimos para a saúde animal. Portanto deve-se buscar um sistema nutricional que atenda às necessidades fisiológicas dos animais.
Um estudo realizado pela EMBRAPA2, onde se buscou avaliar a deficiência subclínica de zinco em vacas de cria e sua relação com a higidez de seus bezerros, mostra o efeito do nível de suplementação zinco sobre a ocorrência de paraqueratose em bezerros. Neste estudo, um lote experimental de 128 vacas nelore foram suplementadas através de suplemento mineral completo, porém com diferentes níveis de zinco, nas seguintes proporções:
T1 – Sem zinco;
T2 - 30 miligramas/quilo de Zn/dia (forma orgânica, Zn-lisina-metionina);
T3 – 30 miligramas/quilo de Zn/dia (sulfato de zinco);
T4 – 60 miligramas/quilo de Zn/dia (sulfato de zinco).
Os resultados encontrados estão apresentados na tabela abaixo

Incidência de doenças ocorridas nos bezerros do nascimento ao desmame, nos respectivos tratamentos
O trabalho mostra o efeito positivo da suplementação com zinco, na proporção de 60 miligramas/kg de Zn/dia, na redução dos quadros da doença em bezerros.
É importante conferir, além da concentração de zinco sal mineral, se está havendo realmente a ingestão do mineral na quantidade exigida. Garantir tamanho de cocho e acesso ao mineral torna-se importante neste caso.
Embora não existam muitos estudos mostrando o efeito do aumento dos níveis de zinco no mineral na redução da ocorrência de paraqueratose em bezerros de corte, resultados práticos têm sido encontrados nas fazendas assistidas pela Rehagro, onde a suplementação de vacas na estação de nascimento, com mineral contendo 5.000 ppm de zinco/kg, reduziu satisfatoriamente a ocorrência da doença nos bezerros.
*Artigo revisado por Lívio Molina, médico veterinário, professor de Clinica de Ruminantes da Escola de Veterinária - UFMG
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARBOSA, F.A,; GRAÇA D.S.; Junior F.V da S.; Deficiências minerais de bovinos em pastagens. Diagnóstico e suplementação. ARTIGOS CIENTÍFICOS. Acesso ao site: http://www.agronomia.com.br/conteudo/artigos/artigos_deficiencias_minerais.htm. (10/07/2007)
5 FERREIRA, P. M.; CARVALHO, A. U; FILHO, E. J. F. et al. Doenças carenciais e suplementação mineral. Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais. Abril,2005.
1 MILLER, J.K.; MILLER, W.J. Experimental zinc deficiency and recovery of calves. Journal of Nutrition, v.76, p.467-474, 1962.
2 MORAES, S da S.; NICODEMO, M. L. F.; VAZ, E. C.; PIRES, P. P.; CATANANTE, M. C.; THIAGO, L. R. L. de S.; VIEIRA, J. M.; FONSECA, E. M. Avaliacao da deficiência subclínica de zinco em vacas de cria e a relação com a higidez de seus bezerros. Campo Grande: Embrapa Gado de Corte, 2001. 7 p. (Embrapa Gado de Corte. Comunicado Técnico, 65). CNPGC.
TOKARNIA, C. H.; DÖBEREINER, J.; PEIXOTO, P. V. Deficiências minerais em animais de fazenda, principalmente bovinos em regime de campo. Pesquisa Veterinária Brasileira, Rio de Janeiro, v. 20, n. 3, p. 127-138, jul./set. 2000.
3 UNDERWOOD, E.J. The mineral nutrition of livestock. 2. ed. London : Commonwealth Agricultural Bureaux, 1981. lS0p.
TOKARNIA, C. H.; DÖBEREINER, J.; PEIXOTO, P. V. Deficiências minerais em animais de fazenda, principalmente bovinos em regime de campo. Pesquisa Veterinária Brasileira, Rio de Janeiro, v. 20, n. 3, p. 127-138, jul./set. 2000.