Leia aqui o artigo "Streptococcus agalactiae: um vilão dos seus lucros!", por Letícia Mendonça e Lívio Molina.
Artigos Técnicos
Publicado em 14/09/2007 por Letícia Caldas Mendonça, mestranda em Ciência Animal - EV-UFMG; Lívio Ribeiro Molina, Prof. Adjunto do Dept. de Clínica e Cirurgia Veterinárias da EV-UFMG

Uma das mais importantes bactérias causadoras principalmente da mastite subclínica, aquela que não apresenta sinais visíveis da inflamação, é o Streptococcus agalactiae. O S. agalactiae é uma bactéria quase exclusiva da glândula mamária, ou seja, seu ambiente ideal para colonização e multiplicação é o interior do úbere da vaca. Geralmente provoca quadros de mastite subclínica e menos freqüente de mastite clínica, resultando em redução na produção de leite, aumento na contagem de células somáticas (CCS), gastos com medicamentos e mão-de-obra, descarte de leite e aumento na freqüência de descarte involuntário de fêmeas.

O S. agalactiae é um agente contagioso, sendo transmitido principalmente pelas teteiras e pelas mãos dos ordenhadores e de maneira menos importante por qualquer superfície contaminada com leite de vacas infectadas; a ordenha é o momento oportuno para que essa bactéria seja transmitida de uma vaca doente para uma vaca sadia. Com isso, a falta de higiene e cuidados na ordenha das vacas são aliados desse microorganismo.

E por que essa bactéria, invisível aos nossos olhos de tão pequena, consegue causar um estrago tão grande? O perigo se esconde exatamente na forma subclínica da mastite causada pelo S. agalactiae: como não a enxergamos diretamente, ela pode permanecer no rebanho por anos, reduzindo lucros, sem que seja observada.

Como tentar eliminar essa bactéria dos rebanhos? O que fazer com as vacas já infectadas? A terapia da vaca seca, que é a aplicação de antibiótico intramamário de longa duração nos quatro tetos do animal, no dia da secagem é a opção conhecida mais efetiva para a eliminação do S. agalactiae. Essa bactéria é bastante sensível aos antibióticos, ou seja, ela pode ser eliminada através deste tratamento. Os experimentos mostram que os antimicrobianos mais eficientes no combate ao S. agalactiae são os beta-lactâmicos, como as penicilinas e as cefalosporinas.


Figura 1: Coleta de amostra de leite individual para cultura microbiológica

Quanto às vacas em lactação comprovadamente infectadas por S. agalactiae pela cultura de leite em laboratório, existe uma alternativa de tratamento antibiótico denominada Blitz Terapia ou terapia de ataque. Consiste em tratar todas as vacas positivas para este microrganismo, independente de estar manifestando a forma clínica ou subclínica da doença. Diferentemente do que ocorre com outras bactérias, cuja taxa de cura microbiológica (eliminação do microorganismo) durante a lactação na maioria das vezes não ultrapassa 30%, o tratamento para S. agalactiae durante a lactação, se realizado corretamente, pode chegar a 100%. Ocorre redução da CCS tanto individual (de 10 até 90% de redução) como do tanque de refrigeração. E esses são resultados validados em condições brasileiras. A justificativa para recomendação da Blitz Terapia se baseia na sensibilidade do S. agalactiae ao tratamento e no seu potencial para causar intensa destruição das células produtoras de leite.


Figura 2: Aplicação do antimicrobiano intramamário na Blitz Terapia

Contudo, a utilização da Blitz Terapia para controle da mastite por S. agalactiae deve ser discutida criteriosamente entre o veterinário, os funcionários e proprietário da fazenda. A avaliação da relação custo-benefício deve começar com o manejo de ordenha, pois de nada adianta investir em tratamento antibiótico se a prevenção da doença não é feita adequadamente. O manejo correto na ordenha deve incluir o uso de luvas, teste da caneca para diagnóstico precoce de casos clínicos, secagem dos tetos com papel-toalha descartável, pré e pós-dipping com solução germicida na concentração e forma de aplicação certa. Ainda na ordenha, o tratamento imediato dos casos clínicos de mastite, limpeza e manutenção programada do equipamento e/ou utensílios de ordenha e segregação dos animais doentes são fundamentais. Fora da ordenha, podemos citar a limpeza e higiene do ambiente de permanência dos animais, anotações das ocorrências e avaliação dos índices, adequação da qualidade da água utilizada e treinamento constante dos funcionários, entre tantas outras medidas importantes de manejo. Essas práticas que visam à prevenção da doença são pré-requisitos para a implantação da Blitz Terapia.

Se o manejo das vacas é realizado corretamente e com pleno comprometimento e conscientização dos responsáveis por essas tarefas, aí sim poderá ser a hora de avaliar objetivamente a implantação da Blitz Terapia, que deve considerar, inclusive financeiramente, todas as etapas do processo. A primeira etapa consiste nos exames de cultura microbiológica do leite de todos os animais em lactação para identificação do S. agalactiae, que deve ser realizado em laboratório de referência. A próxima etapa envolve a escolha adequada do antibiótico a ser utilizado e o planejamento dos dias de tratamento, levando em conta o tempo de descarte do leite com resíduo. Com o resultado da cultura microbiológica em mãos, realiza-se o tratamento nas vacas positivas para S. agalactiae. A avaliação dos resultados pode ser feita através de novas culturas microbiológicas do leite, aos 14 e 21 dias após o tratamento e o resultado negativo dessas culturas indica o sucesso da terapia. Todos os animais que virão a parir e que forem introduzidos no rebanho devem ser examinados antes de serem incorporados aos lotes em lactação. O monitoramento do rebanho quanto à condição de livre ou de controle do S. agalactiae pode ser realizado através da cultura microbiológica mensal do leite do tanque de refrigeração e de todas as vacas anualmente.

Então, depois de decidir sobre a viabilidade da implantação da Blitz Terapia, mãos a obra!! O desenvolvimento do trabalho e as normas a serem seguidas devem sempre ser orientadas por um veterinário; a participação efetiva de todos da fazenda também é essencial. E o resultado, com todo o planejamento e execução adequadas não poderá ser melhor!!

Caso seja decidido que ainda há tarefas a serem cumpridas antes de um passo importante como a Blitz Terapia, o planejamento das ações e o comprometimento com o objetivo proposto devem estar bastante claros para toda a equipe da fazenda. Um programa de controle de mastite e melhoria da qualidade de leite depende fundamentalmente de treinamento e capacitação dos funcionários, trabalho em equipe e constante busca de novas informações e tecnologias.

E não esqueça: o S. agalactiae é uma bactéria contagiosa que provoca uma redução expressiva na produção de leite, sendo considerada um vilão dos seus lucros! Entretanto, pode ser controlada e erradicada através das boas práticas de manejo de ordenha em conjunto com as terapias antimicrobianas na lactação e no período seco.  


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