"Cana de açúcar na alimentação de ovinos", por João Neto, médico veterinário da ATO, Assessoria Técnica em Ovinocultura
Artigos Técnicos
Publicado em 19/10/2007 por João Pires de Araújo Neto, médico veterinário da ATO, Assessoria Técnica em Ovinocultura

O rebanho ovino brasileiro vem aumentando ano a ano acompanhando a demanda de produtores e de consumidores, principalmente para carne, o que exige que as propriedades utilizem o planejamento estratégico como ferramenta de trabalho. Um dos planejamentos mais importantes a se fazer é o nutricional, principalmente para a época da seca, que com o aquecimento global, está cada vez mais severa.

Nesta época do ano, as pastagens têm um decréscimo de aproximadamente 80% de sua produção de matéria seca (MS).

Um alimento bastante usado durante estiagem é a cana de açúcar, que se torna importante por apresentar seu maior valor nutritivo, representado principalmente pelo conteúdo de sacarose, exatamente nesta época. Além disso, sua produção por hectare é altíssima, quando bem manejada, comparada com outras forrageiras, conferindo uma maior produção de matéria seca por hectare.

Antes de falar sobre os valores nutricionais da cana de açúcar, julgamos importante colocar algumas considerações sobre a condução da lavoura de cana.

Como comentado anteriormente, a cana de açúcar possui alta produção de matéria seca por hectare, além de ser citada como uma cultura de fácil condução, o que não pode ser confundido com baixa tecnologia. Segundo o engenheiro agrônomo Silvino Moreira do ReHAgro, em artigo técnico postado neste site, para se obter uma alta produção, é necessário que o canavial seja bem manejado, principalmente em aspectos como correção do solo, adubação e controle de pragas e invasoras. Também é preciso ficar atento as cultivares usados no plantio, que podem ser indicadas ou não para a região, além de haver épocas diferentes de plantio para cada situação (cana de ano e meio, cana de inverno e cana de ano).

Deve se ficar atento na escolha da área, levando em consideração a proximidade do local de utilização para facilitar parar a mão de obra e dimuir gastos com transporte.

Além disso, devemos lembrar que o custo de implantação muitas vezes é considerado alto, mas deve ser diluído ao longo da vida útil do canavial, ou seja, de 4 a 6 anos, em média.

O mais adequado a se fazer é entrar em contato com um engenheiro agrônomo para que sejam tomadas as melhores decisões que vão aumentar a produtividade de seu canavial, e consequentemente, maximizarem os lucros dentro do sistema de produção de ovinos.


Canavial bem manejado.

Alguns aspectos nutricionais da cana de açúcar

A cana de açúcar utilizada na alimentação animal possui alto teor de energia, no entanto é um alimento incompleto nutricionalmente. Possui um baixo teor de proteína (1 a 3%), e de minerais principalmente o fósforo. Estes teores devem ser corrigidos a fim de preencher as necessidades nutricionais dos animais. O teor de minerais na dieta pode ser facilmente corrigido pela suplementação mineral. Para a correção do déficit protéico podemos utilizar fontes de nitrogênio protéico (ex: soja, milho, farelo de arroz etc), e não protéicos (ex: uréia pecuária).

A riqueza energética da cana (acima de 60% de NDT quando madura) é proveniente, principalmente, de seu elevado teor de sacarose, sendo facilmente consumida pelos animais pelo seu sabor adocicado.

A cana quando madura, possui um FDN (fibra em detergente neutro), em torno de 50%, que é baixo em comparação com as gramíneas tropicais que ficam em torno de 65 a 70%. No entanto, essa fibra é de baixa digestibilidade, em torno de 20%. Isto pode causar uma limitação no consumo de matéria seca devido ao enchimento ruminal e a menor taxa de passagem da digesta o que pode diminuir o desempenho dos animais, dependendo da categoria. A taxa de passagem pode ser alterada através do tamanho de partícula. A cana bem moída irá ter uma taxa de passagem mais elevada não limitando assim o consumo diário de alimento.

Esta forrageira possui alto teor de carboidratos prontamente fermentáveis, e seu fornecimento pode ser realizado em conjunto com fontes de nitrogênio não protéico (NNP), basicamente uréia, para a correção da proteína. No entanto, somente o NNP pode ser insuficiente para animais com maiores necessidades nutricionais, como cordeiros, sendo então necessário o fornecimento de uma fonte de proteína verdadeira para o suprimento de aminoácidos essenciais, além da uréia.

Uso prático da cana na alimentação de ovinos

Quando utilizamos cana com uréia, devemos tomar o cuidado com a adaptação dos animais. A uréia é altamente solúvel em água e pode haver insuficiência na utilização da amônia liberada no rúmen caso os mesmos não estejam adaptados. A uréia pode ser oferecida juntamente com a cana, diluindo a primeira em água e esta solução é distribuída sobre a forragem. Neste manejo é importante a adição de sulfato de amônio em uma proporção de nove partes de uréia e uma de sulfato. O enxofre é importante para a síntese protéica dos microorganismos ruminais. Outra forma é através de sal proteinado, o que diminui os riscos diários de diluição, mas é preciso atentar para as chuvas, mantendo os cochos cobertos.

Para os cordeiros mais novos, abaixo de 3 meses principalmente, que estão em fase de grande crescimento, com uma baixa conversão alimentar e um ganho de peso acelerado (acima de 200g/dia), é preferível o uso de feno de boa qualidade. Essa preferência é ocasionada pela fibra de melhor qualidade dos fenos, pois estes cordeiros ainda não são ruminantes completos, ou seja, são pré-ruminantes, e se alimentados com fibra de baixa qualidade podem diminuir o desempenho devido ao enchimento ruminal.

Para cordeiros em terminação, optando pelo uso da cana-de-açúcar, esta deve ser oferecida em partículas pequenas que facilitam o ataque bacteriano no rúmen e a taxa de passagem pelo trato gastrointestinal. Esta medida deve ser adotada para todas as categorias que receberão a cana, o que determina atenção ao maquinário no que diz respeito ao corte das facas.

O uso de forrageiras de pior qualidade poderá acarretar a necessidade de fornecimento de concentrados, em qualidade e/ou quantidade superiores, para manter o correto balanceamento da dieta.

Devemos então colocar tudo na ponta do lápis para saber qual volumoso fornecer para os animais, e qual estratégia nutricional utilizar.


Lote de ovelhas se alimentando de cana picada

                

Bibliografia

NATIONAL RESEARCH CONCIL, Nutrient requirements of small ruminats.
Washinton DC: National Academy Press, 1985.99p.

ANDRADE, M.A.F&M.N., Pereira. Performance of Hostein heifers on frese sugarcane as the only dietary forrag.
Jornal of Dairy Science, 82 (Supp,1): 91,1999.

VALVASSORI,E,; PAULINO, V,T Alguns aspectos sobre o uso de cana de açúcar na alimentação de ruminantes,2007,
Artigo em Hypertexto. Disponível em www.infobibos.com/Artigos/2007_3/ruminantes/index.htm> Acesso em 09/10/2007.

:: Comentários ::

Marcos Rogério Vivas Acha -
Produtor - Ovino

A presente matéria foi de grandiosa impotância para mim, uma vez que tenho cana e tinha dúvidas quanto ao fornecimento da mesma para minhas ovelhas. Conclui que devo fornecer com tamanho menor, ou seja, picar melhor o material. Grato.
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wellington vello cremasco tavares -
Produtor - Ovino

achei muito interessante todo o texto.Porém faltou clareza quanto ao uso do sal proteinado com a cana:"Outra forma é através de sal proteinado, o que diminui os riscos diários de diluição, mas é preciso atentar para as chuvas, mantendo os cochos cobertos." Como se usa o sal proteinado com a cana????? Grato.
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Thalmer Gouvêa Varotto - 23/09/2009 10:58
Estudante

Excelente artigo, bem informativo. Vou utilizar parte dele para a montagem de um seminário: Cana de açucar na alimentação de bovinos.
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Marcelo Moura -
Estudante

Bem explicativo usarei este artigo para apresentar um seminário sobre alimentação animal. Gostaria de ver também um artigo que fale sobre o uso do amendoim forrageiro na alimentação de bovinos e eqüinos, muito obrigado.
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