"Uso de níveis de nitrogênio uréico no leite como ferramenta de monitoramento de dietas em vacas leite", por Euler Rabelo, Equipe ReHAgro.
Artigos Técnicos
Publicado em 25/10/2007 por Euler Rabelo, médico veterinário, PhD em Nutrição Animal, coordenador da pós graduação em Pecuária de Leite e nutricionista da Fazenda São João (True Type)– Inhaúma/MG.

Uso de níveis de nitrogênio uréico no leite como ferramenta de monitoramento de dietas em vacas leite. 

               

A análise de nitrogênio uréico no leite é uma ferramenta interessante para se monitorar a adequação e a eficiência de utilização do nitrogênio em vacas leiteiras.  A análise de nitrogênio uréico no leite (NUL) oferece aos técnicos e produtores uma maneira de verificar como anda as dietas em relação à adequação da proteína bruta. Quando usado como rotina, técnicos e produtores podem utilizar os valores de NUL para ajustar os teores de proteína bruta da dieta às necessidades das vacas e, potencialmente, aumentar a produção ou reduzir os custos relacionados ao excesso de nitrogênio em dietas de vacas de leite.  O excesso de proteína na dieta, além de aumentar os custos da dieta sem potencial retorno em produção de leite, pode diminuir a eficiência reprodutiva em rebanhos leiteiros através dos efeitos deletérios no sistema reprodutivo da fêmea (útero e ovário) diminuindo a fertilidade das vacas. Por outro lado, a falta de proteína na dieta pode também limitar a produção de leite pela diminuição de precursores para a síntese do leite na glândula mamária. 

A figura 1 é uma descrição sucinta do metabolismo de nitrogênio em uma vaca leiteira. O nitrogênio absorvido pelo sangue de uma vaca de leite resulta da difusão de amônia pela parede do rúmen e transporte de aminoácidos e peptídeos do intestino delgado. A amônia é tóxica para a vaca e é rapidamente convertida em uréia pelo fígado. Os aminoácidos e peptídeos que não são utilizados para a síntese do leite são deaminados pelo fígado para energia e o nitrogênio convertido em uréia. Esta uréia se torna parte do pool de nitrogênio uréico do sangue.  O nitrogênio uréico do sangue pode seguir três vias: reciclagem, secreção no leite ou excreção pela urina. A reciclagem pela saliva e pela parede do rúmen pode ser uma importante fonte de nitrogênio para síntese microbiana em ruminantes. A uréia é também filtrada pelos rins e excretada do organismo pela urina. Quando o leite é secretado pela glândula mamária, a uréia difunde para dentro e fora da glândula mamária, equilibrando-se com a concentração no sangue. Por causa dessa troca, NUL é proporcional à uréia do sangue. 


Figura 1. Metabolismo do nitrogênio em ruminantes.

O teor de proteína bruta na dieta (PB, % de MS) é o fator com mais forte relação com nitrogênio uréico no leite (NUL).  Altas concentrações de NUL são geralmente atribuídas a causas especificas: excesso de proteína degradável no rúmen (PDR), pouca energia, desequilíbrio entre teores de carboidratos e proteína e excesso de proteína não degradável no rúmen (PNDR). Nenhum desses fatores analisados individualmente conta a história de maneira adequada.  Em termos simples, altas concentrações de NUL indicam um excesso geral de nitrogênio em relação a um determinado nível de produção de vacas e o contrário, baixas concentrações, indicam uma falta de nitrogênio.

Existem vários fatores que afetam a concentração de NUL no leite: produção de leite, raça, fase da lactação, ordenha da coleta, época do ano etc. O fator que mais afeta a concentração de NUL é a produção de leite.  A produção de leite regula a necessidade de nitrogênio para uma vaca em lactação alimentada de acordo as suas necessidades. Com o aumento da produção de leite quando as vacas são alimentadas segundo as recomendações nutricionais, as concentrações previstas de NUL aumentam linearmente devido ao maior consumo e excreção de nitrogênio. Concentrações de NUL são extremamente sensíveis a mudanças na produção de leite.  No gráfico 1 estão os níveis esperados de NUL de acordo com a produção de um animal. Os dados correspondem a uma vaca de aproximadamente 600 kg. Peso corporal deve também ser levado em consideração. Por exemplo, uma vaca da raça Jersey com um peso vivo de 400 kg é esperada ter uma concentração de NUL que é 3mg/dl maior que uma vaca holandesa com a mesma produção de leite. 

Gráfico 1. Variação da concentração de NUL e média de produção do grupo (Jonker , 1999).

Situações em que comumente encontramos níveis elevados de NUL no leite referem-se às dietas desbalanceadas em proteína bruta. O uso excessivo de uréia com o volumoso cana-de-açúcar pode determinar um excesso de PDR e valores elevados de NUL, principalmente quando a dieta não é suplementada com níveis adequados de energia. Situação semelhante ocorre quando vacas estão a pasto de boa qualidade com altos teores de proteína bruta e são suplementadas com concentrados protéicos com teores de proteína bruta acima do recomendado para atender as exigências de nitrogênio dos animais. 

Alguns pontos importantes devem ser respeitados na formulação de dietas para que as exigências de proteína sejam atendidas. O conhecimento dos níveis de produção, peso corporal e estágio de lactação do grupo de vacas para o qual a dieta deve ser formulada são de grande importância para o cálculo das necessidades nutricionais. A determinação da correta composição nutricional dos alimentos utilizados na dieta também é de grande importância. Forragens e subprodutos podem ter grande variação na composição bromatológica, daí a necessidade da análise dos alimentos quanto aos teores de nutrientes. Aspectos relacionados ao manejo alimentar devem ser também observados. A falta de mistura adequada dos ingredientes da dieta pode fazer com que as vacas selecionem alguns alimentos causando um desbalanço nutricional na dieta. Isso acontece em situações em que a mistura do concentrado ou da dieta não é feita corretamente, quando os alimentos não são misturados de maneira adequada em relação às quantidades e proporções e quando os animais podem selecionar os alimentos concentrados em relação às forragens. A falta de espaço adequado de comedouros também pode fazer com que haja um consumo desigual de concentrado entre as vacas de um mesmo grupo. Deve-se, portanto, conhecer bem o grupo de vacas que se está alimentando e conseqüentemente as suas necessidades, estar atento a composição dos alimentos que constituem a dieta como também certificar de que a dieta formulada se aproxime muito da dieta consumida pelos animais.

A análise de NUL pode ser feita no tanque de expansão com o objetivo de dar uma idéia da adequação geral da nutrição protéica no rebanho. Valores esperados geralmente situam-se entre 8 mg/dl a 14 mg/dl. A análise pode ser feita também individualmente no rebanho para se monitorar a adequação da dieta por grupo de manejo. Geralmente recomenda-se a coleta de pelo menos 10 a 15 vacas por grupo de manejo para uma representação adequada do lote. Valores médios de NUL de grupos de manejo acima de 2mg/dl acima do faixa apontada pelo gráfico ou abaixo necessitam de uma reavaliação da dieta dos animais, principalmente no que se refere aos níveis de proteína bruta na dieta.

O monitoramento dos níveis de níveis de nitrogênio uréico no leite é uma ferramenta barata e simples de monitorar o status protéico de dietas para vacas de leite.  Com o monitoramento contínuo, os técnicos e produtores podem ajustar os níveis de proteína da dieta para melhor atendimento das necessidades protéicas das suas vacas e potencialmente aumentar a lucratividade com a redução dos custos ou aumento de produtividade.


:: Comentários ::

andre -
Produtor - Gado de Leite

Ótimo texto. Gostaria de ver mais dicas!! Obrigado. Cianorte-PR
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Elivelton -
Consultor Técnico

Ótimo texto Euler. Aqui no RS temos esse problema em algumas propriedades, principalmente no inverno, onde as pastagens de Aveia, Azevém e também Trevo, elevam a proteína da dieta. Estas forragens têm PDR alta e normalmente falta energia nessas dietas, elevando o MUN para mais de 20 mg/dl. Fazendo um balanceamento adequado do nível de proteína dos concentrados e de alguns componentes de manejo, corrige-se este problema. Abraço
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veraldo j martins - 09/10/2009 10:05
Estudante

gratificante texto - acho de suma importância a informação e pesquisa! Meus agradecimentos - BH/MG
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Jose Alipio Faleiro Neto -
Estudante

Prezado Doutor Euler, tenho uma duvida, é colocado que a mistura da dieta pode fazer com que as vacas selecionem mais a dieta. Porém quando se trabalha com sistema de produção (intensivo nas águas) em pastos (adubados) o teor de proteína bruta dos mesmos também aumentam, e, sendo um sistema convencional de alimentação, não tem como fazer o mix citado como correto. Como acha que devo fazer o manejo nutricional do rebanho nestas condições? Temos pastagens de capim elefante com 95% de interceptação luminosa, com 17% de proteína bruta, mas não me lembro do NIDN e NIDA para fracionar esta proteína. Ótimo artigo. Abraço.
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Cristiana - 07/06/2010 13:12
Consultor Técnico

Só esqueceram de falar de quando o NUL dá abaixo do esperado...
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Bento José Ribeiro Neto - 13/06/2010 21:44
Produtor - Gado de Leite

Existe algum trabalho determinando níveis de NUL para gado Gir no Brasil?
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