Apesar de já ser bem conhecida por quem trabalha com ovinos, a urolitíase ainda é um problema de ocorrência comum, principalmente em feiras e exposições. Essa patologia tem impacto econômico negativo sobre a ovinocultura, pois atinge animais destinados ao abate, que constituem receita direta para o produtor, e atinge também reprodutores. Estes últimos possuem um valor individual maior e sua perda, comum em casos de urolitíase, implica em prejuízo econômico pois além do animal, perde-se também material genético de elevado valor zootécnico.
As fotos abaixo são de um borrego Dorper atendido no Hospital Veterinário da UFMG, gentilmente cedidas pelo Sr. Hélio Martins de Aquino Neto, Mestrando em Clínica de Ruminantes

Segundo o USDA (United States Department of Agriculture), em 2001 a ocorrência de urolitíase representou, em média, 3,1% das mortes de cordeiros dentre todas as patologias no país. Em rebanhos de até 5000 cabeças este valor foi de 9,7%, já em rebanhos acima de 5000 animais a perda de cordeiros atingiu o valor de 2,4%.
A urolitíase ocorre mais comumente em confinamentos com dietas ricas em fósforo. Dados do hospital veterinário da FMVZ-USP (Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo), num período de oito anos, demonstram uma alta freqüência (8,6%) de casos dentro de sua casuística, principalmente em reprodutores de alto valor econômico (Ortolani, 1996).
Definição e etiologia
Urolitíase obstrutiva é o nome dado à patologia na qual há a interrupção total ou parcial do fluxo normal da urina por estruturas de constituição e etiologia variadas. Estas são denominadas urólitos ou cálculos, que são formados no trato urinário dos animais. A formação dos cálculos ocorre em ambos os sexos, mas o bloqueio urinário tem importância maior para os machos que, devido à anatomia de seu pênis e menor espessura de uretra, representam 99% dos casos de urolitíases.
A formação dos cálculos resulta da combinação de fatores fisiológicos, nutricionais e de manejo, sendo por isso considerada uma síndrome. Inicialmente ocorre precipitação de solutos orgânicos e inorgânicos, que podem ser cristais ou depósitos amorfos. O material orgânico é representado por descamações epiteliais, mucoproteinas e mucopolissacarídeos que formam a matriz da maioria dos cálculos, servindo como cemento para a agregação dos minerais.
O principal tipo de cálculo que leva a problemas no Brasil é o de estruvita. Está intimamente ligado a animais terminados em confinamento e/ou superalimentados. Estes casos são comumente observados em rebanhos de pista, alimentados com grande quantidade de grãos e baixa relação volumoso:concentrado. Os grãos, de modo geral, têm elevado teor de fósforo (P) e de magnésio (Mg), mas baixo teor de cálcio (Ca), predispondo à ocorrência da doença. Isto se deve à inter-relação absortiva que há entre o Ca e o P no trato digestório dos animais, cujas concentrações irão afetar mutuamente a biodisponibilidade dos elementos. O desbalanço Ca/P resulta em elevada excreção de fósforo pela urina, sendo importante fator para a gênese dessa patologia.
O metabolismo do fósforo no organismo dos ruminantes é ponto chave para entendimento do processo. Normalmente, cerca de 60% do P que adentra o rúmen é proveniente da saliva secretada e deglutida pelo animal, os 40% restantes vêm da dieta. A secreção diária salivar de P alcança de cinco a 10g nos ovinos. As glândulas salivares têm alta capacidade de concentrar o P além das concentrações sanguíneas, numa proporção de 12 a 16:1. Aparentemente, esta é uma estratégia para suprir o P aos microrganismos do rúmen mesmo em longos períodos de falta deste mineral.
O intestino delgado é o principal sítio de absorção do P, especialmente o duodeno, onde boa parte deste mineral é absorvida, seguindo para a corrente circulatória. A fração não absorvida é excretada nas fezes. Sabe-se que quanto maior for a quantidade de P ingerido maior será a absorção intestinal, até o limite do transporte. Quando a concentração de P no sangue aumenta devido ao maior aporte na dieta, passa a ser, inicialmente, mais excretado pela saliva e, logo em seguida, pelos rins. Ocorre que na maioria das situações onde a dieta é rica em fósforo (dietas ricas em concentrados), a produção de saliva diminui bruscamente devido à falta de estímulo mastigatório pelo baixo teor de fibra, fazendo com que o excesso deste elemento no sangue seja excretado intensamente pelos rins.
Figura 1 – Desenho esquemático do metabolismo do fósforo no organismo dos ovinos

A urina dos ruminantes, em especial dos ovinos, é alcalina (pH 7,6 – 8,4), o que torna o P insolúvel, precipitando-o e formando cristais com o Ca e o Mg. Estes cristais se sedimentam aglomerados à matéria orgânica como descamações, mucoproteinas e polissacarídeos (cemento), formando os urólitos, que ficam retidos na bexiga. No momento da micção, os urólitos obstruem a passagem da urina, principalmente na flexura sigmóide e no apêndice vermiforme dos machos ovinos, desencadeando os efeitos da doença.
Sinais clínicos
Os primeiros sinais clínicos manifestados por animais com urolitíase são causados pela dor. O animal fica inquieto, agita a cauda, pode escoicear o abdome, perde o apetite e faz força para eliminar a urina, por vez pode ocorrer prolapso retal. Pode haver gotejamento de urina corada de sangue caso a obstrução não seja completa, os pêlos prepuciais estarão secos e pode haver depósitos de cálculos nestes pelos. Há hipersensibilidade à palpação especialmente nos locais de maior ocorrência de obstrução (flexura sigmóide e apêndice vermiforme). O pênis pode estar exposto e intumescido.
Fig. 1 – Locais mais comuns de ocorrência de obstrução nos machos

Fonte: adaptado de TIRUNEH (2000).
Fatores predisponentes
Podemos citar os efeitos de raça, castração, aspectos de manejo como a disponibilidade de água em pontos estratégicos de um confinamento, por exemplo, ou a presença de água salobra ou “água dura”, que possui elevado teor de minerais e pode interferir no consumo de água. Contudo, os dois fatores de maior importância são o sexo (é esperada a ocorrência da síndrome nos machos devido à anatomia peniana) e o manejo nutricional adotado, que é sem dúvida o ponto chave de todo o processo.
Manejo nutricional: dietas que promovam diminuição na produção ou secreção de saliva predispõem ao surgimento de cálculos. Isto ocorre quando o fornecimento de forragem é baixo em relação ao concentrado, na falta de água, em forragens peletizadas ou excessivamente moídas. O fator determinante mais significativo é a quantidade de fósforo dietético oferecido e disponível em relação a outros minerais, tais como Ca, Mg e sódio (Na) principalmente. Dietas contendo acima de 0,5% de P na MS predispõem à ocorrência de urolitíase, assim como uma relação Ca:P igual ou inferir a 1,2:1.
O uso de produtos não específicos à espécie ovina são causas de ocorrência de cálculos urinários. Concentrados e suplementos minerais para bovinos comumente são usado na alimentação de carneiros. A relação Ca:P nesse concentrados é geralmente mais baixa e pode elevar o risco de urolitíase em ovinos. Além disso, o uso do sal mineral de bovinos para ovinos incorre na possibilidade de intoxicação por cobre.
Prevenção
A principal medida refere-se ao correto balanceamento das relações Ca:P. Estes valores ficam entre 2:1 e 3:1, a depender da categoria animal. Também é importante manter um mínimo de fibra na dieta de animais que já são ruminantes, ou a partir de 40 a 60 dias de vida (dieta contendo alimento sólido), sendo entre 20 e 30% de forragens para animais em confinamento. Já para reprodutores de pista, cujas necessidades nutricionais são bem inferiores, deve ser incluído um mínimo de 60% de forragem na dieta.
A acidificação da urina com cloreto de amônio pode ser uma maneira de prevenção da urolitíase. Este artifício também tem sido usado para tratamento de casos clínicos de por estruvita. Entretanto, este recurso tem sido usado de forma exagerada e desmedida por criadores de animais de pista, já conhecedores da urolitíase, a fim de fazer com que seus animais comam ainda mais concentrado. Os valores convencionais utilizados ficam entre 0,5 e 1,0% da MS da dieta.
Medidas gerais de manejo como disponibilidade de bebedouros em locais adequados, e a qualidade da água fazem com que a ocorrência de casos clínicos diminua.

Referência bibliográfica:
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