1. INTRODUÇÃO
Certamente os ovinos foram os primeiros animais a serem domesticados na história humana. Embora as vacas tenham substituído as ovelhas como animais leiteiros devido à sua maior produção de leite, a ovinocultura leiteira ainda é considerada um empreendimento viável nos dias de hoje em muitos países do Mediterrâneo.
Observa-se um crescente interesse em pesquisas sobre a produção e composição do leite de ovelha, não só pela sua importância para os cordeiros, mas também pela intensificação da ovinocultura leiteira. O leite de ovelha é um produto rico em gordura e proteína e é basicamente utilizado para a produção de queijos e iogurtes artesanais ou comerciais que são bem valorizados em alguns mercados consumidores.
No Brasil, a intensificação da ovinocultura de corte, com mudanças no sistema de criação de extensivo para intensivo, despertou o interesse em se pesquisar sobre a produção e composição do leite de ovelha. Além de ser a principal fonte de nutrientes para os cordeiros durante as primeiras semanas de vida, as quais são cruciais para o sistema produtivo, o leite de ovelha e, principalmente, seus derivados encontram ampla oportunidade de mercado.
2. PRODUÇÃO LEITEIRA
O rebanho ovino situa-se em 4º lugar entre as espécies produtoras de leite do mundo, com cerca de 8 milhões de ton/ano, e conta com um censo de aproximadamente 1058 milhões de cabeças, das quais, aproximadamente 196 milhões são ovelhas de leite (Food..., 2005).
Os países Mediterrâneos (Itália, Turquia, Grécia, Espanha, França e Chipre) e também Portugal, contam com mais de 3 milhões de ton/ano e representam praticamente 50% da produção total mundial (Food..., 2005). A falta de dados estatísticos sobre vários países sabidamente produtores e consumidores do leite de ovelha, como a Índia, por exemplo, deixa a desejar em relação à realidade da produção mundial (Siqueira, 2002).
O leite de ovelhas é fundamental para o adequado aporte de nutrientes para os cordeiros, principalmente durante o primeiro mês de vida. Para a indústria, a importância recai sobre o seu rendimento, justamente pelo alto teor de sólidos totais e perfil de caseína (Sá, 2004).
A principal razão para se criar ovelhas de leite está relacionada com o retorno financeiro da atividade. O custo de produção de 1 kg de queijo de ovelha é em torno de $8,00 se comparado a $5,00 para queijo de cabra e $3,00 para o mesmo queijo feito com leite de vaca. Mesmo assim, o retorno econômico com a produção de leite de ovelha é quase o dobro do retorno com a produção de lã e carne (Haenlein, 2000).
Por que leite de ovelha? Porque representa uma boa alternativa à produção de lã e carne, ou porque é uma alternativa à bovinocultura leiteira, já que esta apresenta problemas com a produtividade em certas ocasiões, restrições de quota e intolerância ao leite de vaca? Mas, como justificar economicamente??? O maior conteúdo de sólidos totais do leite de ovelha, quando comparado aos demais tipos de leite, e o melhor rendimento industrial não são razões boas o suficiente para convencer o produtor. Entretanto, o tamanho da população ovina, a grande variedade de raças e a grande capacidade de adaptação aos diversos climas e forrageiras fazem das ovelhas espécies muito mais aceitas e geneticamente de maior potencial produtivo (Haenlein, 2001).
Mas, por que produzir leite de ovelha ou cabra enquanto a vaca produz muito mais e requer muito menos trabalho por unidade animal? Quando se compara os custos de produção, realmente a bovinocultura leiteira é mais vantajosa. Entretanto, os produtos derivados do leite de ovelha, principalmente o queijo, são vendidos a preços mais altos, o que vem a ser lucrativo para o produtor.
3. RAÇAS LEITEIRAS
Existem pelo menos 24 raças de ovinos leiteiros reconhecidas ao redor do mundo. Basicamente elas estão localizadas na Europa, principalmente na costa Mediterrânea e Portugal, e no Oriente Médio. As principais raças leiteiras no mundo estão descritas a seguir:
Tabela 1. Apresentação de algumas raças ovinas leiteiras e dados de produção
|
Raça |
País de origem |
Média de produção (kg de leite) |
Dias de lactação |
Teor de gordura (%) |
|
Awassi |
Israel |
300 |
210 |
5-6 |
|
Lacaune |
França |
200 a 250 |
200 |
4-6 |
|
Manchega |
Espanha |
160 |
120 |
6 |
|
East Friesian |
Alemanha |
500 a 700 |
300 |
6-7 |
O cruzamento de raças nativas com raças de elevada produção, seja ela de carne ou de leite, é o método mais rápido para melhorar a eficiência do rebanho. Entretanto, nem sempre isto é possível devido aos problemas relacionados à importação de animais. Neste caso, é importante conhecer a produção de leite de raças locais e tentar selecioná-las de forma a elevar a produção das mesmas (Sakul e Boylan, 1992).
No Brasil já existem rebanhos comerciais bem sucedidos de ovelhas da raça Lacaune no sul do país e outras criações de animais puros e mestiços das raças Lacaune e Santa Inês em fase inicial de produção em Minas Gerais. A tendência é o aumento da produção e comercialização dos produtos, principalmente de queijos e iogurtes. Também há interesse por parte das instituições de pesquisa, com formação de rebanhos próprios que permitirão maiores esclarecimentos sobre a ovinocultura leiteira em condições brasileiras.
4. COMPOSIÇÃO DO LEITE
O leite de ovelha contém quase o dobro de sólidos totais que o leite de vaca: maior teor de proteína, principalmente a fração de caseína, e gordura. O rendimento industrial chega a 18-25%, ou seja, são necessários apenas 4-5 kg de leite de ovelha para a produção de 1 kg de queijo. O maior conteúdo e variedade de tipos de caseína favorece esse maior rendimento, pois reduzem o tempo de coagulação da massa e o coágulo é mais firme quando comparado à produção de queijo com leite de vaca (Berger, 2005).
Tabela 2. Composição físico-química do leite de diferentes espécies*
|
Constituinte |
Ovelha |
Cabra |
Vaca |
Mulher |
|
Matéria seca (%) |
17,4-18,9 |
11,9-14,0 |
10,5-14,3 |
11,5-13,9 |
|
Gordura (%) |
6,0-7,5 |
4,1-4,5 |
2,8-4,8 |
3,7-4,6 |
|
Energia (kcal) |
108 |
69 |
61 |
70 |
|
Proteína total (%) |
5,98 |
3,56 |
3,29 |
1,03 |
|
Albumina globulina (%) |
0,9-1,1 |
0,4-1,0 |
0,3-0,8 |
0,8-1,7 |
|
Cseína (%) |
4,3-4,6 |
2,5-3,3 |
2,5-3,6 |
0,4 |
|
Lactose (%) |
4,3-4,8 |
4,1-4,4 |
4,2-5,0 |
6,4-7,0 |
|
Cinzas (%) |
0,9 |
0,8 |
0,7-0,9 |
0,2 |
|
Cálcio (mg/100g) |
193 |
134 |
119 |
32 |
|
Sódio (mg/100g) |
44 |
50 |
49 |
17 |
|
Ferro (mg/100g) |
0,10 |
0,05 |
0,05 |
0,03 |
|
Magnésio (mg/100g) |
18 |
14 |
13 |
3 |
|
Zinco (mg/100g) |
0,57 |
0,30 |
0,38 |
0,17 |
|
Fósforo (mg/100g) |
158 |
111 |
93 |
14 |
|
Vitamina A (mg/l) |
0,5 |
- |
0,3 |
- |
|
Vitamina B6 (μg/100g) |
80 |
60 |
60 |
10 |
|
Vitamina B12 (μg/100g) |
0,71 |
0,07 |
0,36 |
0,05 |
|
Vitamina E (mg/l) |
15,8 |
- |
7 |
- |
|
Vitamina C (mg/l) |
40 |
- |
22 |
- |
Quadro 1. Principais queijos de ovelha com denominação de origem fabricados no mundo
|
País |
Queijo |
|
Grécia |
Feta |
|
França |
Roquefort |
|
Espanha |
Manchego |
|
Portugal |
Serra da Estrela Azeitão Castelo Branco |
|
Itália |
Pecorino Romano Fiore Sarda Pecorino Toscano |
5. FATORES QUE AFETAM A PRODUÇÃO E COMPOSIÇÃO DO LEITE
Como praticamente todo o leite de ovelha produzido é transformado em queijo e outros derivados, como iogurte e sorvete, a qualidade do leite está diretamente relacionada ao seu rendimento industrial. A quantidade e a qualidade do queijo obtido por cada litro de leite depende, principalmente, das propriedades de coagulação do leite, ou seja, do tempo de coagulação, da taxa de formação do coágulo e da consistência deste coágulo. Essas propriedades são afetadas pela composição do leite, pela contagem de células somáticas e pelo próprio processamento industrial. Portanto, qualquer fator que afete a composição do leite, também afetará a produção e qualidade dos derivados lácteos (Bencini, 2001).
Vários são os fatores que contribuem para a variação na produção de leite de ovelhas: raça, idade, estágio da lactação, número de cordeiros em aleitamento, nível nutricional durante a gestação e lactação, ambiente, técnicas de ordenha, estado sanitário e infecções de úbere (Peeters et al., 1992; Gonzalo et al., 1994; Bencini, 2001).
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A produção do leite de ovelha é uma alternativa viável a ser considerada pelos produtores brasileiros que pretendem ampliar suas fontes de retorno econômico.
As pesquisas sobre a produção e composição do leite ovino visam tanto o mercado da carne com maior rendimento na criação de cordeiros para abate, quanto a manufatura de produtos derivados, principalmente o queijo e o iogurte, devido às características únicas deste leite que permitem maior rendimento industrial e lucratividade para o produtor.
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGÁFICAS
BENCINI, R. Factors affecting the quality of ewe’s milk. In Proceeding of Great Lakes Dairy Sheep Sympoisium, 7, 2001. Disponível em <http://www.uwex.edu/ces/animalscience/sheep/Publications_and_Proceedings/res.html>. Acessado em 27/05/2005.
BERGER, Y. Sheep’s milk and its uses. 2005. Disponível em: <http://www.sheepmilk.biz/sheepmilk.html>. Acessado em: 27/05/2005.
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. Disponível em: <http://www.fao.org/ag/aga/glipha/index.jsp.>. Acessado em 27/05/2005.
GONZALO, C.; CARRIEDO, J. A.; BARO, J. A. et al. Factors influencing variation of test day milk yield, somatic cell count, fat, and protein in dairy sheep. J. Dairy Sci. v.77, n.6, p.1537-1542, 1994.
HAENLEIN, G. F. W. Past, present and future perspectives os small ruminant dairy research. J. Dairy Sci., v.84, n. 9, p.2097-2115, 2001.
HAENLEIN, G. F. W. The nutritional value of sheep milk. 2000. Disponível em <www.sheepdairying.com/haenlein.htm>. Acessado em 15/10/2004
PEETERS, R.; BUYS, N.; ROBIJNS, L. et al. Milk yeld and milk composition of Flemish Miksheep, Suffolk and Texel ewes and their crossbreds. Small Ruminant Res., v.7, n.4, p.279-288, 1992.
SÁ, J. L.; OTTO de SÁ, C. Produção de leite ovino: revisão. Disponível em <http://www.fmvz.unesp.br/ovinos/repman7.htm>. Acessado em 05/08/2004.
SAKUL, H; BOYLAN, W. J. Evaluation of U.S. sheep breeds for milk production and milk composition. Small Rum. Res., v.7, p.195-201, 1992.
SIQUEIRA, E. R.; MAESTÁ, S. A. Bases para a produção e perspectivas de mercado do leite ovino. In: SIMPÓSIO MINEIRO DE OVINOCULTURA, 2., 2002, Lavras. Anais... Lavras:UFLA, 2002. p.59-78.