Cuidados na implantação da cultura do milho
Eng. Agrônomos: Silvino Moreira e Rosangela Marucci
Com a elevação dos custos de produção de milho ocorridos nesse ano, em função dos aumentos ocorridos, principalmente, nos fertilizantes, cabe aos produtores e técnicos envolvidos no processo de produção, muito critério na implantação da cultura.
Para aqueles que fazem ano a ano um bom planejamento de plantio, condução e colheita da cultura, nesse ano eles têm que ser ainda mais criteriosos. Para aqueles com baixo nível de organização, o recado é que não dá mais para errar. Assim, o objetivo desse artigo será levantar os principais gargalos técnicos na implantação de uma lavoura de milho. Ressalta-se que não há objetivo de se fazer uma recomendação generalizada, pois isso exigiria a presença de um técnico em cada propriedade. Dessa forma, serão abordados a seguir os pontos mais relevantes na implantação da cultura do milho.
O primeiro ponto de discussão é quanto à data de semeadura. Cada região do Brasil tem sua melhor época de plantio, definida através de diversos trabalhos conduzidos em campo, por empresas privadas e públicas.
No Brasil Central, a data de plantio sempre dependeu do início das chuvas. Para a planta de milho, a data de plantio ideal seria aquela em que houvesse coincidência com o período de umidade no solo, para possibilitar adequada germinação das sementes e que permitisse a presença de chuvas na época de florescimento/enchimento de grãos.
Outro ponto de grande importância para a cultura do milho é que a data de semeadura fosse aquela que permitisse que a fase de florescimento e enchimento de grãos coincidisse com a ocorrência de dias longos, para possibilitar dias com muitas horas de luz para otimizar o processo de fotossíntese. Esse ponto é importante para que o enchimento de grãos ocorra numa época em que a planta de milho apresenta também um grande acúmulo de fotoassimilados. No entanto, para que isso aconteça, normalmente seria necessário que o plantio fosse realizado bem mais cedo, o que, na região central do Brasil, somente é possível em áreas irrigadas.
É bem documentado em artigos técnicos que o atraso na data de plantio do milho, pode causar grandes perdas de produtividade. Dessa forma, existem alguns relatos na literatura que cada dia de atraso na semeadura do milho, após o dia 15 de novembro pode levar a uma redução média de 30 a 60 kg/ha de milho por dia de atraso, na região do Brasil Central. Assim, na teoria, se o produtor deixar de plantar no dia 15 de novembro e plantar no dia 30 ele poderia perder 450 a 900 kg/ha de milho por hectare. Conseqüentemente, haveria uma grande perda de matéria seca por hectare. Em uma lavoura de milho para silagem, a qualidade do material colhido seria comprometida com a diminuição da quantidade de milho colhido.
Como a época de semeadura de milho sequeiro da região central do Brasil depende de chuvas, muitas vezes o plantio é atrasado devido à falta d’ água, fato notoriamente observado nessa safra. Assim, mesmo que a semeadura seja realizada após a data recomendada devido ao atraso das chuvas, o produtor acaba tendo que enfrentar os riscos de um plantio tardio.
Em cada região de plantio do milho deve-se verificar se a precipitação ocorrida já foi suficiente para proporcionar uma germinação segura das sementes. Além disso, é necessário acompanhar as previsões de chuvas pós-semeadura. No geral, recomenda-se que a semeadura seja realizada após cerca de 80 a 100 mm de chuva (acúmulo dos últimos 10 dias), desde que existam previsões futuras de chuva.
A seguir, serão detalhados alguns aspectos a serem considerados para o sucesso do plantio.
Equipamentos de plantio: torna-se de grande importância que na entressafra (entre um plantio e outro), se faça uma boa manutenção da semeadora principalmente nos elementos de corte, deposição de adubo, engrenagens, correntes de transmissão, discos duplos de corte do carrinho da semente, limitadores de profundidade, compactadores, condutores de adubo e semente e, principalmente, nos componentes de distribuição de semente e adubo.
Manejo da cultura antecessora ao milho (semeadura direta): é importante garantir uma boa condição de plantabilidade para implantação da cultura do milho. Assim, espera-se que próximo à semeadura, o produtor já tenha dessecado a área com boa antecedência (dessecagem pós-colheita) ou no mínimo 15 dias antes da previsão de semeadura em áreas em que a cultura anterior ao milho é uma gramínea. Dessa forma, a área de plantio não deve apresentar touceiras de capins (braquiarão, colonião, dentre outros), que geralmente dificultam muito uma semeadura de qualidade.
O ideal é que essas operações tenham sido previamente realizadas, para evitar não só problemas de plantio, como também infestações iniciais de pragas por esses capins serem hospedeiros intermediárias de insetos, competição do milho por luz e imobilização de nitrogênio nas palhadas com alta relação C:N, em semeaduras sob áreas de gramíneas. No entanto, em anos como 2007 com grande atraso de chuvas para uma dessecagem antecipada, existe muita dificuldade em fazer uma dessecagem com boa antecedência em relação à semeadura. Assim, agricultores que trabalham com rotação/sucessão de culturas (leguminosa anterior ao milho) e que já fizeram a dessecagem pós-colheita têm possibilidade de ganhos de produtividade em anos atípicos como este.
Profundidade de plantio: definida principalmente pela temperatura, umidade e tipo de solo. O plantio deverá ser mais superficial (3 a 5 cm) em solos argilosos, os quais podem dificultar a emergência, ou quando a temperatura do solo é mais fria, em função da época do ano ou da região. Em solos mais arenosos, a profundidade pode ser maior, variando de 5 a 8 cm, aproveitando as condições mais favoráveis de umidade do solo.
Densidade de semeadura: definida pelo número de plantas por unidade de área, desempenha papel importante no rendimento de uma lavoura de milho, uma vez que pequenas variações na densidade têm grande influência no rendimento final da cultura. A densidade de plantio ou estande inadequado é uma das causas da baixa produtividade de milho no Brasil. O rendimento de uma lavoura se eleva com o aumento da densidade de plantio, até atingir uma densidade ótima, determinada principalmente pelo híbrido e condições edafoclimáticas do local (disponibilidade de água e de nutrientes) e do manejo da lavoura.
As empresas que comercializam sementes de milho recomendam a população ideal para cada híbrido, baseando-se em experimentos desenvolvidos em campo por mais de três anos. A partir desses experimentos é que também são feitos os posicionamentos dos híbridos por regiões e épocas de plantio. É importante lembrar que a partir da densidade ótima (recomendada), qualquer aumento no número de plantas/área poderá resultar em decréscimo na produtividade do milho e gastos desnecessários na compra de sementes. Além da diminuição no rendimento de grãos, o aumento na densidade de plantio também afeta outras características da planta: redução no número de espigas, no tamanho de espiga por planta e no diâmetro do colmo sendo que esta última resulta em maior suscetibilidade ao acamamento e quebramento, principalmente em híbridos destinados à ensilagem.
O aumento na densidade de plantio também pode elevar a ocorrência de doenças, especialmente podridões de colmo. Quando se fala em estande de plantas, outro ponto importante é a distribuição das sementes. Dessa forma, quando se deseja deixar cinco plantas de milho por metro, as sementes devem ser espaçadas a cada 20 cm.
Velocidade de plantio: Para semeadoras de disco, que predominam no mercado brasileiro a velocidade deve variar de 4 a 6 km/h. Por sua vez, utilizando-se semeadoras a vácuo é possível realizar uma boa operação de plantio com velocidade até 10 km/h, desde que as condições da topografia do terreno, umidade e textura do solo permitam operar com esta velocidade.
Tratamento das sementes: uma das ferramentas para se garantir um bom estande de plantas é a utilização do tratamento das sementes, visando-se o controle preventivo das pragas de solo e/ou iniciais (lagarta-do-cartucho, lagarta elasmo, cupim, cigarrinha-do-milho, percevejo barriga-verde). Normalmente, na semeadura o produtor utiliza de 5 a 12% de sementes acima da população final desejada para repor a percentagem de sementes perdidas por ataque de insetos, problemas de semeadura, germinação e vigor, dentre outros. Ressalta-se que sem o tratamento de sementes essa perda de plantas poderá ser muito além desses 12% considerados.
O inseticida a ser selecionado depende muito do histórico da área quanto à ocorrência de pragas, podendo visar apenas insetos mastigadores (lagartas, besouros), sugadores (cigarrinhas, percevejos, pulgões) ou ambos. Há vários inseticidas disponíveis no mercado para essa finalidade.
Para tratamento das sementes em áreas com presença de lagartas podem ser utilizados os carbamatos (Futur ou Semevim e CropStar (tiodicarbe), organofosforados (carbofuran) ou tratamento direto com aplicação dos produtos no sulco de semeadura (produtos a bases de clorpirifós).
Em regiões com histórico de sugadores (cigarrinha-do-milho, percevejo barriga-verde) são recomendados produtos do grupo dos neonicotinóides, como imidaclorpid (CropStar, Gaucho), thiametoxan (Cruiser) e fipronil (Standak), dentre outros. No caso dos neonicotinóides, algumas empresas já fornecem as sementes tratadas, ao mesmo custo da compra efetuado no mercado pelo agricultor. Além da vantagem operacional para o produtor, a qualidade do tratamento é muito superior à maioria dos tratamentos feitos nas fazendas.
Ressalta-se que em regiões com presença de cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), causando prejuízos aos agricultores (geralmente regiões baixas ou de transição, abaixo de 600 metros) deve-se buscar trabalhar com híbridos resistentes aos enfezamentos, pois existem materiais com variados níveis de tolerância às doenças transmitidas por esse inseto. Informações sobre a tolerância desses híbridos pode ser adquirida na empresa fornecedora das sementes.
Deve-se ficar atento ao grupo de inseticidas utilizado no tratamento de sementes, pois inseticidas dos grupos dos carbamatos e organofosforados afetam o vigor e a germinação do milho se houver um período longo entre o tratamento das sementes e a semeadura (máximo de três dias entre o tratamento de sementes e a semeadura).
Uso do grafite em semeadoras: o tratamento das sementes de milho com inseticidas, objetivando o controle das pragas de solo (insetos mastigadores e sugadores), altera a rugosidade da superfície das sementes, afetando o desempenho da semeadora, pela dificuldade de movimentação no depósito e também nos sistemas distribuidores (discos). Em média têm-se utilizado no campo cerca de 100 a 150 gramas de grafite por saco de sementes (60.000 sementes).
Dessa forma, estes aspectos abordados são de extrema importância para uma boa implantação da cultura do milho assegurando-se boas produtividades caso a cultura seja conduzida de forma eficiente.