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Nas últimas décadas, as tecnologias que envolvem a pecuária de forma geral nunca estiveram em tão pleno desenvolvimento. Os investimentos em tecnologia e pesquisa provocaram mudanças significativas nos índices de produtividade das atividades agropecuárias. Esses fatos fazem com que um número cada vez menor de pessoas trabalhe para produzir alimentos para uma população crescente.
Entre 1995 e 2004, a taxa anual de crescimento da produtividade brasileira foi em torno de 4,3%, acima de muitos países já consagrados em produção de leiteira, ou seja, o Brasil tem grande potencial de aumento de produção, que pode ser incrementado por meio do aumento nos índices de produtividade.
A empresa rural exige do responsável técnico decisões sobre aspectos internos (uso de tecnologias, recursos financeiros e outros) e externos (mercado) que influenciam diretamente na implantação e no controle da empresa. Assim, é fundamental que o empresário ou o administrador da empresa tenha amplo conhecimento destes fatores e seja assessorado por técnicos na tomada de decisões.
O produtor deve ser conscientizado de que a adoção de medidas sanitárias adequadas, com acompanhamento técnico eficiente, resulta em criações saudáveis e zootecnicamente econômicas. Portanto, cabe aos profissionais ligados à agropecuária a missão de difundir entre produtores a importância e as vantagens do manejo sanitário do rebanho.
A utilização de novas tecnologias em sistemas de produção de gado de leite, deve ser incrementada com o objetivo de aumentar a produtividade e qualidade do leite. No que se refere ao aumento da produtividade, o uso de tecnologias nas áreas de nutrição, sanidade, genética e reprodução serão fundamentais para o aumento da produtividade por animal, que é ainda muito baixa e possui alto potencial para aumentar (Barboza e Souza, 2006).
A carência de controles gerenciais tem levado os pecuaristas ao uso de regras de decisão muitas vezes inadequadas no sentido de maximizar seus lucros. Isso mostra que de nada adiantaria a adoção de tecnologia moderna, caso os mesmos não fossem tomados sob ótica gerencial (IEL et al., 2000).
Vários são os fatores que alteram ou determinam a produção de leite em um sistema, entre eles o “status sanitário” do rebanho. A mastite é o maior, se não um dos maiores problemas sanitários que determinam grande prejuízo econômico, juntamente com as afecções de casco e as doenças da reprodução. Historicamente, a inflamação da glândula mamária, denominada mastite, sofreu um aumento na sua prevalência nos nossos rebanhos, principalmente, pelos novos modelos de gestão pecuária, aumentando a produtividade, pelas mudanças no ambiente, no manejo e na genética dos animais. Tornou-se necessário desenvolver técnicas preventivas e para o controle da mastite em níveis toleráveis e que determinam menores prejuízos. À medida que as tecnologias foram sendo desenvolvidas, as barreiras das fazendas começaram a aparecer principalmente pelos questionamentos dos resultados que as técnicas propunham em detrimento dos custos.
No processo de controle de mastite em uma fazenda, o proprietário, funcionários e o médico veterinário devem avaliar estratégias alternativas para alcançar objetivos estabelecidos, comparando-as e avaliando os resultados periodicamente. O processo de tomada de decisão deve envolver os passos:
1)Identificar e definir o problema;
2)Coletar dados, fatos e informações relevantes;
3) Identificar soluções alternativas e analisá-las;
4) Tomar a decisão, selecionando a melhor alternativa;
5)Implementar a decisão;
6) Avaliar os resultados e assumir a responsabilidade pelos mesmos.
O controle de mastite é uma forma de diminuir os casos clínicos e subclínicos. É importante ressaltar que o maior prejuízo dentro de um programa de controle de mastite é a perda da produção leiteira, seja ele por descarte, por redução da produtividade após cada caso clínico da mastite ou pela cronicidade dos casos subclínicos.
Nenhuma tecnologia deve ser implantada em um sistema de produção sem alguma avaliação econômica. O fluxo de caixa da fazenda é quem vai determinar quando e quanto dessa tecnologia vai ser utilizada. Tal prova disso, por exemplo, é quando a adoção de uma prática ou tecnologia é definitivamente colocada em prática depois de uma avaliação econômica. Dificilmente tal tecnologia é retirada do sistema, exceto pelas situações extremas e externas de oscilação de fluxo de caixa. Contudo, os maiores prejuízos ocorrem principalmente quando o proprietário ou o técnico responsável não enxergam a mastite como um problema no seu rebanho. Muitas vezes o uso de antibióticos é reduzido, existe falha no exame da caneca telada ou de fundo preto, os animais com mastite subclínica não são quantificados e muito menos as perdas na produção de leite desses animais são levados em consideração. Ou seja, os tratamentos dos casos clínicos não são adequados por desejo de redução de custos dos responsáveis, falta manutenção no ambiente dos animais e o treinamento de funcionários é inadequado. Este tipo de rebanho tem uma séria e certa tendência de elevar a CCS do tanque ao longo do tempo, bem como aumentar os casos clínicos e subclínicos e diminuir a produção de leite. Com certeza será mais complexo e dispendioso controlar a mastite nesse tipo de rebanho.
De acordo com Santos (2001), não é possível eliminar totalmente as perdas por mastite em uma fazenda, porém, sabe-se que a implantação de medidas de prevenção pode resultar em relações benefício-custo favorável para os produtores. Holanda Júnior (2005), em coleta de dados de 6 fazendas durante 12 meses, estimou a média de 75 quartos/fazenda afetados por mastite, sendo 86% por mastite subclínica e 10% por clínica, representando perdas, incluindo descarte e redução na produção anual de leite de 18.729 litros de leite por fazenda. Estas perdas representam 17% do total de leite produzido, o que significa um valor de R$ 389 por fazenda por mês (pesquisa realizada nos anos de 1997 e 1998).
Quadro 1 - Estimativa das perdas de leite por ano causados por mastite em seis fazendas de Minas Gerais, Brasil

Fonte: Holanda Júnior et al (2005).
Coldebella et al. (2003), observaram que a CCS afetou significativamente a produção de leite. Desse modo, as vacas primíparas do rebanho estudado deixaram de produzir, em média, 0,617 kg de leite/vaca/dia por causa do aumento da CCS, ao passo que nas multíparas o valor foi de 3,266 kg/vaca/dia. Globalmente, o rebanho deixou de produzir 2,273 kg de leite/vaca/dia devido à elevação da CCS. As maiores perdas nas vacas multíparas podem ser explicadas pelo agravamento na saúde do úbere desses animais, ocasionado pela maior possibilidade de infecção e dano permanente à glândula por infecções prévias e também, porque vacas mais velhas tendem a ter infecções mais longas, causando danos mais extensos nos tecidos.
Os resultados indicando diferentes perdas de produção de leite entre vacas primíparas e multíparas estão de acordo com várias pesquisas. No caso das vacas multíparas, esses resultados mostram perdas de 1,45 kg de leite por dia com 25.000 células/mL e 4,83 kg/dia com 200.000 células/mL.
A partir do resultado de cada vaca, podem-se estimar as perdas médias em virtude do aumento da CCS, refletindo o impacto da mastite subclínica em cada ordem de lactação (no caso, vacas primíparas e multíparas) e em relação ao rebanho como um todo.
Quadro 2 - Estimativa do número de quartos afetados por ano por mastite em seis fazendas de Minas Gerais, Brasil

Fonte: Holanda Júnior et al (2005).
A maior perda da mastite causada por agentes contagiosos está na diminuição da produção de leite do rebanho, muitas vezes não contabilizado pelos produtores e técnicos, e disseminação das infecções para outros animais, principalmente no momento da ordenha. Já mastites causadas por agentes ambientais, ocorrem maiores perdas pelo tratamento dos casos clínicos, descarte de leite, perda de tecido secretor de leite e diminuição da produção de leite.
De ordem prática, devemos avaliar no diagnóstico de situação, como é a manifestação do problema. Temos que verificar passo a passo todos os pontos significativos, como o histórico da CCS do tanque, a porcentagem de vacas com mastite subclínica, a porcentagem de vacas com mastite subclínica crônica, o número de casos clínicos e as recidivas, como estão sendo realizados os tratamentos, como é a ambiência dos animais e onde as vacas se alimentam, descansam e dormem.
Ainda em termos de custos, é muito mais caro iniciar um controle de mastite em uma fazenda que tem alta CCS do tanque e alta prevalência de mastite do que uma fazenda que tem baixa CCS do tanque e baixa prevalência de mastite. Isso devido intensas mudanças que uma fazenda com problemas sérios de mastite deverá fazer ao longo do tempo para o controle.
O que é necessário ter em mente é o quanto a mastite é um problema dentro da fazenda, muitas vezes oculto aos olhos dos produtores e técnicos, sendo crucial quantificá-lo o quanto antes. Obviamente, muitas vezes a fazenda leiteira possui outras prioridades a serem trabalhados ou com maiores demandas de serviço ou soluções, mas devemos manter em mente que o controle de mastite atualmente é feito de forma simples e prática, promovendo a diminuição dos prejuízos financeiros e o aumento da produção leiteira.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Barboza, F. A.; Souza, R. C. Administração de sistemas de produção de leite. Apostila do Curso de Especialização em Bovinocultura Leiteira. Betim. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. 2006. 59p.
Coldebella, A.; Machado, P. F.; Demétrio, C. G. B.; Ribeiro Júnior, P. J.; Corassin, C. H.; Meyer, P. M.; Cassoli, L. D.. Contagem de células somáticas e produção de leite em vacas holandesas de alta produção. Pesq. agropec. bras., Brasília, v. 38, n. 12, p. 1451-1457, dez. 2003.
Holanda Junior, E. V.; Madalena, F. E.; Holanda, E. D.; Miranda, W. M.; Souza, M. R. Impacto econômico da mastite em seis fazendas de Araxá – Minas Gerais, Brasil. Arch. Latinoam. Prod. Anim. 2005. Vol. 13 (2): 63-69.
IEL, SEBRAE, CNA. Estudo sobre a eficiência econômica e competitiva da cadeia agroindustrial da pecuária de corte no Brasil. 2000. Disponível em: www.cna.org.br/PublicaçõesCNA/EstudosdasCadeiasProdutivas/PecuáriadeCorte. Acesso em: 17/08/2003.
Santos, M. V. 2001. Impacto econômico da mastite – parte 1. Disponível em: www.milkpoint.com.br.. Acesso em: 08/11/07.
LITERATURA RECOMENDADA:
Do campus para o campo: tecnologias para a produção de leite. Ana Cláudia Gomes Rodrigues Neiva, José Neuman Miranda Neiva (organizadores). – Fortaleza, CE: Expressão Gráfica e Editora Ltda., 2006. 320p.
Estratégias para Controle de Mastite e Melhoria da Qualidade de Leite. Marcos Veiga Santos, Luís Fernando Laranja Fonseca. – Barueri, SP. Manole; Pirassununga, SP: Ed. Dos Autores, 2007.