Determinar a data da estação de monta (EM) sempre é um assunto complexo. Qual a data correta? Qual o período de duração? Começar a Estação de Monta das novilhas antes, junto ou depois da estação das vacas? Para datar a estação deve-se pensar nas vacas ou em suas crias? Estas e muitas outras perguntas são sempre freqüentes ao entrarmos neste assunto, porém, quando pensamos em produzir um bezerro/vaca/ano temos que considerar a importância real e determinante da nutrição. Como a maioria dos sistemas de cria ou, cria, recria e engorda no Brasil são baseados na nutrição a pasto, o clima e a pluviosidade são fatores altamente influenciadores. Portanto, ao pensarmos em EM temos que lembrar que nossos rebanhos contêm vacas paridas e novilhas que dependem de alimentação volumosa de qualidade e quantidade suficiente para que atinjam atividade reprodutiva plena.
O ano de 2007 foi um ano de baixa ocorrência de chuvas em grande parte do Brasil central. Na maioria das regiões as chuvas ficaram próximas da metade da média histórica e com distribuição muito irregular. Além disso, o atraso das chuvas na primavera trouxe forte impacto na oferta de forragem para os animais. Podemos observar tal fato a partir da análise de dados meteorológicos obtidos no Agritempo, em que foi utilizado como referência à cidade de Montes Claros, situada no norte de Minas Gerais:

Fonte: Adaptado do AGRITEMPO

Fonte: Adaptado do AGRITEMPO
Qual o problema disso para nós? Ou melhor, qual o problema disso para os rebanhos?
Inicialmente cabe ressaltar que grande parte das fazendas localizadas no Brasil central realiza suas estações de monta no período entre dezembro e abril. Com isso, garantimos uma parição que ocorre entre os meses de setembro e fevereiro, em que vacas paridas encontram alimento em quantidade e qualidade abundante. Porém o ano de 2007 foi diferente. As primeiras chuvas, esperadas em outubro, não ocorreram ou foram abaixo do esperado, tendo início efetivo no final de novembro ou início de dezembro; ocasionando grande déficit na quantidade e qualidade das pastagens.
Vale a pena lembrar que a maioria das propriedades de gado de corte, quando não trabalham com confinamento, habitualmente não possuem nenhum tipo de volumoso para suplementação, como cana ou outras forrageiras passíveis de conservação. Estamos destacando este fato para ressaltar a alta mortalidade ocorrida, principalmente nos meses de outubro e novembro tendo como causa mortis a desnutrição, ou seja, um grande número de animais morreu de fome.
E então, por que estamos falando sobre tudo isso? É necessário mostrar os impactos diretos representados pelos altos índices de mortalidade registrados e especular sobre o que pode acontecer com a Estação de Monta no ano de 2008.
Quando pensamos nas categorias de recria da propriedade, principalmente, nas novilhas entre desmama e 24 meses de idade que entrarão na estação de monta, temos que destacar a enorme importância de uma nutrição adequada a permitir que estes animais, especificamente da raça Nelore, cheguem aos 24 – 26 meses com 300 kg de peso vivo.
Peso médio na puberdade em novilhas de estrutura pequena, mediana e grande

Fonte: Adaptado de Lamb et al, 2003
Para isso, é necessário que estes animais obtenham um ganho de peso médio diário no período do nascimento aos 24 meses de idade de, aproximadamente 370 gramas. Para atingirmos este objetivo temos que adotar uma suplementação no período seco com misturas múltiplas (sal proteinado) a fim de evitarmos que estes animais percam peso ou que tenham até baixos ganhos; os quais serão compensados com altos ganhos diários no período das águas.
Normalmente, o período para esta suplementação no Brasil central vai de meados de maio até o fim de outubro ou início do mês de novembro, época em que ocorrem o apodrecimento das macegas (palhadas) diferidas e as primeiras brotações. Porém, no ano de 2007 este prazo foi prorrogado e a vinda das primeiras chuvas no final de novembro fez com que as primeiras brotações viessem tardiamente.
Médias dos conteúdos de proteína bruta (PB) e digestibilidade in vitro da matéria orgânica (DIVMO) em amostras simulando o pastejo animal, nos períodos das águas e da seca.

* Pastejo contínuo (Euclides et al., 1996).
** Pastejo rotacionado (Thiago et al., 2000).
Neste momento, o gado encontrava-se afoito pelas brotações de capim e com conseqüente diarréia de broto, em função da baixa matéria seca que o capim contém em sua fase inicial de brotação. Essa situação gera, inicialmente, uma queda de peso nos animais até que haja adaptação e desenvolvimento da forragem para que esta atinja teores de matéria seca normais, este período compreende um total de 10 a 15 dias. Contudo, neste ano, as novilhas de recria, em muitas situações, restabeleceram seu ganho de peso em meados de dezembro, faltando para muitas ganharem aproximadamente uma arroba para atingirem os 300 kg de peso vivo ao início da estação de monta.
Qual é impacto disso? O principal impacto é um aumento no número de novilhas abaixo do peso mínimo, ou seja, aquelas não atingiram o peso suficiente para entrar na estação de monta, e conseqüente redução da meta de matrizes a serem trabalhadas na estação e levando a uma redução na produção de bezerros.
Em relação às vacas paridas a situação também foi drástica. As vacas que pariram antes do início das chuvas tiveram intensa redução do escore de condição corporal. Esta categoria, quando se trabalha com estação de monta que se inicia em dezembro ou janeiro, inicia a parição a partir de meados do mês de setembro ou outubro (respectivamente), ou seja, no ano de 2007, as primeiras vacas que pariram se depararam como uma seca intensa e refletiram este período em emagrecimento e baixo desenvolvimento da cria em função da reduzida produção de leite. Ao pensarmos nas primíparas, a situação é ainda pior, já que esta categoria ainda esta em fase de crescimento, o qual é priorizado em detrimento à produção de leite, gerando, em função da baixa condição nutricional, limitação em seu desenvolvimento final e, novamente, crias leves. Até agora estamos falando somente da estação de nascimento, quando nos referimos à estação de monta, concluímos que muitas de nossas vacas paridas, principalmente as primíparas, que serão colocadas em serviço no início da estação de monta de 2008 não apresentam atividade cíclica, já que são os animais que pariram em setembro, outubro e até o meio de novembro de 2007 encontraram baixa disponibilidade de forragem.
Número de dias entre o parto e o primeiro estro de acordo com o Escore da Condição Corporal

Fonte: Adaptado de Lalman et al,1997
Desta forma, quanto devemos esperar da incidência diária de novos cios ao avaliarmos os lotes de vacas paridas no início da Estação de Monta 2008? Esta é uma pergunta de extrema importância já que determina a longevidade das vacas em nossos rebanhos, ou seja, cios tardios na estação de monta trarão partos tardios na estação de nascimento gerando bezerros desmamados leves e alto descarte de vacas que não tiveram tempo suficiente para retorno da atividade cíclica.
A seguir será mostrado um gráfico que sugere uma meta de distribuição de prenhêz a ser alcançada para estações de monta de janeiro a abril em gado Zebu.

O problema está lançado. E agora? Vamos conviver com o problema ou vamos tentar solucioná-lo? Existem diversas técnicas de manejo como controle de amamentação, desmama precoce e uso de protocolos hormonais que podem nos auxiliar nesta situação.
Quando nos referimos às vacas trabalhadas em estação de monta com inseminação artificial, temos a opção de realizarmos a remoção dos bezerros, sendo que estes farão duas ou uma mamada por dia. Esta técnica conhecida como manejo de mamada consiste em restringir a amamentação da cria, sendo esta realizada, preferencialmente, antes dos momentos de identificação de cio. Na monta natural, o manejo de controle de mamada também pode ser feito, desde que por um período máximo de 30 dias e deve ser iniciado assim que o lote for colocado com o touro (para não penalizar o bezerro das vacas que já deram cio). Este manejo deve ser iniciado quando as crias tiverem a idade mínima de 40 dias, sendo este um tempo necessário para o desenvolvimento inicial do bezerro e para a regeneração fisiológica do útero materno. Esta prática procura adequar a fisiologia da vaca no pós-parto em função reajuste da atividade hormonal, fazendo com que haja aumento da eficiência reprodutiva do rebanho. Para tal procedimento é necessário que haja condicionamento dos animais. Diversos estudos demonstraram que o efeito sobre o peso do bezerro à desmama é reduzido, mas que há um ganho compensatório no próximo período chuvoso que diminuirá a diferença de peso com os animais trabalhados em manejo convencional. Porém, temos que relembrar que no ano de 2007, especificamente, a limitada produção de forragem gerou baixa produção de leite e um desenvolvimento dos bezerros abaixo do desejado, portanto é indicado que os bezerros em manejo de mamada sejam suplementados para não tenhamos queda maior no desempenho a desmama.
No caso de protocolos hormonais, é sabido que estes antecipam o retorno à atividade cíclica desde que a vaca tenha escore corporal de no mínimo 2,5 (escala de 1 a 5), recuperando algum tempo perdido.

Fonte: Adaptado de Vasconcelos, 2007
Portanto, é importante que as vacas a serem trabalhadas possam recuperar a condição corporal o mais rápido possível, e para isso, devem ter a prioridade dos melhores pastos. É comum que as vacas que pariram mais tarde e em situação de pasto melhor sejam trabalhadas antes que as que pariram primeiro, em baixa condição nutricional.

Fonte: Meneguethi, 2006
Nas nulíparas que não atingiram peso mínimo ao início da estação, pode ser feito uma nova busca daí a alguns dias. Porém deve ficar claro que o atraso na parição destes animais obriga a utilização de protocolos hormonais na estação de monta subseqüente.
Portanto, existe um grande risco de insucesso nas taxas de prenhez e na distribuição destas nas estações de monta do verão 2007/2008 devido ao atraso e diminuição das chuvas e falta de pastagens de boa qualidade e quantidade. Intervenções pontuais e constante monitoramento podem ajudar a minimizar estes problemas.
