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Mastite ou mamite é o conceito utilizado para se referir à inflamação da glândula mamária. Essa resposta inflamatória tem por objetivos a eliminação do microorganismo causador, a neutralização de toxinas e a regeneração dos tecidos danificados. A mastite subclínica, assim denominada devido à ausência de sinais clínicos de enfermidade na glândula mamária, resulta em alterações na composição do leite, e têm como principais agentes etiológicos as bactérias Streptococcus agalactiae e Staphylococcus aureus. No leite dos animais infectados pode ser observado o aumento na contagem de células somáticas (CCS), nos teores de cloretos, sódio e proteínas séricas, além da diminuição nos teores de caseína, lactose e gordura do leite.
Os rebanhos infectados apresentam perdas econômicas em razão do aumento na CCS, gastos com tratamentos antibióticos, descarte do leite, custos adicionais com mão-de-obra e assistência veterinária. Baseados nestes dados estimam-se perdas de U$ 317,38 por vaca/ano enquanto a implantação de um programa de controle de mastite apresenta custo de aproximadamente U$ 23,98 por vaca/ano.
O Streptococcus agalactiae é uma bactéria gram-positiva encontrada principalmente no interior da glândula mamária e é altamente contagiosa, ela pode também ser isolada de superfícies contaminadas com leite, tais como teteiras e mãos dos ordenhadores. A transmissão dessa bactéria ocorre principalmente durante o período da ordenha, pórem bezerras criadas em bezerreiros coletivos e que recebem leite de vacas com mastite também podem adquirir a infecção. Pode-se apontar como as principais origens de microorganismos causadores de mastite nesses animais: bactérias oportunistas que colonizam a pele do teto e podem adentrar a glândula mamária; o ambiente com acúmulo de lama e umidade; bactérias transmitidas por moscas e ocorrência de bezerras mamando entre si. Essa bactéria é um patógeno obrigatório da glândula mamária, necessitando do microambiente do úbere para seu crescimento, apesar do agente ser encontrado em superfícies contaminadas com leite, sua habilidade de sobrevivência no ambiente é reduzida, tornando o úbere de animais infectados o principal reservatório da infecção. Inicialmente, o agente infecta a cisterna e o sistema de ductos da glândula mamária, determinando redução na produção de leite e, em alguns casos, substituição do tecido secretor por tecido fibroso. Os rebanhos infectados por S. agalactiae apresentam poucos casos clínicos, mas normalmente têm alta CCS.
Em razão das limitações da cura espontânea e das dificuldades de realizar o descarte dos animais com mastite crônica, o diagnóstico precoce, realizado através de culturas microbiológicas objetivando a identificação dos patógenos causadores de mastite no rebanho, possibilita a utilização de estratégias para eliminação de infecções da glândula mamária, em especial, àquelas causadas por S. agalactiae.
Neste contexto, a Blitz Terapia, que consiste no tratamento com antimicrobiano de todos os animais infectados do rebanho, é uma medida que tem sido preconizada como alternativa prática na erradicação de S.agalactiae, particularmente em rebanhos com alta prevalência de infecções causadas por esta bactéria.
O primeiro passo a se seguir para a realização da Blitz Terapia consiste na coleta de amostras de leite de todos os animais em lactação, para que possa ser realizado uma cultura microbiológica desse leite, permitindo assim identificar os animais acometidos pelo S.agalactiae. A etapa seguinte envolve a escolha adequada do antibiótico a ser utilizado e o planejamento dos dias de tratamento, levando em conta o tempo de descarte do leite com resíduos. Com o resultado da cultura microbiológica em mãos, é realizado o tratamento nas vacas positivas para S.agalactiae. A avaliação dos resultados pode ser feita por meio de novas culturas microbiológicas do leite, aos 14 e 21 dias após o tratamento, e o resultado negativo dessas culturas indica o sucesso da terapia.
A eficácia terapêutica das drogas antimicrobianas para a mastite dos Bovinos é dependente do agente etiológico, do uso apropriado da droga, de procedimentos sanitários, e da fase da doença. O Streptococcus agalactiae é geralmente sensível à terapia intramamária, usando uma variedade de preparações comerciais disponíveis. Experimentos mostram que os antimicrobianos mais eficientes no combate a essa bactéria são os beta-lactâmicos, como as penicilinas e as cefalosporinas. O tratamento de mastite causada por S. agalactiae com infusão intramamária de antibióticos durante a lactação se realizado corretamente, pode chegar a 100% de cura microbiológica e levar a uma redução de células somáticas tanto individualmente ( de 10 até 90% de redução) como do tanque de refrigeração.
Em uma situação em que a CCS do leite do tanque tem grande impacto no preço do leite, deve-se avaliar o custo de oportunidade do tratamento, mesmo de casos subclínicos, como uma estratégia viável para utilização. A decisão de se tratar ou não a mastite subclínica deve ser feita com base nos possíveis benefícios e custos de cada situação específica e em relação ao tipo de agente causador envolvido, conforme o quadro abaixo.
Quadro 1. Benefícios e custos do tratamento de mastite subclínica durante a lactação.
Considerando que cada rebanho tem suas peculiaridades quanto aos agentes causadores e em termos de custos e benefícios do tratamento de mastite subclínica durante a lactação, os principais fatores que devem ser levados em consideração para a justificativa ou não do tratamento são:
- probabilidade de cura após o tratamento;
- probabilidade de cura espontânea dos casos clínicos e subclínicos;
- probabilidade de transmissão para outras vacas;
- potencial de aumento do preço do leite (prêmios por qualidade);
- potencial de redução de custos (descartes, tratamentos repetidos, novas infecções);
- redução da renda do leite (leite descartado);
- custos adicionais: diagnóstico do agente causador, tratamentos, mão-de-obra.
Estudos mostram que o retorno financeiro obtido pela realização da blitz terapia são maiores para vacas tratadas no período O a 120 dias de lactação, e há uma pequena perda líquida para vacas tratadas no período de 121 a 305 dias de lactação. A perda para vacas tratadas no final da lactação é provavelmente atribuída à baixa produção de leite nessa fase, a qual não compensa os custos do tratamento.
O pagamento do leite por sua qualidade já é uma realidade vivida pelos produtores brasileiros. Estando a qualidade do leite diretamente relacionada à presença de mastite subclínica no rebanho, a utilização de técnicas que visam erradicar determinado tipo de patógeno do rebanho se faz de extrema importância e constitui uma ferramenta possível de ser realizada na fazenda. Assim, a Blitz Terapia se apresenta como uma maneira prática e eficaz na redução de células somáticas tanto individual como do tanque de refrigeração.