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A mastite, inflamação da glândula mamária, tem como principais agentes etiológicos fungos, algas e bactérias. Dentre eles destacam-se as bactérias Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactie relacionadas à mastite contagiosa e os coliformes (Escherichia coli, Klebsiella sp. e Enterobacter aerogenes) e Streptococci ambientais causadores da mastite ambiental. A mastite é uma patologia de elevada prevalência no rebanho leiteiro brasileiro, podendo acarretar elevados gastos com perda de animais, tratamentos, diminuição da produção e descarte de leite. Os mecanismos de defesa da vaca com relação aos patógenos causadores da mastite são constituídos, primariamente, pela barreira física promovida pela pele do teto e esfíncter e, posteriormente, pelo contato com neutrófilos, macrófagos, linfócitos e anticorpos. A vacinação é uma das maneiras mais eficientes de aumentar a capacidade de resposta imune da vaca contra agentes patogênicos. Essa eficiência é obtida pela migração mais rápida dos neutrófilos para o local da infecção e a estimulação da produção de anticorpos específicos pelos linfócitos B. Os anticorpos específicos têm a função de facilitar a fagocitose, neutralizar toxinas bacterianas, interferir nos mecanismos de adesão das bactérias e estimular a lise bacteriana. Portanto torna-se evidente a importância da imunidade do animal na resposta à doença.
Para real e eficaz controle e profilaxia da mastite, medidas básicas devem ser tomadas antes da implementação de uma tecnologia como a vacinação. Medidas essas representadas pela correta rotina de ordenha, higiênica, com uso do pré e pós dipping adequados; conforto dos animais, reduzindo ao máximo o estresse do mesmos; perfeito funcionamento e manutenção do equipamento de ordenha, evitando-se dessa forma lesões na barreira primária de proteção do animal; tratamento imediato dos casos clínicos, preconizando-se a cura microbiológica; tratamento de vacas secas e, finalmente, o descarte e segregação de animais cronicamente infectados. Estresse fisiológico no pré e pós-parto, deficiência nutricional e estresse calórico são fatores que influenciam negativamente o mecanismo da resposta imune.
O Staphylococcus aureus é uma bactéria Gram-positiva, sendo, geralmente, encontrado colonizando o canal do teto, o interior da glândula mamária ou a pele do teto, especialmente quando esta se encontra lesada. A transmissão ocorre principalmente através das mãos do ordenhador , panos/esponjas de uso múltiplo, conjunto de teteiras e outros procedimentos relacionados a ordenha. Uma vez instalado no interior da glândula mamária, este agente tem a propriedade de fixar-se às células epiteliais e estabelecer uma infecção através de múltiplos mecanismos patogênicos, tais como a produção de toxinas. Isto pode resultar em necrose do estroma e parênquima mamário, estabelecendo-se, nesse local, um foco de infecção. A prevalência deste agente no rebanho pode ser reduzida, em longo prazo, através da aplicação de medidas de manejo como a desinfecção dos tetos após a ordenha, tratamento de vaca seca e durante a lactação, associadas em muitas situações com a segregação de animais infectados e descarte de vacas com mastite crônica, bem como a utilização de vacinas específicas.
As vacinas contra Staphylococcus aureus são formuladas baseadas em componentes da parede celular das bactérias (proteína A), em fatores de aderência (fatores bacterianos que possibilitam a fixação do S.aureus nas células epiteliais mamárias) , em toxinas e em pseudocápsulas de S.aureus (camada viscosa que protege o patógeno da ação dos glóbulos brancos). O uso dessa tecnologia deve limitar-se a fazendas com alta prevalência desse patógeno, que já possuam perfeitas práticas no controle da mastite e cujos animais portadores sejam, preferencialmente, jovens. Dessa forma a resposta imune do animal será mais eficaz possibilitando a cura espontânea, diminuindo a severidade e duração dos casos clínicos e assim, diminuindo perdas e descarte animal. PANKEY e colaboradores avaliaram uma bacterina comercial contra mastite por S.aureus em 201 vacas de três rebanhos comerciais na Nova Zelândia. Estes autores, utilizaram vacas em primeira e em segunda lactação, por duas lactações, sendo que ambos os grupos receberam quatro injeções na primeira fase do estudo, e mais duas na segunda fase (todas as injeções foram intramuscular). As taxas de cura espôntanea durante a lactação foram de 62% no grupo de vacinadas contra 21% no grupo controle. A incidência de novas infecções foi similar em animais vacinados e controle. Indicando assim que a vacinação com este tipo de bacterina fortalece os mecanismos naturais de defesa da glândula mamária e facilita a eliminação de mastite subclinica por S.aureus.
A mastite ambiental acomete de forma mais dispendiosa rebanhos que possuem rigoroso controle da mastite contagiosa e que apresentam, geralmente, baixa contagem de células somáticas (CCS). Nesses rebanhos, cuidados especiais devem ser dados ao manejo do ambiente nos quais os animais permanecem. Práticas essenciais como o pré-dipping e tratamento das vacas secas também devem ser melhorados. Diversas vacinas foram testadas contra mastite causadas por coliforme, entretanto, devido a grande heterogeneidade doa antígenos deste grupo de bactérias, os resultados foram insatisfatórios até que no inicio da década de 1980, com identificação e o isolamento de uma cepa rugosa mutante de Escherichia coli, denominada J5, que expressa um antígeno interno comum a todas enterobactérias, foi possível o desenvolvimento de uma vacina eficaz contra agentes ambientais. Esta cepa mutante apresenta síntese normal do antígeno interno chamado de lipopolissacárideo, que estimula a resposta imune do animal contra os principais agentes gram-negativos causadores de mastite (FONSECA e SANTOS, 2007). Um estudo para avaliar o retorno financeiro da imunização com J5 foi realizado em 1991 por DeGraves e Fetrow. A analise parcial do orçamento mostrou uma lucratividade de U$ 57,00 por vaca em lactação sendo que análise estatística computadorial sugeriu que quando acima de 1% das vacas em lactação apresentarem mastite causada por coliforme, um programa de vacinação usando J5 deverá ser lucrativo. O uso da vacina J5 limita-se em diminuir a severidade e duração dos casos clínicos, sem influência na taxa de novas infecções. Um estudo conduzido por González e colaboradores, (1996) demonstrou maior redução na taxa de mastite clínica por coliformes quando os animais foram imunizados com 3 doses da vacina J5, alcançando um resultado de 70 a 80 % quando comparados com a aplicação de 2 doses,em que se obteve redução entre 39 a 42 %. O protocolo mais utilizado para essa vacina é a aplicação de uma dose na data da secagem com repetições trinta dias após a secagem e até sete dias após o parto.
A escolha em vacinar ou não o rebanho depende, portanto, do grau de acometimento do rebanho pelo patógeno em questão e qualidade das práticas básicas de controle da mastite. A vacinação representa não mais que uma das ferramentas na profilaxia, dentre todas as práticas de controle sanitário dos animais.