Nessa reportagem, você conhecerá a origem do Sisbov e o que levou a União Européia a restringir o seu mercado à entrada da carne brasileira. Verá também ao final uma entrevista com Gustavo Melo, médico veterinário e consultor técnico de fazendas de pecuária de corte assistidas pelo ReHAgro. Boa leitura!
Atualmente um assunto vem chamando a atenção de pecuaristas de todo o país. Trata-se da certificação da carne bovina brasileira através da rastreabilidade, sistema que permite saber exatamente a origem e todo o percurso da carne consumida, do campo até o consumidor.
O tema voltou à tona com a exigência da União Européia (UE), que quer garantias de que a carne para eles exportada é de qualidade e está livre de doenças ou qualquer produto que possa ser prejudicial à saúde humana. Para isso, o animal vendido ao frigorífico deve seguir as regras do Serviço Brasileiro de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (Sisbov), onde há um rigoroso controle dos animais, com anotações de insumos utilizados, manejos, vacinações, movimentações, abate.
Histórico
Em 2002, surgiu na Europa a doença Encefalopatia Espongiforme Bovina (BSE), mais conhecida como “mal da vaca louca”. Nela, o sistema nervoso é atingido, provocando descontrole motor do animal infectado. Por se tratar de uma doença que pode ser transmitida ao homem após a ingestão da carne contaminada, causando sintomas semelhantes ao encontrado nos bovinos, iniciou-se uma batalha para aumentar o controle e a prevenção da doença. Os europeus então passaram a exigir um sistema de rastreamento para os bovinos destinados ao abate e consumo da carne.
Em 2004 é instituído o Serviço Brasileiro de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (Sisbov), que ganha regras mais rígidas em 2006, em consonância com as exigências do mercado externo.
A carne brasileira, com qualidade e preços baixos, passa a competir com outros mercados externos, que vêem a carne nacional como uma presença indesejável no mercado europeu.
Em março de 2007, A União Européia concluiu haver deficiências extremamente sérias nos sistemas de saúde animal e rastreamento bovino, o Sisbov, no Brasil. E avisou que fecharia seu mercado à carne bovina nacional em caso de um novo foco de febre aftosa no país (foram descobertos casos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e Paraná no final de 2005). Além disso, alertou ao país de que deveria corrigir deficiências antes do fim do ano. E advertiu que se a situação de saúde animal piorasse no Brasil, iriam agir imediatamente.
Em novembro de 2007, chega ao país um grupo da União Européia, que encontra irregularidades no Sisbov. O grupo então solicita ao governo uma lista de propriedades aptas a exportar.
Inicia uma corrida para regularização das propriedades. O Ministério delegou aos órgãos executores da sanidade animal de cada estado a realização de vistorias nas propriedades ERAS (Estabelecimento Rural Aprovado pelo Sisbov). O IMA (Instituto Mineiro de Agropecuária) se destacou entre os demais, o que geraria um impacto positivo na primeira lista de propriedades aptas a exportar (1237 das 2631) liberada pelo governo brasileiro à EU.
O ministério da Agricultura fornece uma lista com 2.631 propriedades. A União Européia porém rejeita a lista, com a justificativa de que nem todas elas estavam capacitadas, e também que nem todas haviam sido auditadas pelo sistema.
Em 1° de fevereiro de 2008, a União Européia fecha seu mercado à entrada da carne bovina brasileira.
Para resolver o impasse, a Comissão Européia propôs uma visita de técnicos europeus às fazendas brasileiras para avaliar se as propriedades seguem os padrões de qualidade exigidos pelo bloco para a exportação de carne. No dia 25 de fevereiro, a missão chega ao Brasil.
Em 27 de fevereiro de 2008, a UE volta a permitir importações de carne de 106 fazendas brasileiras (87 delas dentro de Minas Gerais), que foram estabelecidas a partir de uma lista que as autoridades brasileiras enviaram à Comissão Européia, com os correspondentes relatórios das auditorias, que garantem que elas cumprem todos os requisitos para exportação de carne. Apesar da lista pequena, técnicos ressaltam a importância de se ter reaberto o mercado.
A inspeção das propriedades brasileiras pelos técnicos europeus termina no dia 14 de março, quando a lista de estabelecimentos rurais aptos a exportar deve aumentar.
Entrevista

Entrevista com Gustavo Melo, médico veterinário e consultor técnico de fazendas de pecuária de corte assistidas pelo ReHAgro.
1. Qual a importância do Sisbov?
Existe a importância de mercado, que no caso agrega valor quando se vende para mercados que exigem rastrabilidade e que pagam bem por ela. A outra é o controle detalhado do processo produtivo que o Sisbov possibilita, porque você consegue, principalmente através da nova IN, que a propriedade seja melhor trabalhada e gerenciada. Em função desse controle do processo produtivo, passo a passo, ela deixa começa a ser vista como uma empresa rural por todos que estão nela envolvidos. E isso é extremamente benéfico, essa maior profissionalização da atividade. Exemplo: controle de eventos sanitários, de movimentação de rebanho, de insumos, de mortalidade, tudo isso passa a ser inserido dentro de um contexto maior, e você consegue agregar valor através dessas praticas.
2. Vale a pena investir na rastreabilidade?
Sim, por todos os motivos citados acima. Além disso, é uma tendência mundial, que não tem como voltar atrás. E com certeza dentre de pouco tempo as exigências serão também para o mercado interno. Novas barreiras comerciais devem surgir com o tempo, e devemos estar prontos para ser competitivos dentro do mercado e superar as dificuldades que estão por vir.
3. Quais as maiores dificuldades que o produtor enfrenta para implantá-lo?
No caso dos produtores que faziam pouco ou nenhum controle do processo, a dificuldade é grande, mas pode ser superada. No caso de propriedades em que já existe um controle, a dificuldade não é tão grande. O primeiro ponto chave é a regularização do rebanho físico na propriedade com o rebanho que consta no órgão executor de sanidade animal do estado. É necessário a escolha de uma certificadora de qualidade, que cumpram prazos e tenham responsabilidade com o cliente. Rebanhos muito extensos, em que 100% dos animais deverão ser brincados e controlados individualmente, a implantação deve ser feita de forma criteriosa.
4. Quais os pontos chave para garantir a manutenção da rastreabilidade, após ser implantada?
Será preciso um controle rigoroso em aspectos principalmente ligados as movimentações dos animais e controle de eventos sanitários individuais. A anotação a campo dessas práticas são pontos críticos. O sistema exige informações detalhadas dos produtos como fabricante, validade e partida, o que dificulta a realização de anotações a campo. Isso implica em alteração no manejo tradicional e necessidade de qualificação do pessoal envolvido. Então a mão de obra se torna ainda mais essencial. Ela é a chave para a manutenção e o sucesso do sistema na propriedade, pois são eles que irão realizar essas anotações a campo rotineiramente. É preciso conscientizá-los da importância da realização desse controle.
5. Como a assistência técnica pode auxiliar o produtor a atingir os objetivos de rastreabilidade?
A assistência técnica auxilia na implantação, pois normalmente já trabalha com algum nível de controle zootécnico nas propriedades. Além disso, o assistente técnico pode ajudar bastante na conscientização dos funcionários e é uma ótima ferramenta para mensuração e manutenção das rotinas implantadas.
