A mastite (ou mamite) é a doença que mais traz prejuízos à atividade leiteira. Mesmo sendo a sua forma subclínica a mais predominante e aquela que mais acarreta danos econômicos, neste artigo abordaremos algumas das dúvidas mais freqüentes sobre a forma clínica da doença. A mastite é a inflamação da glândula mamária geralmente causada pela infecção bacteriana. Na sua forma clínica é visualizada através de alterações no leite (presença de coágulos) e/ou no úbere (inchaço e vermelhidão). Na sua forma severa o animal apresenta sintomas sistêmicos podendo levar até a morte. Diversas vezes nos deparamos com comentários e dúvidas de produtores e técnicos sobre esta doença. Neste artigo selecionamos 4 destas principais perguntas para discutir alguns conceitos básicos sobre a causa, prevenção e tratamento desta doença.
1) Quanto custa um caso de mastite clínica?
Geralmente como parte da explicação para esta pergunta deparamos com técnicos e produtores calculando os valores gastos com medicamentos e descarte de leite. Obviamente não existe uma resposta única, pois depende do nível de produção do animal acometido, estágio de lactação, severidade do caso, etc... porém, na média dos casos devemos levar em conta os ítens de custo abaixo:
|
Figura 1: Perdas devido à mastite clínica |
Como é de se esperar e podemos constatar na figura acima, a inflamação da glândula mamária traz grandes prejuízos ao órgão diretamente responsável pela fabricação do leite. Portanto o principal item de custo a ser levado em consideração é a perda na produção de leite decorrente da lesão do tecido mamário. Esta queda na produção ocorre tanto durante o caso clínico quanto no restante da lactação deste animal e é normalmente negligenciada pelos produtores, pois é uma perda que não conseguimos visualizar facilmente na maioria dos casos. Veja que somente 11% dos custos totais de um caso clínico foi associado a medicamentos. No estudo em questão cada caso clínico teve um custo de $107,00 (dólares). Faltam dados nacionais mais precisos, porém estimamos que o custo médio de um caso de mastite clínica em rebanhos de alta produção esteja em torno de R$200,00 a 300,00.
2) Como posso reduzir os custos com a mastite clínica?
Se os prejuízos estão associados aos reflexos da doença no animal, obviamente o melhor a ser feito é uma boa prevenção da mastite. Os principais deveres seriam manter um ambiente limpo e uma boa rotina de ordenha. No entanto, para que possamos mensurar o quanto a mastite clínica está afetando o rebanho é fundamental que os casos sejam prontamente identificados e anotados. A identificação deve ser feita através do teste da caneca de fundo escuro anterior a cada ordenha onde os primeiros jatos de leite de cada teto devem ser inspecionados. Uma boa meta seria possuir menos 1% das vacas acometidas diariamente, ou seja, em um rebanho de 100 vacas em lactação possuir no máximo uma vaca com sinais de mastite clíncia por dia.
3) Como devo tratar os casos de mastite clínica?
Não existe um protocolo ideal para todas as fazendas e nem para todos os casos, mas existem conceitos básicos que devem ser considerados e utilizados na prática. Casos severos de mastite clínica com comprometimento sistêmico do animal devem ser encaminhados ao médico veterinário responsável. Vamos focar aqui sugestões para tratamento de casos brandos de mastite.
Para que possamos definir a conduta de tratamento de uma doença é fundamental que saibamos qual o agente está envolvido nesta doença. Abaixo segue o histórico de cultivos microbiológicos de casos de mastite clínica de uma fazenda localizada em Minas Gerais:
|
Fígura 2: Diagnóstico microbiológico de casos de mastite clínica (n=543) |
Certamente os dados acima não servem de base para todas as fazendas, porém estão bastante condizentes com dados de outras fazendas e até mesmo de outros países. O dado que mais chama atenção no gráfico acima se refere ao percentual de casos que não geraram nenhum crescimento microbiano. Isso significa que ao detectar o caso clínico já não havia nenhuma bactéria presente na glândula mamária. O que ocorre na maioria desses casos é que a bactéria que causou a reação inflamatória e o caso clínico já foi combatida pelas defesas naturais do animal. Neste caso, em aproximadamente 30% das mastites clínicas, tratamentos com antibióticos são de nenhuma utilidade visto que a bactéria já foi eliminada pelo próprio animal.
Também nas mastites causadas por coliformes (um agente ambiental) a literatura nos mostra que o antibiótico tem pouca valia sendo as defesas do animal responsáveis por grande parte das curas que se dão de forma espontânea. Desta forma, em geral temos que por volta de 50% dos casos de mastite clínica evoluem para cura espontaneamente independente da utilização de antibióticos. Portanto, se quer uma boa taxa de cura nos casos de mastite clínica forneça boas condições de alimentação e conforto aos animais, suplemente corretamente os minerais essenciais e evite situações estressantes, pois assim temos vacas com melhores sistemas imunológicos e, portanto maiores taxas de curas.
Mas então não devemos utilizar antibióticos?
Apesar das ponderações anteriores, nos casos de mastite clínica causados por Streptococus ambientais, Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae, que perfazem juntos cerca de 30% dos casos, o uso de antibióticos é essencial para cura bacteriológica e geralmente tratamentos prolongados são requeridos. Portanto se não conhecemos os agentes causadores da mastite no momento da detecção do caso clínico o uso de antibióticos se torna praticamente essencial para o combate a essas bactérias evitando assim que o animal continue infectado e contribua para infecção de outros animais no rebanho.
Portanto aqui vão algumas dicas para os casos brandos de mastite clínica:
a) Trabalhe sempre no preventivo. Mantenha o ambiente o mais limpo possível e faça uma boa rotina de ordenha focando ordenhar tetos sempre muito limpos e secos pelo menor tempo possível.
b) Priorize a saúde dos animais fornecendo uma dieta adequada e evitando situações de estresse (calor, manejo, etc...).
c) Detecte o mais breve possível o caso clínico e mantenha sempre anotação dos casos. Assim podemos acompanhar a prevalência da doença e ainda a eficiência dos tratamentos.
d) No momento da detecção do caso clínico, sempre colete assepticamente uma amostra de leite do quarto afetado e congele a amostra para cultivo microbiológico futuro. Assim podemos manter um histórico e enxergar melhor quais os agentes estão mais presentes em nosso rebanho.
e) Use antibióticos intramamários da forma necessária para eliminar as bactérias que o demandam (geralmente terapia prolongada). Porém reconheça que em aproximadamente 50% dos casos a cura é independente do uso destes.
4) Onde estamos e para onde vamos?
Hoje em dia, fazendas que têm volume suficiente e estrutura têm implementado cultivos microbiológicos rápidos onde a identificação bacteriana ocorre após 24 horas do reconhecimento do caso clínico e o tratamento é evitado em mastites brandas causadas por coliformes ou sem crescimento bacteriano. Isto tem reduzido significativamente o uso de antibióticos, o descarte de leite e o risco de resíduos antimicrobianos no leite destas fazendas sem reflexo nas taxas de cura clínica, cura microbiológica ou na recorrência dos casos de mastite clínica. Laboratórios regionais ou mesmo de cooperados poderiam fazer o mesmo por produtores menores garantindo assim economia e segurança a estes produtores.