Saiba mais sobre o uso de fontes de gordura e seus benefícios na nutrição de vacas em lactação com o artigo "Vantagens do Uso de Fontes de Gordura na Dieta de Vacas Leiteiras", de Betânia Campos, medica veterinária.
Artigos Técnicos
Publicado em 10/06/2008 por Betânia Glória Campos, médica veterinária, mestranda em Produção Animal-UFMG.

Vantagens do Uso de Fontes de Gordura na Dieta de Vacas Leiteiras

                      

Introdução


Várias fontes de gorduras têm sido extensamente pesquisadas para utilização na dieta de vacas leiteiras. Principalmente as que são ricas em ácidos graxos essenciais, por apresentarem efeitos benéficos diretos na reprodução. Ácidos graxos essenciais são assim denominados por não serem sintetizados pelo corpo do animal, e por isso necessitam estar presentes na dieta. Os benefícios da utilização de gordura na dieta animal incluem desde a atenuação do balanço energético negativo através do aumento da densidade da dieta em situações onde há diminuição do consumo voluntário até aumento da eficiência ruminal pela inibição de protozoários e bactérias metanogênicas, aumento da produção de leite e da gordura e melhoria do desempenho reprodutivo. Entretanto, o excesso de gordura na dieta pode resultar justamente em efeitos antagônicos como: depressão no consumo, depressão das concentrações de gordura e proteína do leite e queda na produção de leite. Portanto, atenção deve ser dada em quanto e como usar gordura na dieta de vacas leiteiras.

Efeitos na fermentação ruminal
Quando pensamos em alimentar vacas, na verdade, estamos pensando em alimentar os microorganismos presentes no rúmen do animal. A maior parte dos alimentos presentes na dieta destes animais será processada no rúmen e pequena parte passada diretamente ao intestino. Estes alimentos são digeridos e utilizados como fonte de energia no rúmen por diferentes tipos de microorganismos como; bactérias, protozoários e fungos. Quanto maior a utilização de alimentos fermentáveis no rúmen, maior será a otimização da fermentação ruminal, levando a um aumento da síntese microbiana, maior produção de AGV (ácidos graxos voláteis) e maior fluxo de proteína microbiana ao intestino. Ácidos graxos voláteis são as principais fontes de energia para a vaca, bem como a proteína microbiana a principal fonte de proteína. Ambos estão diretamente relacionados ao volume de leite produzido e os seus constituintes.

As gorduras, por sua vez, não são utilizadas como fonte de energia pelos microorganismos  ruminais. As gorduras são metabolizadas em ácidos graxos e glicerol no rúmen e somente o glicerol (cerca de 2% da composição) será fermentado pelas bactérias e utilizado diretamente como fonte de energia a estes microorganismos.

Então como a utilização da gordura na dieta poderá melhorar a eficiência produtiva animal?
Durante os primeiros 100 dias da lactação as necessidades nutricionais das vacas de alta produção (principalmente primíparas, que ainda estão em crescimento) são muito grandes e não podem ser atendidas adequadamente, porque o seu consumo voluntário é insuficiente nesse período. Ocorre, então, um déficit nutricional que em parte é suprido pelas reservais corporais do animal e reflete negativamente na produção e fertilidade. Na deficiência de energia, primeiro sofrem as reservas corporais, em seguida a fertilidade e por fim a produção leiteira.

Vacas em estresse calórico também diminuem o consumo voluntário, principalmente de forragem, devido ao calor produzido durante a fermentação ruminal destes alimentos, aumentando o desconforto térmico. Estes animais mobilizam mais energia para a perda de calor e manutenção da temperatura corporal, energia esta que poderia estar sendo direcionada à produção de leite. A maior eficiência observada para vacas consumindo dietas com gordura pode estar relacionada com menor gasto de energia para mantença usada para dissipar calor em condições de estresse calórico.

Para que seja atendida a demanda nutricional destes animais torna-se necessário aumentar a concentração energética ou densidade energética da dieta através do aumento da proporção de alimentos concentrados. Contudo, o fornecimento máximo de concentrado deve ser limitado, respeitando a necessidade de um mínimo de fibra para o funcionamento ideal do ambiente ruminal e manutenção dos teores de gordura do leite. Assim, a utilização de gordura na dieta será uma alternativa para o aumento da densidade energética. As gorduras ou lipídeos contêm em torno de 2,25 vezes mais energia que carboidratos, a fonte mais utilizada de energia nas dietas animais.

As gorduras são compostas por ácidos graxos. Existem vários tipos de ácidos graxos; os saturados, insaturados, de cadeia curta e de cadeia longa. Os ácidos graxos insaturados e os de cadeia curta são mais tóxicos à microbiota ruminal, afetando principalmente as bactérias gram-positivas e protozoários ciliados. Os ácidos graxos insaturados passam por um processo de saturação no rúmen, conhecido como biohidrogenação. Este processo nada mais é que um mecanismo de defesa da microbiota ruminal, que transforma ácidos graxos mais tóxicos, em menos tóxicos (saturados). Quando a inclusão de gordura é de até 5,5 a 6% da matéria seca da dieta, estamos fornecendo mais energia ao animal sem o comprometimento da microbiota ruminal. Alguns autores defendem a teoria de que, nestes níveis de inclusão, há uma melhoria na eficiência do metabolismo energético ruminal, atuando de maneira semelhante aos ionóforos, reduzindo o número de protozoários ciliados e bactérias metanogêncas, responsáveis pela proteólise e produção de metano respectivamente, levando a um gasto desnecessário de energia pelo rúmen.

Porém, o rumem só consegue suportar uma determinada quantidade desta fonte energética antes que a população microbiana ruminal seja drasticamente alterada ou atacada. Em quantidades excessivas, acima de 5,5 a 6% da matéria da dieta a gordura passa a ter efeito tóxico à microbiota ruminal. Isso ocorre porque há uma superação da capacidade de biohidrogenação dos ácidos graxos insaturados, pelas bactérias, levando a morte de bactérias principalmente celulotíticas, responsáveis pela digestão de alimentos fibrosos. Isso resulta em menor digestão, menor produção de AGV e síntese de proteína microbiana. Além disso, os produtos oriundos do processo parcial da biohidrogenação interferem diretamente na síntese de gordura do leite na glândula mamária. O resultado, então, será depressão do consumo e, consequentemente, aumento do balanço energético negativo, diminuição da produção, gordura e proteína do leite. Como foi citado acima, a gordura é mais tóxica à microbiota celulolítica, responsável pela digestão de fibra, portanto, deve ser dada maior cautela na inclusão de gorduras em dietas com altos teores de fibra ou de fibra de baixa digestibilidade.

Produtos Disponíveis
As gorduras podem ser provenientes de grãos, forragens, sementes integrais, óleo vegetal, gordura animal. Praticamente todos os ingredientes utilizados na dieta animal apresentam uma porção de lipídeos ou “extrato etéreo” em sua composição. Em geral, uma dieta composta por volumoso e concentrado sem adição de gordura, terá em média 3% de sua constituição (matéria seca) em extrato etéreo.

As sementes de algumas plantas como, por exemplo, soja, girassol, algodão, podem acumular até 45% de lipídeos do seu peso em matéria seca. Estas sementes são melhores fontes de lipídeos porque o óleo geralmente é liberado lentamente no rúmen, não superando a capacidade de biohidrogenção pelos microorganismos ruminais. Os óleos vegetais são mais insaturados do que a gordura animal e por isso deprimem mais a digestibilidade da fibra do que a gordura animal. Porém, a utilização de qualquer fonte de gordura animal em dietas para ruminantes foi proibida desde 2004. Outra fonte de gordura são as chamadas “gorduras protegidas” ou gorduras associadas a sais de cálcio que praticamente não sofrem digestão ruminal (cerca de 80% de proteção). As gorduras protegidas são formas seguras de aumentar a densidade da dieta sem o comprometimento ruminal, além de serem fontes de ácidos graxos essenciais, porém, ainda são fontes de custo elevado. Geralmente os alimentos utilizados na alimentação de vacas leiteiras não conseguem repor os ácidos graxos essenciais secretados no leite, por exemplo, linoléico e linolênico. Cerca de somente 12-25% dos ácidos graxos insaturados (extrato etéreo dos grãos, sementes oleoginosas, sebos e óleos) alcançariam o intestino e seriam absorvidos, devido à alta biohidrogenação causada pelos microorganismos ruminais. Uma fonte lipídica ideal deve ser aquela que tem mínima interferência sobre a fermentação ruminal e alta digestibilidade no intestino delgado.



Efeitos na Reprodução
É amplamente conhecido que a energia apresenta efeito positivo sobre a reprodução de vacas em lactação. Pesquisas mais recentes sinalizam que ácidos graxos essenciais exercem efeito específico sobre a reprodução. Certas quantidades de ácidos graxos essenciais como Linoléico e Linolênico são nutrientes necessários na síntese de prostaglandina e na regulação da concentração de progesterona. As prostaglandinas são vitais para o início do parto na involução do útero, no restabelecimento do ciclo estral, no crescimento dos folículos ovarianos e na ovulação. As pesquisas apontam aumento do número de folículos e tamanho do folículo dominante. A progesterona é vital na manutenção da prenhez. Com a adição de gordura á dieta foi observado também aumento na taxa de concepção geral e ao primeiro serviço.

 
Efeito no sistema Imune
As pesquisas têm demonstrado que os AGE também atuam no sistema imune reforçando a produção de linfócitos, neutrófilos (células de defesa do sistema imunológico) de acordo com o tipo de ácido graxo suplementado.

Conclusão
O uso de fontes de gordura na dieta animal pode trazer grandes benefícios à produção, reprodução e imunidade animal, porém os resultados estão vinculados à fonte escolhida, à quantidade utilizada e à dieta na qual o produto será inserido.


:: Comentários ::


Escreva aqui o seu comentário sobre o artigo. Ele é muito importante para gerar discussões produtivas sobre o assunto. Contribua!

Comentários
Nome:
Vínculo ao Agronegócio:
Comentário: