Entenda um pouco do que está acontecendo no mercado de leite nesta entrevista de Maurício Palma Nogueira – Engenheiro agrônomo pela ESALQ/USP, especialista em administração rural, produtor rural, consultor e sócio-diretor da Scot Consultoria.
ReHAgro News
Publicado em 30/06/2008 por Ana Elisa F. Marra e Mônica Cotta, Médicas veterinárias - Equipe ReHAgro.


Entrevista concedida em 21 de junho de 2008

1.De acordo com a Scot Consultoria, o valor pago ao produtor de leite é o maior da última década para o mesmo período. O que explica esta alta?

Com a crise dos últimos anos, o produtor não se preparou para atender a demanda repentina de leite no mercado interno. Além da demanda, muitas regiões do mundo tiveram problema de produção. Por isso, o que está acontecendo é um desequilíbrio entre oferta e demanda. Grosso modo: falta leite para atender ao mercado.

2.Mesmo com esta alta de preços, no mês de maio foi registrada uma pequena queda no preço do litro do leite (ex: Pompéu 4%). Por quê? Isso já pode sinalizar uma tendência de queda de preço?

Na verdade, os preços médios se mantiveram em junho, pagamento da produção de maio. No Brasil, média geral, houve até um pequeno reajuste nos valores. Em Minas Gerais o preço pago foi o mesmo do mês anterior.

O que aconteceu em Minas Gerais, na verdade, é que as indústrias que vinham pagando preços mais elevados no mercado, reduziram os valores pagos aos produtores que recebem os melhores preços.

Outras, que estavam abaixo dos preços médios, aumentaram o preço aos seus fornecedores, mantendo o valor médio do Estado praticamente estável.

Em Goiás, onde os preços estiveram os mais altos do Brasil no final de 2007 e início de 2008, os valores pagos já recuaram para a produção de maio.
 
De qualquer forma, o mercado sinaliza para queda nos preços nos próximos pagamentos. Embora essa queda tenda a ser pouco acentuada, os valores que serão pagos pelo leite devem começar a recuar.

3.O valor pago ao produtor pelo litro de leite aumentou, mas os insumos, principalmente o sal mineral e os fertilizantes, aumentaram também. Qual, então, o ganho real do produtor neste período?

Do ano passado para cá, se fizermos as contas, o que subiu nos custos de produção foi praticamente igual ao que subiu nos preços. Tudo indica que o resultado de 2008 seja bom, mas inferior ao que foi registrado em 2007.

A animação pelos bons preços no início do ano é ilusória, o que acaba com o paradigma de que preço alto é sinônimo de bom resultado, de lucro.

Essa quebra de paradigma é boa porque privilegia os produtores profissionais. Este ano, a situação dificulta a entrada de aventureiros, que conseguiriam aumentar a produção de leite simplesmente fornecendo concentrados às suas vacas.

O profissional por outro lado, está em uma fase boa. Mesmo com os custos mais elevados e a relação de troca por alimentos inferior, o produtor não vive a crise que viveu em anos anteriores. A ausência de aventureiros faz com que o volume de leite não aumente e não derrube consideravelmente o preço como normalmente aconteceria em outros anos.

4.Muito se falou que o pequeno produtor de leite não iria resistir no negócio, mas  alguns levantamentos mostram que o número deles está crescendo. Como o Sr explica isso?

A atividade leiteira é uma das mais versáteis e democráticas em termos de área. Você pode ser um médio e grande produtor em uma área pequena. Quem irá sair do mercado é quem não for profissional na produção leiteira. Quem tem baixa produtividade por área tende a ser excluído. Ressalto que quando digo alta produtividade, não estou me referindo a uma raça específica.

Se o produtor optar por trabalhar com raças de menor potencial leiteiro, ele terá que colocar mais animais por área.

Já existem projetos em são Paulo e em Minas de produtores que chegam a produzir cerca de 35.000 litros de leite/ha/ano. Isso significa que, se você tiver 30 ha, pode produzir até 2.800 litros/dia, em uma pequena área.

5.Como fazer então para buscar essa eficiência quando se é pequeno?

Planejando. Tem alguns programas como o coordenado pela Embrapa Pecuária Sudeste, Programa Balde Cheio, que fazem convênios com indústrias.

O produtor pode também buscar assistência técnica privada.

Congressos, palestras, cursos de capacitação também podem ser ferramentas interessantes, aonde é possível, por um preço menor, fazer por conta própria, trocando idéias com outras pessoas e devagar ir implementando as melhorias.

O Rehagro, mesmo, é uma das empresas que oferece esse tipo de conhecimento via cursos e treinamento.  É preciso um investimento elevado para aumentar cada litro de leite na produção diária da empresa. Em média, dependendo da tecnologia, investe-se entre R$ 200,00 a R$ 400,00 para aumentar um litro na produção.

Sendo assim, na falta de recursos, o produtor tem que buscar oportunidades na sua região que agreguem valor à sua área. Em diversas regiões os profissionais estão fazendo isso com cana-de-açúcar.  

Arrendam parte da fazenda para essa cultura e, com o dinheiro, investem na compra de animais e implementação de melhorias, restringindo a pecuária leiteira em uma parte da propriedade. A propriedade passa a gerar mais lucro.

6.Podemos falar que, hoje, a entressafra no leite, em termos de volume de produção, é algo pouco significativo, já que os produtores estão caminhando para uma maior tecnificação?A diferença de preços entre safra e entressafra (%) tem diminuído?

Tem diminuído, mas não apenas por isso. A tendência é que o produtor seja o mais profissional possível e venda leite na entressafra.

A diferença de preços nestas duas épocas diminuiu porque a indústria está valorizando a compra de leite na safra. Comprando neste período, e fabricando produtos estocáveis, a indústria consegue não deixar subir muito o preço na entressafra. Trata-se de uma estratégia comercial muito bem elaborada.

Mesmo assim, os produtores caminham para um sistema de nutrição melhor que possibilite essa equivalência de produção na seca, já que este é, inclusive, um período melhor do ponto de vista sanitário.

7.O mercado de leite é cíclico, tem períodos de altos e baixos. Porém, o custo de vida tem se elevado cada vez mais. Está mais desafiador para o produtor enfrentar os períodos de crise?

Muito. Quem não for bom vai sair do mercado. A expectativa é de que veremos, num futuro próximo, cerca de 70% dos produtores abandonarem a atividade. E quem vai ficar não são os grandes ou os pequenos, são os profissionais. Isso porque o leite permite uma grande produtividade por área, escala de produção em área pequena.

8.Como você vê a entrada de grandes grupos, como a Perdigão, investindo no setor?

Eles foram ocupando um espaço que foi deixado ao longo do tempo. Desde 1991, observamos cooperativas e indústrias fechando as portas, reduzindo o número de empresas com marcas que vão ao varejo.

A ocupação destes espaços é um reajuste de forças. O leite tem sido visto como um potencial, tanto no mercado interno como no externo. Acho que ainda virão mais investidores. Para o produtor, essa tendência é muito boa, pois há investimento no setor.


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