Entenda a revisão dos valores energéticos do caroço de algodão do NRC com o artigo "Novos conceitos sobre valor energético do caroço de algodão".
Artigos Técnicos
Publicado em 07/07/2008 por Danilo Augusto - Graduando em Medicina Veterinária; Estagiário ReHAgro

Novos conceitos sobre valor energético do caroço de algodão

A 7ª Edição Revisada do NRC - 2001 objetivou balancear e adequar o fornecimento de energia para atender os requisitos diários dos animais. Dietas balanceadas de acordo com o NRC de 1989 subestimavam o valor energético de alguns alimentos em até 7%, o que foi comprovado por estudos realizados na década de 1990. Os cálculos dos valores de energia dos alimentos e, consequentemente, da dieta, necessitavam ser revisados independentemente de mudanças na estimativa das necessidades nutricionais dos animais leiteiros, tornando imprescindível o balanceamento de dietas com equações mais atuais.

Para aproximar ao máximo do valor das necessidades energéticas do rebanho, é importante conhecer as características produtivas, zootécnicas e fisiológicas dos animais. Porém, é importante ressaltar dois pontos-chave que podem causar erros na formulação de uma dieta:

1 – Superestimar valores: quando energia fornecida pela dieta está além do que os animais precisam.

2 – Subestimar valores: quando a energia fornecida pela dieta está aquém das necessidades dos animais.

No primeiro caso, o produtor estará gastando mais, sendo que cerca de 40 a 50% dos custos por litro de leite produzido vem da alimentação dos animais. Já no segundo erro, o produtor estará perdendo dinheiro, devido ao fato de os animais não atingirem o seu potencial produtivo. O prejuízo, todavia, depende do preço e quantidade dos insumos.

Abaixo, estão relacionados alguns motivos da mudança do valor energético do caroço de algodão, de acordo com o NRC (2001):

1) Cálculos matemáticos de NDT do NRC de1989 - quando medidos em bovinos, eram destinados somente para atender as necessidades basais, ou seja, energia de mantença e não enfatizando,assim, sua produção.

2) A composição do caroço de algodão mudou devido a diferenças genéticas e manejo das culturas, além de diferentes tipos de processamento.

3) A utilização de um único valor de energia para um determinado ingrediente da ração, supondo que todas as amostras deste ingrediente tenham o mesmo valor de energia, independente de variações na composição de nutrientes.
 
4) O nível de ingestão e a composição da dieta afetam a digestibilidade dos ingredientes da ração.

Muitos valores de NDT foram determinados há décadas e não foram atualizados. Um exemplo está no NRC,1996 - Gado de Corte que apresenta 90% de NDT, 17,5% de Extrato Etéreo e 51,6% de FDN, enquanto que, no NRC 1989 – Gado de Leite, os valores são de 90% de NDT, 20% de Extrato Etéreo e 44% de FDN, para o mesmo alimento. Como é possível 2 rações diferirem em 2,5 pontos percentuais em extrato etéreo e  8 unidades de FDN terem o mesmo valor de energia?



A tabela 1 ilustra a variação da composição bromatológica do caroço de algodão de acordo com análises feitas por diferentes pesquisadores e épocas. O extrato etéreo (EE) do caroço de algodão variou de 17,3 até 21,7; enquanto a proteína bruta (PB) variou de 18,9 até 23,9.

Portanto, é importante saber a composição do caroço de algodão que irá ser utilizado. Não podemos também nos esquecer dos efeitos de consumo e digestibilidade que o animal apresentará, pois a energia absorvida pelo animal depende inteiramente do conjunto de processos: conteúdo (o que o caroço de algodão contém), quantidade ingerida (consumo de matéria seca) e aproveitamento ou digestão (absorção de energia pelo animal).


A composição de nutrientes no concentrado também pode variar consideravelmente (Belyea et al., 1989; Kertz, 1998).

O efeito da composição da dieta e o nível de ingestão afetam a digestibilidade e interferem diretamente na quantidade de energia absorvida pelo animal. É impróprio fornecer energia sem conhecer o consumo ou até mesmo compor dietas em que um ingrediente interfere na absorção do outro. Esse efeito associativo entre diferentes componentes pode ser um problema na determinação da digestibilidade, pois alguns alimentos, em virtude da incorporação de um ou mais ingredientes na dieta, poderão produzir mudanças na digestão e no metabolismo dos nutrientes.
Segundo Weiss (1993), apesar da quantidade total de energia contida no alimento ser facilmente medida pela combustão do alimento na bomba calorimétrica, a variabilidade na digestibilidade e metabolismo dos alimentos impede o uso da energia bruta na formulação de dietas ou comparação de alimentos. Os valores obtidos através de análise de digestão dos animais possuem maior acurácia, mas são mais difíceis de serem mensurados devido à complexidade de processos digestivos nos animais.

A concentração de ELL (energia liquida para lactação) do caroço integral de algodão fornecido na composição da ração na tabela do NRC de2001 é de 1,94 Mcal/KgMS, enquanto na tabela do NRC  de1989, é de 2,22 Mcal/KgMS. Grande parte dessa diferença, simplesmente, reflete as variações no teor de nutrientes do caroço de algodão (Tabela 1). A tabela do NRC 2001 mostra uma concentração média de gordura de 19,3 % contra 20 % do NRC de 1989 e uma concentração media de FDN de 50% contra 44 % do NRC de 1989. Quando o caroço de algodão substitui uma parte do milho triturado em uma dieta com uma concentração aceitável de forragem e FDN, não se observa diferença em produção de leite (Adams, et al., 1995) e quando dados dos experimentos foram incluídos no modelo de calculo de ELL de acordo com o NRC 2001, a concentração estimada de ELL das dietas totais foi a mesma (1,65 Mcal/KgMS), sugerindo que milho triturado e caroço de algodão possuíam nesta dieta concentrações bastante semelhantes de ELL. Já em dietas com altos níveis de concentrado (baixo teor de FDN), a substituição de uma quantidade significativa de cevada laminada por caroço de algodão aumentou a produção de leite (Smith e Vosloo, 1994) e as concentrações estimadas pelo NRC (2001) de ELL da dieta total aumentaram com a inclusão do caroço de algodão (1,61 vs. 1,72 Mcal/KgMS). Isto sugere que, em certas dietas e em certos níveis de ingestão, o caroço integral de algodão e o milho triturado podem ter valores semelhantes de ELL, mas em outras dietas, o caroço integral de algodão pode ter significativamente mais ELL.

De acordo o NRC (2001), a digestibilidade é reduzida em função do aumento no consumo. O nível de consumo de matéria seca da dieta proposta, além do nível de mantença, deve ser conhecido para se calcular o fator de desconto (FC), que reflete o decréscimo em digestibilidade, resultante do aumento na taxa de passagem. Com o aumento da taxa de passagem, a permanência dos alimentos no rúmen diminui, proporcionando uma redução na extensão da fermentação dos carboidratos (principalmente os fibrosos) , diminuindo a ação dos microrganismos ruminais nos alimentos. Restringida a ação dos microorganismos ruminais, a absorção de energia é reduzida. Assim, dietas que potencialmente forneceriam um determinado valor de energia, possivelmente não resultariam na expressão do potencial produtivo esperado dos animais, devido ao aumento da taxa de passagem e aumento do consumo de matéria seca, ocasionado pelo aumento na inclusão de concentrado. Isto mostra que o uso de valores tabelados e com cálculos de energia antigos não serve para comparar valores de energia em rações contendo o caroço de algodão.

Assim, devem-se comparar os valores de energia de uma ração em dietas com quantidades específicas de concentrados e ingestão conhecida de matéria seca, além de utilizar valores energéticos atuais do caroço de algodão.

O caroço de algodão, então, pode ser uma opção interessante em formulações de dietas. Entretanto, o conhecimento do valor energético desse ingrediente é fundamental para a obtenção plena de resultados de produção nos animais alimentados com ele.

 

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