Confira no artigo "Biotecnologia: nova arma contra a lagarta-do-cartucho do milho" como combater uma das maiores pragas no cultivo de milho.
Artigos Técnicos
Publicado em 14/07/2008 por Rosangela C. Marucci e Silvino G. Moreira. engenheiros agronomos

Biotecnologia: nova arma contra a lagarta-do-cartucho do milho

Antes de discutirmos sobre o papel da biotecnologia no controle da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) do milho, é importante entender por que essa praga se tornou uma das mais temidas da atualidade, tanto no cultivo de milho para grão, como de milho para silagem.

Na última safra (2007/2008), o atraso das chuvas e as altas temperaturas do verão, ocorridas principalmente em Minas Gerais e São Paulo, proporcionaram condições altamente favoráveis à sua proliferação, o que contribuiu para o aumento da população no campo e da voracidade, pois a lagarta-do-cartucho se alimenta das plantas de milho em diversas idades. Nessas condições totalmente favoráveis a altas infestações, algumas lavouras foram perdidas, necessitando de replantio, e outras foram literalmente devastadas pela praga, diminuindo a produtividade.

 Plântulas de milho sendo cortadas pelas lagartas logo após emergência (Fonte: Moreira, 2007)


Controle ineficiente das lagartas na cultura antecessora ao milho. As lagartas iniciam o ataque em plântulas de milho recém-emergidas e em alguns casos o tratamento de sementes não tem sido suficiente para detê-las, pois já estão previamente nas áreas, remanescentes das culturas antecessoras (aveia, sorgo, braquiária, feijão). Nessa situação, as lagartas em final de ciclo (tamanho maior que 1,5 cm) cortam as plântulas recém-emergidas na base, sendo responsável pela redução do estande e conseqüente da produtividade da área. Para evitar esse ataque, é imprescindível amostrar a cultura antecessora ao milho e caso se constate a presença de lagartas, controlá-las antes do plantio do milho. Em alguns casos, além desse controle em área total, tem sido feita a aplicação de inseticida (clorpirifós) no sulco de plantio quando se comprovar a presença de lagartas maiores que 1,5 cm na área. Essa aplicação tem sido feita com bicos de pulverização específicos, colocados em cada linha da plantadeira, com volume de calda por volta de 20 litros/ha. O inseticida é aplicado antes de a semente ser tapada com terra.

Uma das formas de evitar os ataques iniciais de lagartas em plântulas de milho, com perdas de população inicial, é não realizar a semeadura de milho no sistema “plante aplique” ou “aplique e plante”, principalmente quando a cultura antecessora ao milho for uma gramínea (braquiárias, panicuns, aveia, azevém e outros). Nessas áreas tem sido recomendada a dessecagem pós-colheita em áreas de grãos, que é eliminação das plantas cerca 20 a 30 dias após a colheita, através de uma dessecagem. Nas áreas destinadas ao cultivo de milho para silagem, é recomendada fazer a dessecagem da cultura antecessora pelo menos 25 a 30 dias antes da semeadura do milho. Essa prática tem diminuído a população da praga, contribuindo para reduzir os problemas de perdas iniciais de plântulas. No entanto, dificilmente tem sido aplicada em áreas irrigadas, devido ao longo tempo de espera.

 Características do ataque inicial. Quando as áreas já não estão previamente infestadas pelas lagartas, a partir dos 15 dias da emergência do milho, geralmente predominam lagartas recém-eclodidas (pequenas), que se alimentam apenas da parte verde da folha, raspando-as, sem ocasionar furos nas mesmas. Já as lagartas a partir do 2o ínstar (segunda idade), começam a furar as folhas, caminhando em direção ao cartucho da planta onde permanecem até o estádio de pupa e consomem grande quantidade de área foliar. A intensidade de dano é influenciada pelo vigor da planta e pelo clima.
Ainda na fase inicial de desenvolvimento do milho, as lagartas podem penetrar no colmo, através do cartucho, fazendo galerias descendentes e danificar o ponto de crescimento, causando morte das plantas e o sintoma conhecido como “coração-morto”.

O tratamento de sementes é uma boa alternativa para proteger as plantas nessa fase inicial de desenvolvimento, quando predominam lagartas pequenas. Os produtos utilizados com sucesso para tratamento das sementes têm sido à base de tiodicarbe, carbofuran, furaticarbe e imidacloprid + tiodicarbe. Eles conferem proteção inicial que é variável, em função das condições climáticas e do histórico da área. No entanto, a lavoura deve ser monitorada e pulverizada, quando o nível de controle for atingido.
 
 Ataque às espigas. Em infestações tardias, quando as plantas apresentam cerca de 12 folhas, a lagarta se alimenta do pendão floral antes que este saia de dentro do cartucho, destruindo-o completamente. Ataca o “cabelo” (estilo-estigmas) do milho, prejudicando a formação de grãos. Perfura as espigas mais novas, geralmente do meio para a base, causando perda de qualidade para o consumo de milho verde. Destrói parte da palha, grãos leitosos e o sabugo. Quando se alimenta dos grãos leitosos pode ser confundida com a lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea). Também se alimenta do gérmen do grão em fase de secagem natural em campo, como tem sido relatado nas regiões produtoras do Nordeste do Brasil. Quando ocorre nessa fase, é mais importante para áreas de produção de sementes, onde os prejuízos são consideráveis, e o controle químico se torna inviável.

Dessa forma, a lagarta-do-cartucho está presente na cultura do milho desde o plantio até a colheita, dificultando muito seu manejo caso as medidas de controle não sejam adotadas no momento apropriado (antes do plantio e na fase inicial de desenvolvimento do milho).

 Controle da lagarta-do-cartucho. O controle da lagarta antes do milho apresentar oito folhas visíveis é feito normalmente com barra de pulverização e a eficiência da aplicação depende do estágio de infestação, do tamanho das lagartas, das condições climáticas (umidade relativa, vento e temperatura) no momento da aplicação, dentre outros aspectos. A época ideal de iniciar as medidas de controle é quando a lavoura apresentar 15% das plantas com o sintoma de folhas raspadas. Uma alternativa para melhorar a eficiência de pulverização e atingir mais facilmente o alvo (cartucho do milho) é o uso de bicos capa dupla na barra de pulverização.

Após grande destruição do cartucho da planta pelas lagartas, além de já ter ocorrido perda de produtividade, a eficiência do controle é grandemente reduzida, devido ao maior tamanho das lagartas e a dificuldade em atingi-las dentro do cartucho, devido à posição que as mesmas se encontram (mais internamente no cartucho).

Outro ponto crítico é que o uso de pulverizadores é inviável em lavouras com mais de oito folhas, devido ao tombamento das plantas pela própria barra e a dificuldade do produto atingir o centro do cartucho, onde se encontra a praga. Uma opção seria a utilização do pulverizador costal em áreas pequenas e a aplicação via pivô, em áreas irrigadas. No entanto, a aplicação via pivô deve ser planejada e os produtos bem selecionados, devido aos perigos ao meio ambiente e ao homem, durante a aplicação.

 Tão importante é a lagarta-do-cartucho para o milho, que existem hoje mais de 100 produtos registrados para seu controle. As empresas de defensivos agrícolas estão comercializando inclusive produtos com a junção de dois grupos químicos, como por exemplo, piretróide + fisiológico, piretróide + neonicotinóide, piretróide + organofosforado, cuja mistura visa aumentar a eficiência de controle além de ser uma ferramenta para manejo da resistência de Spodoptera aos inseticidas. Na escolha do produto, deve-se levar em consideração o tamanho das lagartas e o nível de infestação da área. Além disso, deve-se fazer rotação de produtos (diferentes grupos químicos) em cada aplicação e buscar utilizar os inseticidas de menor impacto ao meio ambiente e aos inimigos naturais.


                      Lagartas mortas após aplicação de inseticidas (Moreira, 2007).

Liberação comercial do milho geneticamente modificado. Recentemente houve a liberação do milho transgênico, resistente a lagarta-do-cartucho. Essa é mais uma ferramenta na tentativa amenizar os danos causados por essa praga, considerada a mais avassaladora na cultura do milho.

Os híbridos transgênicos de milho que estarão disponíveis nas próximas safras apresentam, incorporado ao seu DNA (código genético), o gene da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), cuja denominação científica é Cry (“crystal”). Esse gene determina a expressão da toxina Cry (proteína em forma de cristais), que é letal para algumas espécies de insetos como: broca-da-cana, lagarta-do-cartucho e lagarta-da-espiga. Na fase de lagarta, esses insetos possuem pH alcalino em seu trato digestivo, assim, o inseto, ao ingerir parte da planta contendo esse gene, solubiliza a enzima tóxica pela ação das proteases, provocando sua difusão por todo trato digestivo, destruição e ruptura dos tecidos, com paralisação e, posterior, morte do inseto. A grande vantagem dessa técnica é que a planta de milho expressa essa toxina durante todo seu ciclo, protegendo a planta do ataque da lagarta-do-cartucho nas fases críticas do milho (definição de produtividade). No entanto, essa também é uma desvantagem, por aumentar a probabilidade de selecionar insetos resistentes ao Bt, caso medidas de manejo da resistência não sejam adotadas.

É importante ficar claro que a toxina Bt tem efeito apenas sobre algumas espécies de lagartas (broca-da-cana, lagarta-da-espiga e lagarta-do-cartucho) e medidas de controle deverão continuar sendo adotas para o manejo das outras pragas, como tratamento de sementes para lagartas, besouros de solo e sugadores e demais pulverizações que se fizerem necessárias em função do nível de infestação dos demais insetos-praga do milho.

Campo demonstrativo de milho transgênico na região de Luiz Eduardo Magalhães – BA (Fonte: Moreira, 2008)

O Milho Bt já estará disponível ao produtor a partir da safrinha do próximo ano (2009). Nesta safra, ainda não haverá disponibilidade de sementes em quantidades significativas. Segundo as empresas que detêm a tecnologia, será liberada uma pequena quantidade para cada interessado, para que o usuário conheça melhor o híbrido transgênico. Quando realmente a tecnologia estiver disponível (disponibilidade de sementes), deverá ser utilizada com muito critério e responsabilidade mantendo 10% de áreas de refúgio como estratégia de manejo da resistência da lagarta-do-cartucho à toxina Bt. A área denominada de refúgio será aquela plantada com milho convencional (com uso de inseticida). Essa área não poderá ter mais de 1.500 metros de distância da área de milho Bt.

Dessa forma, o milho transgênico é mais uma ferramenta que os produtores terão em mãos para o manejo da lavoura, buscando otimizar a produção e aproveitar esse momento favorável ao milho no mercado internacional em função da grande demanda pelo cereal e garantia de preços compensatórios.

 


:: Comentários ::

José Nilton Fernandes de Moura -
Estudante

Gostaria de saber, se existem variedades de milho doce com o gene BT?
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Silvino Moreira - 06/01/2009 07:42
Consultor Técnico

Jose Nilton, Infelizmente no Brasil ainda não temos os milhos doces como os legitimos, que sao vendidos nos EUA. Os materiais mais usados no Brasil, que sao os dentados como AG1051 e 4051 (adaptados para cultivo em algumas regioes do pais) não estavam disponiveis na ultima safra, na modalidade Bt. No entanto, acreditamos que ja estarão disponiveis para essa safra. Um abraço
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juliete Bratz -
Estudante

Boa tecnologia usada para melhorar a produção de desde que não seja prejudicial ao meio ambiente
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