Quer dicas para driblar os desafios no transporte de ovinos? Leia em " O Transporte e as Ovelhas – Cuidados e Procedimentos Desejáveis".
Artigos Técnicos
Publicado em 21/07/2008 por Pedro Nobre de Lima, diretor da Procordeiro e aluno da Pós-graduação em Ovinocultura de Corte do ReHAgro.

O Transporte e as Ovelhas – Cuidados e Procedimentos Desejáveis
 
 
O término de tudo que se produz comercialmente na propriedade rural e que vai ser vendido passa necessariamente por algum tipo de transporte, seja ele o ombro do pastor, a caixa da charrete ou ainda a carroceria de alguma caminhonete ou caminhão...
 
Assim, se nos detivermos um pouco mais nesse aspecto da criação, dando a ele a devida importância, veremos que é a partir dali que estão sendo gerados os recursos que vão retro-alimentar a cadeia interna da produção. É a partir daquele transporte, que serão internalizados na propriedade os recursos necessários à sua manutenção e, por vezes, o lucro.
 
Sendo estas afirmativas passiveis de concordância geral pela sua simplicidade e clareza de entendimento, vamos, então, raciocinar em termos do que pode ser providenciado para que esta simples operação, de levar e trazer, seja bem melhor entendida e aproveitada. Citemos alguns cuidados e procedimentos que devem ser observados pelos produtores em benefício do seu negócio, nas diversas situações que se apresentam.
 
Comprando animais para iniciar a criação

Não raramente, um produtor iniciante tem pouca informação a respeito dos cuidados com a criação. Normalmente, compra animais vindos de locais distantes de sua propriedade, paga o preço proposto pelo vendedor, e quer que o transportador leve o maior número de animais pelo menor preço, em uma única viagem...
 
Não sabe, por exemplo, que, da mesma forma que se dividem os animais em classes na propriedade, em função das necessidades e porte, eles também têm que ser separados na hora de serem embarcados e transportados. Por exemplo, ovelhas paridas só podem ser transportadas separadas de suas crias, pois o pisoteio pode ser fatal.
 
Também, invariavelmente, se esquecem de verificar se a estrutura que dispõem é suficiente para o número de animais adquiridos ou se há compatibilidade de alimentação para fazer uma transição segura.
 
Cercas, bebedouros e cochos para alimentação e sal mineral, limpeza e desinfecção das instalações e apropriação de uma área de quarentena são procedimentos que nem sempre são observados. Hidratação e fornecimento de solução anti-estresse na véspera da viagem e após seu desembarque no destino são outros exemplos que podem ser citados.

Estes cuidados, que são básicos e elementares, por vezes são esclarecidos pelo transportador especializado que, pela prática e conhecimentos adquiridos em suas andanças, vai amealhando e repassando aos incautos criadores.
 
Vendendo a primeira Produção

Passados os primeiros tempos e todos os apuros que um produtor iniciante invariavelmente passa, é chegada a hora de vender a primeira produção...
 
 Depois de ter imaginado que faria todo o processo sozinho, criando, abatendo e comercializando, nosso criador descobre que não consegue ter escala de produção, continuidade e que boa parte do que vendeu não conseguiu receber. Assim associa-se a uma cooperativa ou faz uma venda ao frigorífico.
 
Nessa hora, em função de seu plantel ainda ser pequeno, não consegue ter um número suficiente de animais em padrão comercial de abate, mas, na ânsia de reduzir os custos de transporte, manda animais acima da idade, já passados. Os mais novos, por sua vez, são comercializados abaixo do peso recomendável, e o produtor é duplamente penalizado. Esta situação é mais comum quando a venda é feita ao frigorífico, quando fica sob sua responsabilidade a entrega dos animais na unidade de abate, no dia aprazado.
 
Já no caso da cooperativa, como passa a fazer parte de um roteiro de coleta, o produtor tem a possibilidade de fracionar as entregas, com animais dentro do tamanho, peso e idade limite. Pelo transporte ser solidário, o cooperado consegue economizar no frete, recebendo melhor valorização por sua produção.
 
Importante lembrar que, nesse caso, os animais deverão estar convenientemente identificados com o número do cooperado, tatuado em marca de fogo feita com antecedência na testa de todos os cordeiros e/ou ovelhas, para facultar a separação conveniente dos mesmos na hora do desembarque, anterior ao abate.

Na hora de embarcar os animais no transporte, ele descobre que precisa de pessoas e de uma estrutura de embarque que facilite a colocação dos mesmos no segundo piso. Esta condição será postergada ao máximo, acarretando em atrasos e comprometendo as demais coletas e a hora aprazada de chegada ao destino final, que pode ser outro produtor ou o frigorífico.
 
Equacionando os custos de transporte

Recentemente reajustado em função da majoração do valor cobrado pelo óleo diesel, o custo por quilômetro rodado de transporte dos animais em processo de comercialização é sempre um componente importante na hora de se avaliar os negócios com ovinos.
 
No caso de animais destinados ao abate, quanto mais animais forem transportados por vez, dentro dos limites impostos pelo veiculo transportador, menor será o custo unitário deste item na hora de se compor o custo final da produção levada ao abate.
 
 Já nos casos de compra de plantéis de recria, este custo sempre deve ser objeto de preocupação do comprador, visto que, na maioria das vezes, os negócios são fechados com frete por conta de quem compra.
 
 Existe ainda outro tipo de transporte em especial: o de animais de elite ou de introdução de novas raças. Comprados em feiras e leilões ou buscados a longas distâncias, nesse caso específico, o preço pago pelos animais e seu conforto no transporte são de fundamental importância para garantir a manutenção do investimento. Assim, o transportador deve providenciar cama de material absorvente, cochos para concentrados e volumosos e pequenos tanques ou baldes para o fornecimento regular de água. Além disso, também é importante fazer um bom plano de viagem, prevendo o desembarque dos animais em locais estrategicamente definidos, de forma a minimizar os efeitos nocivos do estresse das grandes distâncias embarcadas.

Sabidamente, este cuidado tem um maior custo que poderá ser minimizado se houver um perfeito entendimento entre os diversos produtores, se cotizando no transporte solidário, ou ainda comercializando parte da produção antes mesmo que o negócio aconteça.
Sabidamente, a melhor maneira de minimizar os custos de transporte é fazendo-o pelo menor custo por tonelada transportada, razão pela qual é importante conferir o próximo item.

O Transporte de Carnes Congeladas

Esta, provavelmente, será a forma mais econômica de transportar produtos de origem animal destinadas ao consumo regional ou às exportações, visto que esta é a forma mais barata de transporte de produtos de maior valor agregado.

O raciocínio é bastante simples, transportam-se, em boas condições de conservação, produtos acabados ou prontos para serem consumidos, cortados, embalados e fracionados de forma a retirar da ponta da distribuição os custos inerentes a estes serviços.

Desta forma, couros, patas, cabeças, miúdos e cortes menos nobres, além de outros produtos de menor valorização, ficam na origem da produção, destinados ao consumo local, com baixo custo de aquisição, ou têm seu destino computado com menor custo, quando transportado em veículos de menor custo unitário, após terem sofrido processamento mínimo.

O transporte de congelados, que requer especialização e especificidade do veículo de carga, tende a ser o mais caro em toda a cadeia de distribuição; condição que só se justifica se pensarmos em produtos de primeira linha, com maior valor agregado.

Traduzindo, esta condição só se tornará viável a partir de volumes comerciais mais expressivos, quando existirem no processo integrado de comercialização outros pontos regionais de abate certificado e a demanda do ponto central de distribuição tiver estrutura física e consumo para estas produções em curto espaço de tempo.

Andando Legal

 Todos estes passos e cuidados anteriormente descritos devem ainda estar associados a cuidados com o veículo de carga especializado no transporte de ovinos, bem como a documentação que deve acompanhar os animais.

Assim as verificações de rotina como pneus, óleos, filtros, tacógrafo e abastecimento de combustível do veículo e sua documentação devem estar rigorosamente em dia.

 Acobertando a mercadoria são necessários; a nota fiscal de emissão particular ou da Arrecadação Fazendária Estadual e a GTA ,Guia de Trânsito Animal, emitida a partir do laudo de sanidade elaborado pelo Veterinário Responsável Técnico pela criação, e o órgão Estadual de Defesa Sanitária, que em nosso caso (MG) é o Instituto Mineiro de Agropecuária, IMA.

Ainda sobre a questão da legalidade, deve-se planejar meticulosamente o peso dos animais embarcados visto que cada classe de veículo tem o seu PBT pré-estabelecido, ou seja, seu peso bruto total. Este, somado ao peso do veículo, que tem a gaiola de dois andares, tem de estar dentro dos limites de balança rodoviária.

Outro cuidado referente à legalidade, diz respeito ao número de horas de trabalho diário do motorista do transporte, que não pode exceder a 12 horas diárias na condução do veiculo, fiscalizada pela PRF aferindo-se o tacógrafo.
 
Pensando no Bicho

Como ficou evidenciado anteriormente, temos basicamente dois tipos de transporte de animais vivos: os destinados à recria e os que estão partindo da vida para cumprir a importante tarefa de virar alimento, vão para o abate.

Neste último caso, são admitidas lotações de até seis cordeiros por metro quadrado, estando na faixa dos trinta quilos ou menores. No caso de animais adultos ou cordeiros maiores, este valor vem para a faixa de quatro a cinco.

Nessa taxa de lotação, é impossível que os animais se deitem, mas se equilibram uns nos outros pela impossibilidade de se locomoverem nas caixas. É importante que haja ventilação suficiente para se evitar os efeitos nocivos da amônia, por exemplo.

Enquanto aguardam o transporte na propriedade, os animais destinados ao abate, previamente pesados e convenientemente identificados com a marca a fogo na testa (sem queimar o couro), devem continuar sendo alimentados e hidratados, visto que passarão algumas horas no transporte e outras tantas no frigorífico para eliminação do estresse de viagem e redução do volume de conteúdo estomacal, desejável por ocasião da matança.

Já os animais destinados à recria, exposições e feiras de ovinos devem receber tratamento diferenciado, especialmente nos percursos mais longos. As taxas de lotação devem ser cortadas pela metade e os animais precisam estar separados por classe de tamanho e peso, incluindo-se as matrizes que devem estar separadas das crias.

Para não comprometer a toalete e o preparo dos mesmos para as pistas, as caixas do transporte devem estar convenientemente forradas com material absorvente seco, além de se preverem paradas de inspeção, alimentação com volumoso, preferencialmente o feno, e a indispensável hidratação. A exemplo do que se faz no manejo de mamada nas propriedades, os lactentes deverão ter acesso às suas mães em intervalos regulares para não sofrerem o impacto do corte súbito de alimentação, condição que exige que o transportador tenha um ajudante para a realização destas tarefas durante o percurso.

Nas épocas do ano em que as temperaturas diurnas forem muito elevadas, procurar locomover-se nas horas mais frescas do dia e à noite, e nas épocas de frio intenso, nas horas mais quentes do dia. Em ambos os casos, o vento do deslocamento funciona como um agravante da condição climática.

Com todos estes cuidados previamente citados, ainda podem ocorrer lesões e óbitos durante o transporte que invariavelmente estão relacionados aos seguintes fatores:

 -Fazer grandes esforços físicos antes do embarque: comum nos locais onde os animais não estão previamente preparados para o embarque;

 - Animais fracos, doentes ou muito magros: nestes casos o estresse de transporte favorece o desencadeamento ou agravamento de problemas pré-existentes, resultando em óbito ainda dentro do caminhão, ou poucos dias ou horas após o desembarque;

 - Manejo de portas tipo guilhotina e lesões por ocasião da carga dos animais.

*Nota: Estas informações são resultantes de observações práticas de cinco óbitos ocorridos em mais de cem fretes e alguns milhares de ovinos transportados nos fretes realizados nos últimos três anos em que atuo na área de transporte de ovinos.


A Visão do Motorista

Além da óbvia necessária na condução do caminhão, como engenheiro agrônomo e profissional de logística, enxergo a atividade com olhos de ver, e tenho oportunidade de repassar um pouco de conhecimento e instruções de cuidados aos produtores visitados. Também é possível gerar negócios e, sobretudo, ter uma visão crítica de tudo quanto está sendo feito no setor: do aumento ou diminuição de plantéis, das melhores tecnologias empregadas, dos tipos de alimentação, dos melhores produtores, que normalmente são os mais entusiasmados com a atividade e que têm os melhores resultados...

Esta é uma atividade de importância elementar que, quando feita com gosto e dedicação, passa por cima de todas as dificuldades e falhas comportamentais dos produtores. Muitas vezes, as pessoas se esquecem de oferecer água ou um simples café a este profissional que vai contribuir para que as “dindas” cheguem ao seu bolso. 

Na grande maioria das vezes, não encontra em seu caminho o restaurante ou o hotel onde possa se alimentar, ou refazer-se do cansaço de horas de volante para cumprir escalas de abate e horários imprevisíveis (muitas vezes os animais a serem transportados não estão reunidos para o embarque no horário aprazado)...

Por tudo o que tem visto este profissional a cada dia, acredita na redenção da ovinocultura no Estado de Minas e no Brasil, que vem demonstrando sua vocação na produção de alimentos.

As ovelhas, estas vão muito bem obrigado, crescendo e se multiplicando...

                


 
:: Comentários ::

Leonardo de Rago N. Alves - 11/11/2008 11:25
Consultor Técnico

Caro Pedro, seu artigo é de suma importância, sendo muito útil e interessante no planejando logístico da propriedade, bem como na estratégia produtiva das fazendas.
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