Cruzamentos para aumentar sólidos - Produtores e pesquisadores fazem diferentes cruzamentos de raças visando elevar a produção de sólidos no leite.
Artigos Técnicos
Publicado em 01/08/2008 por Luiz H. Pitombo - Revista Balde Branco

Cruzamentos para aumentar sólidos

Cada vez mais, o produtor está sendo requisitado a ficar atento à qualidade do leite, conferindo fatores como a contagem de células somáticas, a bacteriana e o índice de sólidos. Certo é que diferentes ações podem influenciar tais números, como ocorre com a alimentação, para a gordura e a proteína. Mas é a genética, por meio do cruzamento de raças, a maneira mais segura e duradoura de se otimizar esses teores, além de se obter outros benefícios. No dia-a-dia, tanto produtores como pesquisadores fazem suas experiências. Uns testam o que já se conseguiu com sucesso no Exterior, outros procuram novos cruzamentos, na esperança de estabelecer um caminho que mais lhes convenha. A comprovação real é demorada e depende de um bom acompanhamento com registros criteriosos. Isso ainda não é muito freqüente na pecuária leiteira brasileira, o que evidentemente restringe conclusões mais objetivas nessas circunstâncias. Uma das cruzas que mais tem sido destacada é a da raça Jersey com Holandesa, tanto que a associação nacional da primeira dá como exemplo este procedimento, como também o cruzamento com o Girolando, como responsáveis pelo bom incremento nas vendas de sêmen dos seus reprodutores. No ano passado, já apareceu a comercialização, embora modesta, de sêmen do Jersolando brasileiro no relatório da Asbia-Associação Brasileira de Inseminação Artificial. Diferentes países utilizam este cruzamento, sendo o exemplo mais freqüente e contundente o da Nova Zelândia. Para verificar seus resultados nas condições brasileiras está em andamento um estudo, desde 2002, no campus da Ufscar-Universidade Federal de São Carlos, de Araras-SP. O número de animais em avaliação não é grande, totaliza 15 fêmeas Jersolando. Porém, a apuração de dados está se aprofundando, e os resultados, até agora, têm sido promissores. O professor Jozivaldo Prudêncio Gomes de Morais, que conduz a pesquisa, conta que são observados diferentes aspectos ligados à produção e à reprodução, através das várias  lactações. Um ponto fundamental é o aumento dos sólidos, visando a um mercado que se volta para isso. Como outros, ele aponta que o pagamento diferenciado é a forma de estimular o produtor a se preocupar mais com esse aspecto. Morais comenta que uma evolução de 1% nos teores já representa muito em termos do volume trabalhado pela indústria. O rebanho utilizado como base da pesquisa na Ufscar é de Holandês PB, composto de 20 vacas procedentes do Uruguai, e o sêmen de Jersey é dos Estados Unidos. Os animais recebem concentrado e são mantidos, nas águas, em pastos de mombaça rotacionados, e na seca, recebem cana-de-açúcar. Sobre a questão de se usar raças puras, ele comenta que nos cruzamentos, por meio da heterose, é possível aproveitar o que há de melhor nos diferentes grupos genéticos, aumentando a resistência, reprodução e produção dos animais.

JERSOLANDO NA DIREÇÃO DO TRICROSS - Os sólidos na pesquisa com os cruzados Jersolando meio-sangue (os 3/4 estão começando a produzir) "têm apresentado uma expressiva diferença, embora com teores abaixo dos do Jersey", observa Morais. Eles estão, em média, com 6,07% de gordura, 3,00% de proteína e 4,47% de lactose, contra 4,08%, 3,05% e 4,31%, respectivamente, do Holandês PB. No total da lactação, o Holandês e o cruzado produziram em torno de 4.400 kg, com o Jersolando rendendo até um pouco mais; contudo, a diferença não é significativa, pondera o pesquisador. A idade ao primeiro parto do cruzado foi de 25,8 meses, e de 28,4 meses, para o puro, enquanto o período do parto atéo cio ficou em 40,3 dias para o primeiro grupo, e em 70,8 dias, para o segundo. O retorno daconcepção mais tardia desse grupo, de acordo com Morais, pode estar relacionado à questãodo estresse térmico desta raça mantida a pasto numa região quente. Outros a relacionam a questões envolvendo a consangüinidade na raça. Em relação aos cascos dos animais cruzados, não se identificaram problemas. Um aspecto limitante do ponto de vista econômico pode ocorrer como resultado do sistema de produção. Isso porque, como afirma, em vacas mantidas em free-stall se pressupõe um grande volume de produção por animal, e aí, o Holandês rende muito mais. Morais enfatiza que as pesquisas ainda estão em andamento e que espera um maior número de lactações acumuladas e avaliadas; hoje, em número de quatro. Ele deseja estudar aspectos da longevidade, englobando produção, fertilidade e cascos. Também irá estudar os hábitos de pastejo, como o tempo, horários e a taxa de bocado, pois lembra que em outros países são utilizadas gramíneas que não existem por aqui e o clima é diferente. Para dar continuidade a esse cruzamento, uma possibilidade, segundo Morais, seria o sistema "vai e volta", alternando o sêmen das duas raças. A pesquisa também enfoca, agora, os efeitos de uma terceira raça, a Sueca Vermelha, com os primeiros animais tricross nascidos devendo entrar em produção no ano que vem. A meta é ver o resultado considerando que aheterose irá se manter mais elevada do que a alternância com duas raças, conseguindo com isso um resultado semelhante aos do meio sangue. A idéia é, depois, voltar com Holandês, Jersey e, de novo, com a Sueca Vermelha. Esta raça, como indica Morais, tem características interessantes para o Brasil, pois está habituada a ficar um bom tempo solta no pasto, tem um porte robusto similar ao do Holandês e apresenta bons níveis de produção, reprodução e de sólidos; estes, ficando um pouco acima do Holandês, mas um pouco abaixo do Jersey. A raça já é pesquisada e utilizada em cruzamentos em outros países e por vários criadores no Brasil.

                     Jersey com Holandês apresenta resultados animadores na Ufscar

GIROLANDO E AS RAÇAS EUROPÉIAS - Outro estudo que verificou os impactos de cruzamentos na qualidade do leite, na reprodução e, principalmente, em relação ao retorno econômico, aconteceu por intermédio da Embrapa Gado de Leite. Ele foi realizado pelos pesquisadores Roberto Luiz Teodoro, desta instituição, e por Fernando Enrique Madalena, professor da Escola de Veterinária da UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais. Foram 14 anos de coleta de dados envolvendo a análise de um total de 480 lactações de 75 animais por toda sua vida produtiva. A base do rebanho foi resultante de cruzamentos entre  Holandês e Gir, obtendo-se animais com vários graus de sangue, para posteriormente serem inseminados formando três grupos para avaliação: um com a volta do Holandês, outro com Jersey e um com o Pardo-Suíço. A maioria do sêmen utilizado era procedente dos Estados Unidos e do Canadá. Na análise econômica, entram os custos do concentrado, pastagem, volumoso, ordenha, dentre outros. Como receita, se considerou a venda do leite, novilhas excedentes e o descarte de vacas. O sistema de produção adotado foi o da cria artificial das bezerras, com a venda dos machos ao nascer. Assim, suas conclusões não devem ser extrapoladas para outro tipo de manejo. No estudo, foram calculadas quatro situações diferentes de pagamento do leite, desde a que não remunera por sólidos até a que paga mais pela proteína; menos pela gordura e com desconto pelo veículo (volume). Madalena comenta que o maior lucro, em todas as condições de pagamento, ficou com o tricross de Jersey. Isso, por serem animais de menor porte, que exigiram um gasto mais baixo com a mantença. Mostraram-se mais férteis, com a média do primeiro parto acontecendo aos 2,68 anos, contra 3,07 anos do Holandês e 3,17 anos do Pardo-Suíço. Sua vida útil atingiu 8,12 anos, em média, com parando com 7,24 anos do Pardo-Suíço, e 6 anos, do Holandês. Quanto aos teores de gordura e proteína,estes se mostraram mais elevados no cruzamento com o Pardo-Suíço, 3,77% e 3,16%, respectivamente, vindo, logo a seguir, a Jersey, com 3,73% de gordura e 3,10% de proteína. Mas o pesquisador afirma que a rentabilidade ficou menor com a Pardo-Suíço, por aspectos como a entrada mais tardia em reprodução. Ele ressalta que o pecuarista deve analisar todo um conjunto de fatores para determinar qual tipo de animal é realmente mais lucrativo. Uma alternativa para dar continuidade ao tricross de Jersey, como sugere Madalena, seria voltar com o Gir quando os animais apresentarem 7/8 ou mais de sangue europeu. A ele, se seguiria o Holandês, e depois, o Jersey.

TRÊS RAÇAS EM SEQÜÊNCIA - A Granja Arnetra, de Ponta Grossa-PR, há oito anos realiza o cruzamento de três raças em seqüência, tendo por base um rebanho Jersey. Os principais objetivos são longevidade, volume de produção e sólidos elevados. Com a genética em sua totalidade sendo norte-americana, as vacas Jersey são inseminadas primeiramente com Holandês VB. Essas filhas são depois emprenhadas com Ayrshire, e as netas, com Guernsey, para depois retornar ao Jersey e, assim, sucessivamente. A pelagem vermelha, segundo o criador Wanderson Francisco, dono da granja, é uma questão de mercado, pois existem clientes que preferem esta cor nos animais que comercializam. Mas comenta que as duas outras raças que usa após a Holandesa VB produzem mais sólidos do que esta e são mais rústicas. Por outro lado, acredita que se utilizasse o Holandês PB, poderia melhorar seus resultados, pois esse tipo dispõe de mais opções de touros.Ele explica que dá continuidade ao trabalho que era realizado pelo seu sogro. "Antes, fazíamos cruzamentos de Jersey com Holandês PB, mas passamos a adotar as demais raças para manter uma heterose de quase 100%", afirma o produtor.

             Girolando é base para outros cruzamentos visando mais gordura e proteína

O rebanho atual da propriedade é de 215 cabeças, com 120 vacas em lactação manejadas em free-stall, que lhe rendem em torno de 3.000 kg de leite/dia. Quando esse trabalho começou, diz que a meta era chegar a um terço do rebanho com cruzadas, e o restante, de Jersey. Hoje, já está com 50% de cruzadas e diz que agora a meta é atingir 2/3 de cruzadas e um terço de Jersey. O proprietário tem um bom controle das várias etapas do cruzamento. O rebanho de Jersey tem uma produção média ajustada de8.000 kg de leite em 305 dias, com 5% de gordura dura e 3,6% de proteína. No primeiro cruzamento, o volume sobe para 9.500 kg, com a gordura ficando entre 3,7 e 3,8%, e a proteína, entre 3,3% e 3,4%. Nas duas etapas seguintes, a produção total se mantém em 9.500 kg, os teores de gordura ficam entre 3,9% e 4%, e a proteína, em 3,4%. A alimentação que fornece é à base de silagem de milho, pré-secado de azevém e concentrado, realizando três ordenhas diárias. O lote puro, no qual os animais pesam cerca de 450 kg, é manejado separadamente das cruzadas, que têm peso médio de 550 kg a 580 kg.Francisco afirma que a queda no teor de sólidos das cruzas frente ao Jersey puro é compensada pelo maior volume de produção, 1.500 kg a mais por lactação, e também pelos sólidos ali contidos. Ele tem isso "na ponta do lápis", pois recebe adicional de 2,4% pela proteína, e de 6,9%, pela gordura, a partir de um preçobase. A contagem de células somáticas e o resfriamento também lhe rendem bônus. Outro benefício importante que destaca é a longevidade, que, nas cruzadas, fica na média de 7,3 anos, embora tenha vacas de 14 anos em produção. No rebanho Jersey, diz que a média é de 6 anos, com as mais velhas atingindo 10 anos. Ele acredita que os resultados desse cruzamento possam ser também alcançados em manejos a pasto.

CRUZAMENTOS PARA PRODUZIR QUEIJO - Martin Breuer, produtor da região de Itapetininga- SP, mantinha na Fazenda Santa Luzia duas raças, a Holandesa PB e a Simental, com sua dupla aptidão. Entretanto, para conseguir um melhor destino e comercialização para os machinhos da primeira raça, passou a cruzá-la com a Simental. Na época, ainda entregava sua produção de leite a um laticínio, mas posteriormente montou uma queijaria artesanal. Foi nessa ocasião que começou a dar real importância aos teores de sólidos no leite, que, na Simental, são superiores. A partir daí, seu trabalho se direcionou para estabelecer um rebanho dessa raça, por meio de cruzamentos absorvendo a Holandesa. Nela, foi buscar um aumento na produção de leite e qualidade de úbere. Breuer, que é jurado da raça Simental, avalia que em seu rebanho PC em formação, os úberes estão num patamar de médio para bom, com vários excelentes.
 
             Breuer destaca índices de Simental com cruzamentos absorvendo Holandês

Atualmente, a fazenda tem cerca de 75 cabeças, com 29 vacas em diferentes estágios de lactação, sendo a maioria de Simental PC, rendendo um total de 350 litros de leite/dia. Considerando os dados médios do controle leiteiro de diferentes animais, realizado perto de 60 dias pós-parto, as vacas Simental PO estavam produzindo 16,02 litros/dia com 3,85% de proteína, 3,56% de gordura e 4,57% de lactose. Os animais PC estavam rendendo um pouco mais em volume, 16,53 litros, com teores de 3,84%, 3,65% e 4,52%, respectivamente. Nas vacas meio sangue, na primeira etapa do cruzamento, a produção foi de 16,51 litros, com 3,81% de gordura, 3,35% de proteína e 4,46% de lactose, enquanto na Holandesa, esses teores estavam em 3,49%, 3,25% e 4,41%, respectivamente. Martin Breuer ressalva que a produção efetiva dos seus animais é maior, mas opta por manter os bezerros junto às vacas
Simental para uma melhor cria, aliado à alimentação por meio do sistema creep feeding. Além
do que, lembra que os animais não estavam no pico da lactação quando o controle foi realizado.Independentemente disso, enfatiza que seu rebanho tem potencial para render mais, e que isso vai aparecer quando melhorar a nutriçãodos animais, que, hoje, é econômica.


:: Comentários ::

anderson bacciotti -
Estudante

Oi, eu achei muito bom mesmo este artigo, mas o meu t.c.c é sobre a produção e qualidade fisico-química do leite com foco na alimentação das vacas, e nas minhas visitas aos sitios e fazendas,verifiquei que aqui predomina vacas holandesas e girolando. Se puderem me mandar algum artigo sobre a diferença de volume de cada raça, eu poderia deixar meu trabalho mais rico em informações. obrigado. email: bombeirobacci@hotmail.com
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Equipe ReHAgro - 14/10/2008 10:42
Consultor Técnico

Anderson, Que bom que você gostou do artigo! Todos os artigos que temos disponíveis estão publicados no nosso site. Por meio da ferramenta de busca do campo "Publicações" você conseguirá encontrar diversos ,materiais sobre este e outros assuntos. Fique à vontade para pesquisar no Portal ReHAgro!
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Aline - 15/11/2009 16:16
Estudante

Esta ficando, cada vez melhores os cruzamentos, de holandes, jersey e gir. gostei do site =]
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SAMUEL -
Produtor - Gado de Leite

Estou interessado em adquirir novilhas e um tourinho simental, gostaria de saber onde eu posso comprar esses animais.
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anderson -
Produtor - Gado de Leite

Oi, tenho vontade de colocar em minha fazenda um touro simental, mas posso dizer que minhas vacas são mais comuns, não são vacas de alta produtividade, mas são vacas pesadas, sendo que também tenho na fazenda algumas vacas nelores P.O. . Estou voltando a visão da fazenda para bezerros de qualidade, não só pra peso, mas com aptidão leiteira. Vocês podem me orientar melhor?
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mario cesar basso -
Produtor - Gado de Leite

Sou criador de Jersey PC e PO. Estou fazendo cruza com holandês. Gostaria que as empresas especializadas em reprodução oferecessem sêmen de jersolando. Para facilitar o cruzamento e melhorarmos a raça jersolando. Obrigado.
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leonardo -
Funcionário Empresa

Gostaria de saber se tem cruzamento de godo gir leiteiro com simental leiteiro se e uma boa opção.
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Mauro Rodrigues - 16/06/2010 10:11
Produtor - Gado de Corte

Gostaria de saber se posso inseminar vacas Jersey com semem de touro Gir.
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