Verminoses em ovinos - um fator limitante em sistemas de produção

O Brasil, com sua enorme extensão territorial e clima favorável à espécie ovina, apresenta um altíssimo potencial para se tornar um importante produtor mundial de ovinos. A exploração racional desses animais encontra-se em franca expansão em todas as regiões do país, resultante dos novos nichos de mercado que estão sendo conquistados e sedimentados.
No entanto, diversos problemas verificados nos sistemas de produção ainda constituem fatores limitantes para a produtividade dos rebanhos, e, por extensão, para a qualidade e a regularidade na oferta dos produtos deles derivados. Dentre os entraves para a maior expansão da atividade, questões ligadas ao manejo sanitário têm externado expressivas perdas nos índices produtivos, resultando na incapacidade de uma expansão exponencial da ovinocultura.
O estado sanitário dos animais, associado à ausência ou ao uso inadequado de tecnologias, constitui uma importante causa de baixa produção e rentabilidade dos rebanhos. As doenças afetam negativamente a produção, seja pelas perdas ocasionadas por distúrbios nas condições fisiológicas dos animais, determinando altas taxas de morbidade, ou devido à mortalidade e abortos. Estes fatores estão diretamente relacionados à redução do ganho de peso, queda na produção de leite e diminuição da qualidade e do rendimento das carcaças. Deve-se atentar também para os custos com mão de obra capacitada e com medicamentos.
Dentre os fatores que interferem no desenvolvimento pleno da ovinocultura no Brasil, as helmintoses gastrintestinais representam o maior e mais grave problema sanitário, podendo, em algumas situações, inviabilizar economicamente a criação.
Em geral, as infecções são mistas, ou seja, os animais são parasitados por diferentes espécies ao mesmo tempo. As espécies de maior ocorrência nas regiões tropicais são: Haemonchus contortus, Trichostrongylus colubriformis, Strongyloides spp., Cooperia spp. e Oesophagostomum columbianum. Entre essas espécies, a mais importante que podemos citar é a H. contortus, parasita do abomaso. Este representante da família Trichostrongylidae caracteriza-se por ser essencialmente hematófago e muito prevalente no Brasil.
O ciclo de vida do Haemonchus contortus envolve uma fase livre e uma parasitária. A fase livre é caracterizada pelo desenvolvimento dos ovos até larvas contaminantes (L3) e ocorre nas pastagens. A fase parasitária ocorre durante a evolução das larvas infectantes ingeridas pelos animais até se tornarem adultos e produzirem ovos. A fase de vida livre inicia-se com a passagem de ovos nas fezes de animais parasitados. No meio ambiente, uma larva se desenvolve dentro do ovo e é liberada após a eclosão. A larva cresce e muda duas vezes antes de se tornar infectante quando, então, migra do interior das fezes para a pastagem. O desenvolvimento do ovo da larva contaminante ocorre geralmente de 5 a 7 dias, em condições ambientais favoráveis. A larva contaminante, após ser ingerida com a pastagem, prossegue o seu desenvolvimento no organismo dos animais, atingindo o estágio adulto em cerca de 21 a 28 dias. Durante o desenvolvimento, as larvas mudam para o quarto estágio ou adulto imaturo, aumentam de tamanho, diferenciam os órgãos e se tornam adultos. É importante notar que cada larva contaminante ao ser ingerida, gera apenas um adulto, macho ou fêmea. Os helmintos adultos copulam e as fêmeas iniciam a postura. Por possuírem hábito hematófago, estes helmintos localizam-se no abomaso onde há maior irrigação de sangue. Eles estão distribuídos geograficamente por todo o mundo, especialmente nas regiões de climas quentes e úmidos.
Fonte: Karin Christensen (2004)
Disponível em: http://www.goatbiology.com/animations/haem.html
As ações prejudiciais dos parasitos geralmente ocorrem de forma associada em função das infecções mistas. Elas produzem perdas não somente pelos efeitos agudos da doença que, em muitos casos, resultam em morte do animal afetado, mas, principalmente, pelos efeitos de infecções prolongadas que levam a um desenvolvimento corporal lento, emagrecimento, redução na produção de carne e lã e custos monetários para o controle da verminose, incluindo o valor da aquisição do produto anti-helmíntico (vermífugo) comercial e da mão de obra para a aplicação do medicamento.
O edema submandibular é um dos sintomas da verminose.Fonte: Fotografia gentilmente cedida pelo médico veterinário Sérgio Ribeiro.
Mucosa ocular pálida mostrando anemia, comum em casos de haemoncose.Fonte: Fotografia gentilmente cedida pelo médico veterinário Sérgio Ribeiro.
O controle destes parasitos por produtores é usualmente focado na utilização de anti-helmínticos, visando reduzir os níveis de infecção dos animais e promover a descontaminação das pastagens. A maioria dos criadores não tem acesso às informações técnicas atualizadas sobre o manejo parasitológico adequado do rebanho, principal fator no controle das parasitoses. Como conseqüência, formulações lançadas no mercado veterinário, destinadas ao controle da verminose, perdem a eficácia em poucos anos dentro da propriedade.
Pesquisadores alertam que, com a utilização de drogas de forma pouco criteriosa, muito em breve, haverá a redução das fontes de controle químico causando enormes prejuízos para os produtores que dependem desta atividade. Estas observações vêm estimulando o desenvolvimento de pesquisas alternativas na busca da manutenção da eficácia das drogas antiparasitárias assim como a sustentabilidade da produção agropecuária. Tais métodos têm como objetivo central diminuir o uso de anti-helmínticos, reduzir a concentração das drogas no meio ambiente, no leite, na carne e possibilitar a participação de produtores nos processos de certificação para melhoria da qualidade de produtos animais.
A situação é alarmante em países como Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil onde se encontram os maiores níveis de resistência anti-helmíntica do mundo. Por essa razão, certos grupos de pesquisadores acreditam que o uso da combinação de princípios ativos com mecanismos de ação diferentes pode ser uma medida para melhorar a eficácia de cada droga isoladamente até mesmo na prevenção da resistência parasitária.
Unindo todas estas possibilidades à atual busca por um mercado que prioriza a saúde, o meio ambiente e o bem-estar animal, o tratamento antiparasitário seletivo, opostamente ao tratamento profilático, pode ser uma metodologia viável para técnicos, produtores e companhias farmacêuticas.
Os problemas relacionados à resistência e ecotoxicidade enfatizam a necessidade de serem implementados programas integrados de controle parasitário que assegurem saúde e segurança dos organismos vivos, por meio de tratamentos estratégicos baseados na epidemiologia, eliminação de vermifugações desnecessárias, utilização de pastoreio alternado e higienização de pastagens. Além disto, deve-se evitar o uso continuado de uma mesma classe de antihelmíntico até que se esgote toda a sua ação, assim como a rápida rotação de compostos, a introdução de vermes resistentes e a utilização de doses inferiores às recomendadas. A identificação de marcadores relacionados à resistência genética dos hospedeiros ao estabelecimento dos parasitos pode ser uma ferramenta para a tomada de decisões sobre cruzamentos raciais. Práticas de manejo que contribuam para o aumento da imunidade pela nutrição e ou vacinas, também podem ser úteis para incrementar os níveis produtivos. A utilização de taninos extraídos a partir de plantas, que funcionem como vermífugos e a seleção de espécies de gramíneas que dificultem o desenvolvimento larvar no meio ambiente são propostas disponíveis, porém ainda não exploradas e validadas.
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