Saiba mais sobre verminoses em ovinos, seus agentes, sintomas e controle no artigo "Verminoses em ovinos - um fator limitante em sistemas de produção". COM VÍDEO!
Artigos Técnicos
Publicado em 25/08/2008 por Tatiana Maciel - Médica veterinária, pós-graduada em ovinocultura de corte

Verminoses em ovinos - um fator limitante em sistemas de produção

                

O Brasil, com sua enorme extensão territorial e clima favorável à espécie ovina, apresenta um altíssimo potencial para se tornar um importante produtor mundial de ovinos. A exploração racional desses animais encontra-se em franca expansão em todas as regiões do país, resultante dos novos nichos de mercado que estão sendo conquistados e sedimentados.

No entanto, diversos problemas verificados nos sistemas de produção ainda constituem fatores limitantes para a produtividade dos rebanhos, e, por extensão, para a qualidade e a regularidade na oferta dos produtos deles derivados. Dentre os entraves para a maior expansão da atividade, questões ligadas ao manejo sanitário têm externado expressivas perdas nos índices produtivos, resultando na incapacidade de uma expansão exponencial da ovinocultura.

O estado sanitário dos animais, associado à ausência ou ao uso inadequado de tecnologias, constitui uma importante causa de baixa produção e rentabilidade dos rebanhos. As doenças afetam negativamente a produção, seja pelas perdas ocasionadas por distúrbios nas condições fisiológicas dos animais, determinando altas taxas de morbidade, ou devido à mortalidade e abortos. Estes fatores estão diretamente relacionados à redução do ganho de peso, queda na produção de leite e diminuição da qualidade e do rendimento das carcaças. Deve-se atentar também para os custos com mão de obra capacitada e com medicamentos.

Dentre os fatores que interferem no desenvolvimento pleno da ovinocultura no Brasil, as helmintoses gastrintestinais representam o maior e mais grave problema sanitário, podendo, em algumas situações, inviabilizar economicamente a criação.

Em geral, as infecções são mistas, ou seja, os animais são parasitados por diferentes espécies ao mesmo tempo. As espécies de maior ocorrência nas regiões tropicais são: Haemonchus contortus, Trichostrongylus colubriformis, Strongyloides spp., Cooperia spp. e Oesophagostomum columbianum. Entre essas espécies, a mais importante que podemos citar é a H. contortus, parasita do abomaso. Este representante da família Trichostrongylidae caracteriza-se por ser essencialmente hematófago e muito prevalente no Brasil.

O ciclo de vida do Haemonchus contortus envolve uma fase livre e uma parasitária. A fase livre é caracterizada pelo desenvolvimento dos ovos até larvas contaminantes (L3) e ocorre nas pastagens. A fase parasitária ocorre durante a evolução das larvas infectantes ingeridas pelos animais até se tornarem adultos e produzirem ovos. A fase de vida livre inicia-se com a passagem de ovos nas fezes de animais parasitados. No meio ambiente, uma larva se desenvolve dentro do ovo e é liberada após a eclosão. A larva cresce e muda duas vezes antes de se tornar infectante quando, então, migra do interior das fezes para a pastagem. O desenvolvimento do ovo da larva contaminante ocorre geralmente de 5 a 7 dias, em condições ambientais favoráveis. A larva contaminante, após ser ingerida com a pastagem, prossegue o seu desenvolvimento no organismo dos animais, atingindo o estágio adulto em cerca de 21 a 28 dias. Durante o desenvolvimento, as larvas mudam para o quarto estágio ou adulto imaturo, aumentam de tamanho, diferenciam os órgãos e se tornam adultos. É importante notar que cada larva contaminante ao ser ingerida, gera apenas um adulto, macho ou fêmea. Os helmintos adultos copulam e as fêmeas iniciam a postura. Por possuírem hábito hematófago, estes helmintos localizam-se no abomaso onde há maior irrigação de sangue. Eles estão distribuídos geograficamente por todo o mundo, especialmente nas regiões de climas quentes e úmidos.

                                                               Fonte: Karin Christensen (2004)
                  Disponível em: http://www.goatbiology.com/animations/haem.html

As ações prejudiciais dos parasitos geralmente ocorrem de forma associada em função das infecções mistas. Elas produzem perdas não somente pelos efeitos agudos da doença que, em muitos casos, resultam em morte do animal afetado, mas, principalmente, pelos efeitos de infecções prolongadas que levam a um desenvolvimento corporal lento, emagrecimento, redução na produção de carne e lã e custos monetários para o controle da verminose, incluindo o valor da aquisição do produto anti-helmíntico (vermífugo) comercial e da mão de obra para a aplicação do medicamento.

    O edema submandibular é um dos sintomas da verminose.Fonte: Fotografia gentilmente cedida pelo médico veterinário Sérgio Ribeiro.

        Mucosa ocular pálida mostrando anemia, comum em casos de haemoncose.Fonte:                 Fotografia gentilmente cedida pelo médico veterinário Sérgio Ribeiro.

O controle destes parasitos por produtores é usualmente focado na utilização de anti-helmínticos, visando reduzir os níveis de infecção dos animais e promover a descontaminação das pastagens. A maioria dos criadores não tem acesso às informações técnicas atualizadas sobre o manejo parasitológico adequado do rebanho, principal fator no controle das parasitoses. Como conseqüência, formulações lançadas no mercado veterinário, destinadas ao controle da verminose, perdem a eficácia em poucos anos dentro da propriedade.

Pesquisadores alertam que, com a utilização de drogas de forma pouco criteriosa, muito em breve, haverá a redução das fontes de controle químico causando enormes prejuízos para os produtores que dependem desta atividade. Estas observações vêm estimulando o desenvolvimento de pesquisas alternativas na busca da manutenção da eficácia das drogas antiparasitárias assim como a sustentabilidade da produção agropecuária. Tais métodos têm como objetivo central diminuir o uso de anti-helmínticos, reduzir a concentração das drogas no meio ambiente, no leite, na carne e possibilitar a participação de produtores nos processos de certificação para melhoria da qualidade de produtos animais.

A situação é alarmante em países como Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil onde se encontram os maiores níveis de resistência anti-helmíntica do mundo. Por essa razão, certos grupos de pesquisadores acreditam que o uso da combinação de princípios ativos com mecanismos de ação diferentes pode ser uma medida para melhorar a eficácia de cada droga isoladamente até mesmo na prevenção da resistência parasitária.

Unindo todas estas possibilidades à atual busca por um mercado que prioriza a saúde, o meio ambiente e o bem-estar animal, o tratamento antiparasitário seletivo, opostamente ao tratamento profilático, pode ser uma metodologia viável para técnicos, produtores e companhias farmacêuticas.

Os problemas relacionados à resistência e ecotoxicidade enfatizam a necessidade de serem implementados programas integrados de controle parasitário que assegurem saúde e segurança dos organismos vivos, por meio de tratamentos estratégicos baseados na epidemiologia, eliminação de vermifugações desnecessárias, utilização de pastoreio alternado e higienização de pastagens. Além disto, deve-se evitar o uso continuado de uma mesma classe de antihelmíntico até que se esgote toda a sua ação, assim como a rápida rotação de compostos, a introdução de vermes resistentes e a utilização de doses inferiores às recomendadas. A identificação de marcadores relacionados à resistência genética dos hospedeiros ao estabelecimento dos parasitos pode ser uma ferramenta para a tomada de decisões sobre cruzamentos raciais. Práticas de manejo que contribuam para o aumento da imunidade pela nutrição e ou vacinas, também podem ser úteis para incrementar os níveis produtivos. A utilização de taninos extraídos a partir de plantas, que funcionem como vermífugos e a seleção de espécies de gramíneas que dificultem o desenvolvimento larvar no meio ambiente são propostas disponíveis, porém ainda não exploradas e validadas.

Referências Bibliográficas:

BOWMAN, Dwight D., et al. Parasitologia veterinária de Georgis. Barueri: Manole, 2006. 422p.

CHAGAS, Ana Carolina S. Práticas de controle da verminose em ovinos e caprinos. Comunicado técnico On line, 63 - EMBRAPA - CNPC. Sobral, CE, Dezembro, 2005. Disponível em: http://www.cnpc.embrapa.br/cot63.pdf.

CHAGAS, Ana Carolina S.; VIEIRA, Luiz da Silva.; CAVALCANTE, Antônio Cezar R.; MARTINS, Luiz Alberto. Controle de verminose em pequenos ruminantes adaptado para a Região da Zona da Mata/MG e Região Serrana do Rio de Janeiro. Circular técnica On line, 30 - EMBRAPA - CNPC. Sobral,CE, Novembro, 2005. Disponível em:http://www.cnpc.embrapa.br/ct30.pdf.

FERNANDES, L.H.; SENO, M.C.Z.; AMARANTE, A.F.T., et al. Efeito do pastejo rotacionado e alternado com bovinos adultos no controle da verminose em ovelhas. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., Belo Horizonte, v.56, n.6, 2004.

FORTES, Elinor. Parasitologia veterinária. 4. ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: Ícone, 2004. 607p.

MELO, A.C.F.L.; REIS, I.F.; BEVILAQUA, C.M.L., et al. Nematódeos resistentes a anti-helminticos em rebanhos de ovinos e caprinos do estado do Ceará, Brasil. Ciência Rural. Santa Maria, v.33, n. 2, p.339-344, 2003.
 
OSAKA, D.M.; Macedo, V.P.; Zundt, M., et al. Verminose ovina com ênfase em haemoncose: uma revisão. PUBVET, v.2, n.16, Abr 3, 2008.

RAMOS, César Itaqui; BELLATO, Valdomiro; ÁVILA, V.S., et al. Resistência de parasitos gastrintestinais de ovinos a alguns anti-helmínticos no estado de Santa Catarina, Brasil. Ciência Rural. Santa Maria, v.32, n.3, p.473-477, 2002.

RAMOS, César Itaqui; BELLATO, Valdomiro; SOUZA, Antonio Pereira de, et al. Epidemiologia das helmintoses gastrintestinais de ovinos no Planalto Catarinense. Cienc. Rural, Santa Maria, v.34, n.6, 2004.

SLOSS, Margaret W. Parasitologia clínica veterinária. 6 ed. São Paulo: Manole, 1999. 198p.

VIEIRA, Luiz da Silva. Endoparasitoses gastrintestinais em caprinos e ovinos. Documentos On line, 58 - EMBRAPA - CNPC. Sobral, CE, Dezembro, 2005. Disponível em: http://www.cnpc.embrapa.br/doc58.pdf.


 

 

 

 

 

:: Comentários ::

Luiz Teixeira -
Produtor - Ovino

Quero agradecer as informações sobre verminose! É bastante util a nós, criadores de ovinos. São bastante interessantes as ilustrações e acredito que deverão utilizar, tanto em fotografia como em video. Se necessitarem poderei enviar material fotográfico de ovelhas em macro-fotografia, pois sou especialista em produção de imagens fotográficas. Poderei cedê-las sem ônus algum, somente dando o crédito a foto.
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ASSIS HOLANDA -
Produtor - Ovino

Quero agradecer pela informação obtida nesta pagina, pois vai ser de grande valia. Gostaria de ter informação sobre um problema que esta acontecendo em minha propriedade: Estou com uma incidência de morte de animais por parada intestinal. Quando abrimos o animal, depois de morto, encontramos uma grande quantidade de fezes ressecadas. Isso é proveniente de de verminose ou erva daninha? Com quem posso tomar essas informações? Assis Holanda União dos Palmares Alagoas fone 082 88360590 hseletronico@ig.com.br Muito Obrigado
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Equipe ReHAgro - 09/10/2008 15:08
Consultor Técnico

Luiz, Que bom que gostou do artigo!Fique à vontade para pesquisar no nosso site mais informações saobre ovinos.Obrigado pela oferta das fotografias! Seria de muita valia se você pudesse disponibilizá-las. E é claro que os créditos são todos seus!
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Tatiana Maciel -
Consultor Técnico

Prezado Sr. Assis, Muito bom dia! Em primeiro lugar gostaria de pedir-lhe desculpas pela demora em respondê-lo. Gostaria também de agradecer imensamente a sua particiapação em nosso site e dizer-lhe que encaminhamos a resposta de sua dúvida para o seu e mail (hseletronico@ig.com.br). Espero poder tê-lo ajudado e desde já coloco-me à disposição para qualquer outro esclarecimento.
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ricardo uiarete de oliveira paiva -
Pesquisador

Material de excelente qualidade, principalmente pelas ilustrações, porque se assimila melhor o conteúdo da materia. Eu já venho pesquisando há bastante tempo a respeito de verminose, mais acho que todo as pesquisas desenvolvidas no sentido precisam ser embasadas em um bom manejo alimentar, manejo de boas instalações e um bom manejo sanitário. Se nós conseguirmos conscientizar o criador, sobretudo quanto ao bem estar animal, as verminoses nem existiriam.
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